Investimento de impacto, o novo karma de Eduardo Mufarej

 

Depois da política, Eduardo Mufarej está de volta ao mundo dos investimentos. 

O fundador do RenovaBR, iniciativa para formação de novas lideranças políticas, acaba de levantar R$ 300 milhões para um fundo que vai investir em negócios de impacto do Brasil — ou, como ele gosta de dizer ‘mission driven investments’. 

“O Brasil tem potencial para se tornar um dos dois grandes hubs de investimento de impacto do mundo, ao lado da Índia”, diz o ex-CEO da Somos Educação e ex-sócio da gestora de fundos Tarpon, citando saneamento e reciclagem de lixo como dois campos quase inexplorados no país. “Os espaços de inovação estão sendo franqueados; o grande gargalo é ter um capital paciente”. 

Mufarej começou a formatar a Good Karma Ventures, ou GKV, no segundo semestre do ano passado. Visitou alguns dos principais fundos de impacto do mundo para entender como funcionam e foi colher opinião de gente graúda no mercado financeiro local como o sócio da Gávea Investimentos, Armínio Fraga e o CEO do Itaú Unibanco, Candido Bracher. “O que ouvi foi: vai em frente, está faltando isso no Brasil”, conta. 

O primeiro fundo da GKV tem prazo de 10 anos, está sendo constituído no Estado americano de Delaware, e ficou concentrado em pouco mais de 10 investidores. 

São principalmente single e multi-family offices brasileiros, além de algumas pessoas de fora do país. “Não tem cabimento um indivíduo de alta renda no Brasil entrar em fundo em Londres, com custo em moeda estrangeira, para fazer impacto na África”, diz, ponderando que a indústria local tem que dar respostas à altura. “A partir do momento em que conseguir alinhar experiência de gestão com propósito, vai andar”. 

Oportunidades de investimento já estão sendo mapeadas pela equipe da GKV, que conta com seis pessoas além de Mufarej, e mira uma taxa interna de retorno de 20% a 25%. O setor de educação, que marcou sua carreira, é central na estratégia.

“Temos interesse em formação profissional para carreiras do futuro, em como melhorar a eficiência do mercado de trabalho, em jornadas de carreira. São teses dentro da mesma tese.” Mobilidade urbana é outro tema que atrai. “Queremos negócios que resolvam problemas urgentes do Brasil e com potencial claro para escalar”, diz.

Originalmente, estava previsto que o fundo começasse a operar no fim de abril, mas, com o novo coronavírus, foi adiado para o começo do segundo semestre. Uma das razões é que Mufarej e equipe preferiram centrar esforços no Estímulo 2020, o primeiro ‘relief fund’ para dar crédito a pequenos e médios negócios usando como funding recursos de doações. 

Em carta encaminhada nos últimos dias a investidores, Mufarej justificou a decisão. “A GKV pode esperar e depois da crise será mais necessária do que nunca”, diz.

Impacto freestyle

A pandemia também prejudicou um pouco a captação que, segundo Mufarej, teria prosseguido se não fosse a covid-19. Um novo closing deve ser feito no segundo semestre. Ainda assim, o valor captado supera o de outros fundos de impacto em operação no Brasil, como das gestoras pioneiras Vox e Mov, que giram em torno de R$ 50 milhões a R$ 80 milhões. 

O fato de Mufarej ter sido sócio de uma gestora com R$ 11 bilhões de patrimônio e CEO de uma grande empresa de educação certamente ajudou. 

Além disso, o Good Karma é um bicho diferente, mais ‘freestyle’.

Para começar, não adotou o ‘carimbo’ de impacto — o que pode ter ajudado a captar com alguns investidores ainda reticentes com um mercado nascente no Brasil.

No nicho já consolidado de impacto, há algum cetiscismo em relação ao modelo. “Eles não captaram com gente de impacto ‘raiz’”, observa o profissional de um multi-family office com presença em investimentos sustentáveis. “Fundos como Vox são rigorosos nas métricas de impacto, são auditados. Parte da taxa de performance só é paga depois de comprovado o impacto social”.

A remuneração da GKV não será atrelada a métricas de impacto. O fundo receberá taxa de administração de 2% ao ano sobre o capital comprometido e mais 20% do que exceder IPCA mais 4% ao ano, em linha com a remuneração de fundos tradicionais.

Mufarej acha que não precisa ser auditado por terceiros para comprovar o impacto dos investimentos que fará. Para ele, com a escolha de negócios com propósito claro e dedicados a resolver questões urgentes, o impacto virá naturalmente. 

