Governança e informação das questões ESG: porque é importante envolver a alta administração

Maria Eugênia Buosi, sócia da Resultante, escreve que as áreas de sustentabilidade ainda estão distantes das áreas de relações com investidores e finanças nas companhias, com informações desconexas

 

Parece que estamos saindo da fase do “empurra-empurra” da divulgação de informações ESG.

Havia anos as conversas eram cíclicas, com investidores alegando que as empresas não divulgavam as informações ESG de forma adequada e as empresas, por sua vez, argumentando que não tinham demanda por essas informações.

A evolução do debate tem a participação de muitos agentes. Desde os padrões de reporte como a GRI, que tem uma representante no mercado brasileiro há mais de uma década, até os próprios analistas e gestores, que passaram a questionar mais as empresas sobre suas práticas e resultados nessa agenda.

Entre estes agentes, o Laboratório de Inovação Financeira (LAB), coordenado por ABDE, BID, CVM e GIZ, decidiu abrir uma discussão estruturada sobre a transparência e divulgação de informações ESG pelas empresas brasileiras.

O primeiro estudo realizado pelo subgrupo de Transparência do Grupo de Trabalho de Gestão de Riscos ASG do LAB quis capturar as práticas de disclosure ESG das empresas em seus formulários de referência entregues à CVM.

O objetivo era compreender de que forma a empresa divulga essas informações não apenas nos relatórios de sustentabilidade, mas nos documentos regulatórios. Se dizemos que ESG é um driver de gestão de risco, de que forma isso é colocado pelas empresas nos documentos que tratam dessa agenda?

A leitura dos formulários de 96 empresas que compõem o índice de ações IBX-100 traz dados bem interessantes.

Começando pela gestão de riscos, existe uma seção específica no documento, o item 4.1(j), em que as empresas podem apresentar fatores de risco ligados a questões socioambientais. A abordagem das empresas neste item é em grande parte ligada à exposição das operações a legislações ambientais (79%). Quando analisamos como a empresa incorpora estes riscos, no entanto, apenas 47% fazem uma relação do tema com a gestão de riscos corporativos e menos de um terço (27%) apresentam a governança de riscos socioambientais na companhia.

Nos setores de papel e celulose, saúde e educação, construção civil e TI & Telecom, não encontramos informações sobre a governança dos riscos ESG em nenhum dos formulários das empresas do IBX-100.

Outra análise importante diz respeito aos temas ESG mencionados pelas empresas nos formulários. Enquanto mais de 80% aborda, pelo menos no âmbito regulatório, aspectos sobre a gestão de resíduos, pouco mais de 20% trata dos riscos ESG em suas cadeias de valor.

Ao pesquisar sobre temas mais detalhados e aprofundados nos formulários, a gestão de resíduos é seguida por uma margem curta pelas ações de filantropia e assistencialismo das empresas. Embora a divulgação não seja obrigatória, essa informação nos levanta a suspeita de que as áreas responsáveis por estes documentos ainda enxergam as questões sociais como um anexo ao modelo de negócios.

Os temas sociais, aliás, são os menos mencionados nos formulários de referência. O relacionamento com clientes, por exemplo, não é mencionado por nenhuma empresa, mesmo em setores sensíveis ao tema como varejo, bancos ou saúde e educação.

Segundo o item 7.8 do formulário, cerca de 80% das empresas do IBX-100 publicam um relatório anual ou de sustentabilidade com informações mais aprofundadas sobre suas iniciativas. Ainda que seja uma boa notícia, o número não é suficiente para garantir a qualidade destas informações.

O estudo mostra que apenas dois terços utilizam padrões internacionais para elaboração destes documentos e uma parcela ainda menor (36%) realiza a asseguração destas informações por uma terceira parte independente. Este número muda bastante para empresas que participam de algum compromisso voluntário ou índice de sustentabilidade. Enquanto 70% da amostra e que integram o ISE, o índice de sustentabilidade da B3, possuem relatórios de sustentabilidade assegurados, o número cai para 10% entre as empresas não participantes do índice.

O que concluímos? Ainda há um longo caminho para que o relato integrado seja resultado de uma gestão integrada.

Em primeiro lugar, a participação das lideranças nesta agenda é fundamental. Como eu costumo falar, sem o G não teremos E ou S. É preciso unir os discursos das áreas técnicas de sustentabilidade, responsáveis pelos relatórios anuais, com o trabalho de divulgação de informações a mercado das áreas de relações com investidores e finanças. As informações ainda são desconexas e, em muitos casos, parece que estamos falando de duas empresas distintas.

O estudo do LAB, que teve a coordenação da B3 pelo subgrupo de Transparência e a coordenação de pesquisa da Resultante, pretende jogar ainda mais luz nessa discussão. Os resultados já integraram o posicionamento do grupo de trabalho na pesquisa pública da Instrução 480 da CVM — exatamente sobre a divulgação de informações de companhias abertas — e vai pautar uma série de conversas com associações e entidades de mercado.

É preciso muita gente boa à mesa, mas é um fato: já não estamos mais no plano das ideias.

* Maria Eugênia Buosi é economista, mestre em Finanças, e atua com sustentabilidade há 15 anos. Além de sócia da Resultante, consultoria especializada em research ESG, é coordenadora do Grupo de Trabalho de Gestão de Riscos ASG e Transparência do LAB, grupo responsável pela elaboração do estudo.