JBS lança bonds com juros atrelados à redução de gases de efeito estufa

Títulos deixam de fora as emissões da cadeia de valor — incluindo a criação de gado —, que representam cerca de 90% do total da companhia

 

(Atualizado às 21h10*) — A JBS anunciou uma emissão externa de sustainability-linked bond, com juros atrelados a compromissos de redução de emissões de gases de efeito estufa. 

Trata-se da primeira operação do tipo no país para um empresa de frigoríficos — um setor que enfrenta diversas controvérsias, entre outros fatores, por conta da associação de parte de sua cadeia de valor com o desmatamento.

A operação, de US$ 1 bi, saiu com yield de 3,75% ao ano e cupom anual 3,625%. Os títulos terão vencimento em 2032. 

A meta de sustentabilidade é reduzir a intensidade de emissões de gases efeito estufa (por tonelada de produto vendido) em 30% até 2030, em relação aos patamares de 2019. 

A emissão inclui metas intermediárias, a partir de 2025. Se não cumpri-las, os juros a serem pagos pela companhia aos detentores sobem 0,25 ponto percentual ao ano.

As metas incluem apenas os chamados escopo 1 e 2, das operações diretas e da energia utilizada para abastecê-las, e deixa de fora o escopo 3, associado à cadeia de fornecedores e onde está a maior parte das emissões da indústria. (Boa parte vem da emissão de metano gerado pelos próprios animais e pela supressão de vegetação que alguns criadores de gado utilizam para liberar pastagens.)

O parecer de segunda opinião, documento que avalia a robustez das metas de sustentabilidade, elaborado pela consultoria ISS, aponta que “o KPI (indicador) selecionado é relevante, mas não ou apenas moderadamente material para o modelo de negócio do emissor”. 

De acordo com o documento, estimativas feitas pela própria JBS apontam que os escopos 1 e 2 representam apenas cerca de 10% das emissões da companhia, enquanto os outros 90% estão na cadeia de valor. 

A companhia ainda não mede o escopo 3 — o que é um desafio para todo o setor —, mas se comprometeu a fazê-lo nos próximos anos. A meta da JBS é se tornar neutra em carbono até 2040, incluindo aí toda a cadeia de valor.

Segundo nota à imprensa, os recursos serão utilizados para estender o prazo médio de dívidas, refinanciando compromissos de vencimentos mais curtos, além de cobrir outros propósitos corporativos gerais. 

A emissão é coordenada por Santander, Barclays, Bradesco BBI, BTG Pactual, Mizuho e XP. 

A agência de classificação de risco Fitch elevou hoje a nota de classificação de crédito da companhia, de BBB- para BB+, colocando-a no patamar considerado como ‘grau de investimento’. 

Segundo a agência, o upgrade reflete “o forte perfil de negócios da JBS, sua alavancagem baixa, liquidez e geração de caixa positiva, perfil favorável de amortização de dívida, histórico de acesso ao mercado internacional e o acordo recente com o Departamento de Justiça americano feito pela sua companhia controladora [a J&F]”. Mas, acrescenta, “o rating continua a ser limitado pela sua estrutura de governança corporativa”. 

Apesar de ser a estreia da holding, no fim de março, a Pilgrim’s Pride, produtora de frango controlada pela JBS Estados Unidos, já havia testado o mercado de sustainability-linked bonds, com uma emissão de US$ 1 bilhão. 

A companhia se comprometeu a reduzir em 30% sua intensidade de emissões até 2030 — em linha com o compromisso do grupo. Os títulos, com vencimento em dez anos, saíram com yield de 4,375%.

* A reportagem foi atualizada para incluir as informações finais de juros e cupom, anunciadas após o fechamento do mercado. Anteriormente, o Reset havia dito que a emissão deveria girar em torno de US$ 500 milhões, mas a operação acabou se mostrando maior, de US$ 1 bilhão.

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