“Se colocarmos métricas de impacto entre os KPIs, não precisamos da validação de terceiros”, diz. Os KPIs são os indicadores-chave de desempenho de um negócio. Ele cita como exemplos o delta de melhoria de resultado dos alunos no setor de educação ou a redução do consumo de carbono proporcionada por uma empresa de mobilidade. “Isso tudo pode ser transformador em métricas quantificáveis.”

O escopo também é diferente. Enquanto os fundos de impacto no Brasil normalmente são de venture capital e costumam entrar num estágio inicial dos negócios, a GKV pode entrar em arranjos variados. Pode ser venture capital, pode participar na criação de uma nova empresa, ou até ser ‘late stage’ entrando em investimentos existentes que podem se reposicionar para adequar à tese de investimento. Por causa disso, o tíquete médio dos aportes também pode variar. 

Experiência de fora 

É mais ou menos como faz o Rise Fund, do TPG, maior fundo de impacto do mundo — com a diferença que o Rise é auditado. “No Rise o impacto é medido em dólares gerados para a sociedade como efeito do investimento primário realizado e que não teria se materializado sem esse investimento”, diz Azor Barros, venture partner da GKV.

Exemplo: na fabricante de laticínios indiana Dodla Dairy, uma das investidas do Rise, o impacto é medido pelo lucro adicional obtido pelos produtores de leite que fornecem para a empresa. Como a Dodla criou um sistema transparente de pesagem do leite e ajudou-os a se organizar em cooperativas, esse lucro aumentou, explica ele.

O executivo fala com conhecimento de causa. Ele estava justamente como consultor sênior do Rise Fund e do TPG Growth na América Latina quando foi convidado a se juntar a GKV. Antes disso, passou por Warburg Pincus e a Restaurant Brands International, da 3G Capital. 

“Esse universo de impacto é tão amplo quanto você possa imaginar”, diz Barros. “Tem o pessoal de ‘direita’, que acha que gerar emprego e pagar imposto é impacto. E tem o pessoal fundamentalista, que criou tantas caixinhas [para definir impacto], que fica contraproducente. Por eu ter vindo do Rise e o Edu de uma casa de investimentos tradicional, estamos no centro desse espectro”.

Farialimer em fuga

Durante os últimos dois anos, o RenovaBR foi a vida de Mufarej. “Foi um sabático cívico, a coisa mais legal que já fiz na vida”, empolga-se, listando novos nomes da política nacional que passaram pelos cursos de formação e receberam bolsa do movimento.

Apesar do custo pessoal e familiar e de todo ceticismo que até hoje encontra por parte daqueles que desconfiam de um projeto de poder, foi o RenovaBR que lhe deu projeção nacional, para além da Faria Lima.

Tanto o RenovaBR quanto a Good Karma nasceram de uma mesma inquietação, que começou em 2017 quando ficou claro que a gestora Tarpon desinvestiria da Somos Educação e ele começou a refletir sobre o que faria depois.

“Eu defini o que não queria fazer: não queria voltar para um escritório na Faria Lima e ficar dando opinião sobre investimentos”, diz. “Naquele momento eu já achava que tinha dois caminhos para mudar o Brasil, pela educação e pela política.”

Com a iniciativa política andando a passos largos, na metade de 2019, conseguiu levar Irina Bullara, ex-diretora geral do Sistema Anglo, para tocar o RenovaBR, o que lhe permitiu explorar novas ideias. 

Recebeu convites do mercado financeiro que não o atraíram e, ao observar os investimentos que estava fazendo na física, a Good Karma começou a tomar forma. “Percebi que havia um componente de impacto para a sociedade. E que eu poderia agregar três coisas na busca de soluções: minha experiência como investidor, como operador, e ser um cidadão engajado.”

Ele havia colocado o próprio dinheiro na Ômega Geração, de energia renovável, na Tembici, de bicicletas compartilhadas (aquelas laranjinhas do Itaú), e na Alicerce Educação, startup de reforço educacional.

“Eu não nasci querendo ser investidor de impacto. Há um ano, como investidor, eu nem sabia o que era ESG. Tinha 100% a ver com o que eu estava fazendo, mas eu desconhecia”, diz, referindo-se à sigla em inglês para critérios ambientais, sociais e de governança, adotados por negócios e investidores.

Ironicamente, com a nova escolha, acabou voltando para a região da Faria Lima, onde fica a sede da Good Karma, na esquina com a avenida Cidade Jardim.

(A reportagem foi atualizada às 14h35 do dia 11 de maio para retificar a informação de que o edifício onde fica a sede da GKV foi projetado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha. O edifício Capitânia, de 1973, é um projeto de Pedro Paulo de Melo Saraiva, Sérgio Fischer e Henrique Cambiagui Filho.)