Investimentos de impacto avançam e movimentam US$ 785 milhões no Brasil. Distribuição de produtos é desafio

Relatório do Aspen Institute indica que maioria dos investidores não está disposta a abrir mão do retorno

 

Os investimentos em negócios de impacto estão crescendo no Brasil.

Ao final de 2019, havia US$ 785 milhões em capital alocado no setor, ante US$ 343 milhões dois anos antes, mostram os dados referentes ao Brasil do relatório ‘Investimento de Impacto na América Latina’, elaborado a cada dois anos pela Aspen Network of Development Entrepreneurs (Ande). A edição mais recente foi publicada hoje.

O volume de transações no país saltou de 69, nos anos de 2016 e 2017, para 107 no último biênio. 

O que puxa o crescimento é a presença de mais gestores, produtos e instrumentos relacionados ao investimento de impacto. “Os grandes bancos também estão começando a se posicionar mais fortemente no tema, tanto em apoio quanto na distribuição de produtos”, diz Beto Scretas, do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e Aliança pelo Impacto.

O desafio agora é continuar atraindo agentes para esse mercado, que precisa ser estruturado em produtos financeiros e, depois, ganhar distribuição.

“Há cinco anos você tinha três fundos locais de investimento de impacto. Hoje são pelo menos 10. As estruturas financeiras estão sendo sofisticadas e há exemplos de debêntures, como as direcionadas para o Programa Vivenda”, resume Scretas.

Ele lembra ainda que a Instrução 588 da CVM, publicada em 2017, que autorizou o equity crowdfunding e possibilitou o empréstimo coletivo via plataformas, abriu espaço para operações como as organizadas pela SITAWI, pela Trê e pela Yunus. 

Por enquanto, quem lidera os aportes de impacto são os grandes investidores. Entre eles, bancos de financiamento internacional como o IFC, do Banco Mundial, atores estrangeiros como o Imaginable Futures (antigo Omidyar Network Education) e os fundos de investimento locais, na maior parte dos casos ainda restritos a investidores profissionais, com mais de R$ 10 milhões em aplicações.

O estudo, feito a partir de informações reportadas pelos próprios agentes, mostra que 34 investidores declaram ter alocações no Brasil. Desses, 23 são locais e 11 são estrangeiros.

Entre os locais, alguns exemplos são IG4, Vox Capital, Positive Ventures, Kaeté Investimentos, IFC (Banco Mundial), Fundação Tide Setubal e X8 Investimentos.   

Taxa de retorno

A maioria desses investidores busca taxas de retorno similares às de mercado. Ou seja, querem que a aplicação num venture capital de impacto, por exemplo, entregue retorno similar ao de um venture capital convencional.

Dos 28 investidores que responderam às perguntas da Ande, quase metade quer taxas alinhadas às de mercado. Eles detêm US$ 400 milhões, a maior parte do capital.

Uma parcela menor, de quatro investidores, mas com US$ 350 milhões, aceita uma taxa de retorno um pouco inferior à de mercado.

E 11 investidores fazem alocações em impacto com intenção de preservar capital. Entretanto, respondem por menos de US$ 100 milhões alocados para negócios de impacto no país.

“Isso mostra a tendência dos investidores de impacto, que não querem abrir mão do retorno financeiro”, conclui Cecília Zanotti, representante da Ande.

Dos aportes feitos entre 2018 e 2019, mais de 50% foram direcionadas para empresas em estágios iniciais, entre ideação e organização — que é a fase em que se encontram dois terços dos negócios de impacto hoje, diz Scretas.

E 37% das alocações financiaram firmas mais avançadas, preparadas para ganhar tração.

A participação acionária (equity) foi disparada a principal estrutura usada pelos investidores (90%). Na vice-liderança, com 8%, estão os instrumentos de dívida, representados pelos empréstimos coletivos ou de instituições, debêntures e fundos de crédito.

Causa

Nos últimos dois anos, a maior parte das transações foi no setor de educação (23%), tecnologia, informação e comunicação (13%) e agricultura (13%).

Quando se trata dos aportes feitos especificamente por fundos, a preferência foi pelos setores de tecnologia da informação e comunicação (30%), microfinanças (16%), serviços financeiros (9%) e saúde (9%).

Segundo o estudo, “os investimentos de impacto podem ser comercialmente viáveis”. Quase 40% dos investidores locais fizeram aportes abaixo de US$ 50 mil, e pouco mais de 10% tiveram tíquetes entre US$ 50 mil e US$ 250 mil.

Só 5% fizeram aportes entre US$ 1 milhão e US$ 2 milhões.

Mensuração

A mensuração do impacto foi feita por 52% dos investidores. Mas, segundo o estudo, o caminho para a padronização das mensurações será longo.

A maioria (67%) mede o impacto a partir de ferramentas próprias. Outras plataformas usadas são a GIIRS/B Analytics, criada pelo Sistema B, e a IRIS+, do GIIN.

“Essa confiança em ferramentas proprietárias indica uma defasagem na compreensão de sistemas de padronização da mensuração no país”, afirma o relatório.

Os próximos passos

Scretas, do ICE, conta que para os próximos cinco anos o plano é estimular organizações a estruturarem e distribuírem mais oportunidades de investimento de impacto. “Precisamos ter cada vez mais oportunidades concretas de investimento. Não só produtos para a alta renda”, diz.

Como exemplo do que pode ser feito imediatamente, ele retoma o caso do Programa Vivenda, empresa de impacto social que teve uma debênture estruturada por Din4mo e Gaia e distribuída pelo Itaú a seus clientes.

Num segundo momento, Scretas diz que será a vez das distribuidoras de produtos, como bancos e corretoras, colocarem mais opções com diferentes riscos e horizontes de retorno nas prateleiras para se aproximarem do varejo. Também há expectativa de que grandes investidores institucionais, como fundos de pensão, insiram o impacto no centro da política de investimento, com gestores atuando na área, como já acontece lá fora.