Guilherme Benchimol, da XP: “Empresa que não for ESG vai acabar”

 

(Atualizada às 14h30 para incluir perguntas sobre conflito de interesses no modelo de remuneração dos agentes autônomos)

Guilherme Benchimol já vestiu vários coletes em sua vida como empreendedor. O mais novo a ganhar espaço em seu guarda-roupa corporativo é aquele que vem com as iniciais ESG, da sigla em inglês para ambiental, social e governança.

Nas últimas semanas, a XP Investimentos deixou zonzos os seguidores das práticas ESG no Brasil — e também seus competidores –, ao entabular uma sequência de anúncios nesta área e dando uma ‘virada sustentável’ na forma como se posiciona no mercado.

Divulgou planos de construir uma sede ecologicamente sustentável no interior paulista, criou uma nova diretoria ESG capitaneada por uma mulher, Marta Pinheiro, anunciou o lançamento de dois produtos ESG para o ‘varejão’ e criou uma área de ‘sustainable wealth’ capitaneada por outra mulher, Marina Cançado.

O fundador e CEO da XP diz que se trata de um processo e que as fichas foram caindo aos poucos: “A sociedade está te impondo isso: eu quero que você continue sendo essa empresa fora de série, com produtos espetaculares, mas eu também quero o seu compromisso com a sociedade.”  

O fato de a XP ser listada no mercado acionário americano também a fez sentir a demanda de investidores por políticas socioambientais.

A conversa com o Reset, por vídeo, aconteceu na tarde de ontem enquanto pegava fogo a disputa pública entre XP e banco Itaú, seu maior acionista minoritário, em torno dos conflitos de interesse na venda de produtos de investimento inerentes a cada um dos modelos de negócio.

Questionado sobre a possibilidade de o Itaú querer deixar a sociedade, Benchimol foi categórico: “O mercado está aí para isso.”

Como se deu essa ‘virada sustentável’ da XP?

Já acontecia há um tempo, só não estava empacotado com as letrinhas ESG. A gente foi entendendo ao longo do tempo, como empreendedor, a importância ter um propósito porque isso engaja o time e as pessoas inspiradas fazem mais. E quando você entende a importância do capitalismo consciente, que é o ESG, quando se compromete a pegar um pedaço do resultado da companhia e falar que, além de correr atrás do propósito da empresa, a gente tem uma obrigação social, ambiental de ajudar a comunidade onde estamos inseridos, isso inspira ainda mais as pessoas. 

E, digo mais, a sociedade está te impondo isso. Essa ficha foi caindo há bastante tempo, mas a gente não tinha constituído essa diretoria ESG. A Marta [Pinheiro, nova diretora de ESG] é uma pessoa craque, certamente uma das mulheres com quem trabalhei mais espetaculares. Ela faz acontecer, e a missão dela é colocar isso de pé. 

A gente vai ter uma sede diferenciada, com energia solar e água reciclada, a gente vai se locomover muito menos no trânsito porque as pessoas vão poder fazer home office. A Marta vai empacotar tudo que estamos fazendo e dar amplitude. E é gostoso sentir que se tem voz para inspirar outras empresas. Olha que animal seria se as 5 mil maiores empresas do Brasil tivessem área ESG e pudessem ajudar o Brasil a ser melhor!

Quando uma grande empresa se apresenta com um projeto desses, fica a pergunta: é uma questão de oportunidade de não perder a onda ou vem, de fato, de uma crença nesses valores?

Óbvio que a gente não é a primeira empresa do Brasil a puxar esse trem. ESG gera mais retorno, faz com o seu negócio fique melhor. Porque você inspira as pessoas e os clientes te reconhecem como uma empresa consciente. Isso é uma coisa. Mas também estou falando outra coisa: fazer o bem é bom, ajudar é bom, traz felicidade consistente. Se a gente conseguir deixar um Brasil melhor, é bom. 

Talvez essas três letras sejam a maneira de pregar um capitalismo consciente que não existia até então. Quem entender isso primeiro e conseguir empacotar isso melhor, e engajar os clientes até para que possam participar, melhor. São dois ângulos, o do resultado, que é o da linguagem dos empreendedores, e o da consciência mesmo.

Você mencionou doações feitas pela empresa. Muita gente acha que ser ESG é fazer filantropia com parte do lucro, mas isso não define um negócio como ESG. Qual o seu entendimento?

Eu considero as práticas de abdicação de parte do resultado para causas sociais como política ESG sólida. Discordo um pouco de você. A gente sempre colocou, por exemplo, que a cada R$ 100 milhões que entravam na empresa colocávamos um aluno na escola. Ações assim mostram compromisso da empresa com a sociedade.

