'Janela do futuro sustentável está fechando', diz IPCC

Descarbonização precisa avançar mais rápido, junto com adaptações necessárias para a convivência com um clima em mutação, diz ONU

Chaminés industriais soltando nuvens de fumaça
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O mundo precisa avançar mais rápido na descarbonização e ao mesmo tempo acelerar as adaptações necessárias para a convivência com um clima em mutação.

Essas são as duas mensagens principais da quarta e última parte do Sexto Ciclo de Avaliação do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, da ONU.

Divulgado hoje, o chamado Relatório de Síntese compila as principais conclusões do painel científico que estuda a ciência da mudança climática, seus impactos e o que pode ser feito para combatê-la.

“A janela de oportunidade para garantir um futuro sustentável e habitável para todos está rapidamente fechando”, afirma o relatório. “As escolhas e ações implementadas nesta década terão impacto agora e por milhares de anos.”

Apesar de as conclusões científicas já terem sido publicadas, o documento é relevante pois representa uma espécie de “sumário executivo” que vai orientar as negociações internacionais nas próximas COPs.

O tom do documento, cuja linguagem foi discutida numa conferência do IPCC ao longo da semana passada, é de urgência, como esperado.

Mesmo que todas as promessas nacionais de cortes de emissões de curto prazo sejam cumpridas, é provável que a temperatura aumente mais que 1,5°C até o fim do século, em comparação com a era pré-industrial.

O limite de 1,5°C é o patamar necessário para evitar os piores efeitos da mudança do clima. 

Para que ele seja atingido ou só ligeiramente ultrapassado, a redução de emissões de CO2 em relação aos níveis de 2019 deve ser da ordem de 48% em 2030, 65% em 2035 e 80% em 2040. Em 2050, o balanço líquido teria de chegar a zero.

Até hoje, o aumento da temperatura já é de 1,1ºC.  Se consideradas as metas de descarbonização dos países (as NDCs, na sigla em inglês) pré-2021, estamos caminhando para um aumento de 2,8°C na temperatura até o fim do século. 

Mesmo que esses objetivos agressivos sejam alcançados, os efeitos da mudança do clima já começaram – e nos atingem a temperaturas mais baixas do que se estimava.

“Ocorreram mudanças rápidas e generalizadas na atmosfera, nos oceanos, na criosfera e na biosfera”, afirma o relatório. “Isso levou a impactos e perdas generalizados para a natureza e para as pessoas.”

As perdas recaem sobre os países e regiões mais pobres. Entre 3,3 bilhões e 3,6 bilhões de pessoas vivem em “contextos altamente vulneráveis”. Entre 2010 e 2020, as mortes causadas por enchentes, secas e tempestades aumentaram 15 vezes nessas regiões, em comparação com as menos vulneráveis, afirma o relatório.

“Tornar mainstream as ações climáticas equitativas e eficazes não só vai reduzir perdas e danos para a natureza e para as pessoas, mas também trará benefícios mais amplos”, afirmou em comunicado Hoesung Lee, presidente do IPCC.

O financiamento

Uma das diferenças do relatório divulgado hoje para os anteriores é a ênfase na adaptação. O termo, muito usado nas discussões climáticas, se refere especificamente às medidas necessárias para lidar com um clima que já mudou.

A síntese afirma que, apesar de casos documentados de ações bem-sucedidas, existe desigualdade nessa preparação, e ela “vai continuar a crescer [se mantido] o atual ritmo de implementação”.

O principal problema é a falta de financiamento para os países de menor renda. Além de insuficientes, os recursos muitas vezes não chegam onde deveriam.

Os motivos apontados são vários, entre eles pouco envolvimento do setor privado, falta de comprometimento político e pouco senso de urgência.

As próprias tragédias causadas pela mudança do clima podem criar uma espiral negativa. Elas podem representar um “impedimento ao crescimento econômico, criando mais entraves para a adaptação”.

O tema das perdas e danos, que dominou a mais recente conferência do clima da ONU, recebe atenção especial no relatório-síntese.

Os potenciais impactos econômicos e sociais aumentam “muitas vezes” para cada incremento no aquecimento do planeta, diz o texto. “Riscos climáticos e não-climáticos vão interagir cada vez mais, criando efeitos agregados e em cascata, mais complexos e difíceis de administrar.

Net zero

O relatório também faz observações otimistas, principalmente em relação ao aumento da escala – e consequente queda de preço – de certas tecnologias.

“Entre 2010 e 2019 houve quedas constantes no custo unitário de energia solar (85%), energia eólica (55%) e baterias de íons de lítio (85%), e grande aumento em seus usos, mais de dez vezes para solar e mais de 100 vezes para os veículos elétricos.”

Mas o ritmo de adoção dessas tecnologias – e o desenvolvimento de outras que ainda estão engatinhando – terá de aumentar dramaticamente ainda esta década para que o limite de 1,5°C ainda esteja ao alcance.

Só as emissões de CO2 da infraestrutura atual de combustíveis fósseis (que segue crescendo) já seria suficiente para tornar essa meta inviável – a menos que haja o uso de sistemas de captura de carbono.