E também [podemos pensar] até em selos de qualidade, talvez até semelhante ao que a Goldman fez lá fora, de não abrir capital de companhias que não tenham no mínimo uma mulher no conselho.

Isso é integrar ESG ao negócio. Passa pela cabeça de vocês criar políticas para puxar o padrão do mercado, nessa mesma linha do exemplo da Goldman? Podem criar restrições para operar com empresas poluentes, por exemplo?

Sem dúvida. Não saberia falar disso de bate-pronto, mas a sociedade vai te impor isso. As empresas que não forem ESG a médio prazo vão acabar. Ninguém vai querer ser parte disso, porque todo mundo quer ter um filho que cresça num mundo melhor. Não é mais aceitável ter 70 milhões de pessoas na miséria no Brasil, não é aceitável ter empresas que queimam florestas, não é mais aceitável acreditar que o negro é pior que o branco, que a mulher é inferior ao homem. A gente sempre esperou que o Espírito Santo ou o governo fizesse. Agora inventaram três letras que dizem que as empresas vão fazer.

O fato de a XP estar listada lá fora traz essa demanda para vocês como empresa?

Total. A gente sente e sem dúvida é um dos motivos que vem nos obrigando a nos organizamos melhor.

Tem gente comparando o movimento de vocês ao da BlackRock, no sentido de puxar o mercado, levantar a bandeira. A gestora não tinha as políticas ESG implementadas, mas pelo seu tamanho puxou a agenda. Por outro lado, começou a ser cobrada nesses aspectos. Você espera aumento de cobrança e a XP está preparada?

O que mais quero é cobrança. A gente responde bem sob pressão.

Que outra frente pretendem abrir?

Temos um trabalho de inclusão grande acontecendo. Fizemos um evento grande nesta semana, com debates sobre LGBT+. Preconceito não vai ser mais admitido na empresa, nem em pequenas instâncias, como brincadeirinhas e piadinhas. E cada vez mais queremos trabalhar com diversidade. Não queremos times homogêneos. Quem não tem cabeça aberta, que abra a cabeça ou vá embora.

Nessa briga pública entre Itaú e XP, como fica a relação entre vocês a partir de agora, uma vez que eles são acionistas?

A XP sempre foi a XP. O Itaú, quando entrou como sócio, sabia quem a gente era e em nenhum momento falamos que deixaríamos de ser quem sempre fomos. E o Itaú para a gente é simplesmente mais um investidor, entre outros que fazem parte do nosso grupo de acionistas. 

A gente encara o banco como um competidor e eles têm todo o direito de fazer o que quiserem. E quem tem que avaliar se as palavras são condizentes com os atos são os clientes.  

A sociedade fica estremecida?

O Itaú sempre foi um sócio minoritário, sem nenhum tipo de interferência na companhia. Isso dito de forma clara pelo Banco Central e pelo Cade. Então, não mudou nada. Minha relação com os acionistas do Itaú sempre vai ser a mais cordial possível. Mas eu não tenho nenhum compromisso com o Itaú e nenhum outro acionista. Meu único compromisso é com a XP.

E se o Itaú quiser sair da XP?

O mercado está aí para isso. 

Depois que a entrevista foi publicada, leitores atentos — a quem agradecemos — questionaram se o modelo de remuneração dos agentes autônomos ligados à XP, que está no centro da disputa pública com o Itaú nos últimos dias, não estaria em choque com a nova política ESG. Questionamos Benchimol e as respostas dele foram incluídas abaixo:

No cerne da discussão com o Itaú está a questão do conflito de interesses na forma de remuneração dos agentes autônomos da XP, que recebem mais comissão na venda de alguns produtos do que em outros e, portanto, têm um incentivo financeiro para ofertar não necessariamente a melhor opção para o cliente. Dentro da ótica de um modelo de negócio que pretende ser ESG, você acha condizente?

Todas as profissões e atividades do mundo, sem exceção, possuem conflito de interesse. Na XP lidamos isso com muita ética, transparência e pesquisa de satisfação. Não à toa, temos o melhor NPS da indústria financeira do Brasil. Qualquer profissional, em qualquer segmento, pode fazer coisas que não sejam corretas. Idem para gerente do banco, jornalista, gestor de recursos, consultor de investimentos, médico, advogado etc. A ética, os controles e, acima de tudo, seu histórico irá dizer se você sabe ou não lidar com esse tema.

Com o tempo a XP pode repensar esse modelo de negócios? Migrar para o fiduciário ou outro, por exemplo?

Nós trabalhamos com todos os profissionais de investimento: agente autônomo, consultor e gestor de recursos. Cada um tem a sua característica. Não existe certo ou errado. Se você quer comprar um título público e precisa de ajuda, será que é correto alguém te cobrar uma taxa de administração fiduciária [que incide sobre todo o patrimônio investido] ou uma comissão pela transação?