Glasgow abre oportunidade fantástica para investimentos no Brasil, diz CEO da Suzano

Depois de passar pela COP26, Walter Schalka afirma que as regras que permitiram a criação de mercados de carbono foram uma vitória importante -- mas agora é preciso botar a mão na massa

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Como nunca antes numa cúpula do clima, o setor privado brasileiro se organizou para interagir com o governo brasileiro na preparação para a convenção e marcar posição sobre os interesses ambientais e econômicos do país que estavam em jogo.

Um dos mais ativos nesse movimento, Walter Schalka, o CEO da fabricante de celulose Suzano, esteve em Glasgow durante a segunda semana da COP26. Quis acompanhar de perto o desempenho do Brasil à mesa de negociação da política climática global.

No último dia 9, durante a cúpula, ganhou um motivo adicional para se preocupar com as condições de vida no planeta em 2050. Participava de um painel como palestrante quando recebeu um telefonema da filha, direto de Nova York, avisando que sua segunda neta nasceria naquele dia. 

Terminado o encontro, Schalka diz que deixou Glasgow satisfeito com uma série de avanços, como a definição das regras em torno das trocas globais de créditos de carbono.

 

“É inegável que agora temos mecanismos com transparência, segurança e credibilidade para fazer esse processo de aprovação do que é possível monetizar em carbono”, disse ele ao Reset

Conhecido no meio empresarial brasileiro por ser vocal em relação aos rumos da política nacional, expondo críticas sempre que considera necessário, desta vez Schalka tece elogios. “Houve, por parte do governo, um amadurecimento de que era muito relevante o Brasil ser protagonista na busca de solução e não um bloqueador.”

Apesar dos avanços que acredita terem sido alcançados, o executivo adverte que é preciso escapar da armadilha de se achar que tudo está resolvido.

“Houve uma evolução, mas não estamos na linha de chegada. Glasgow é mais um passo, assim como foi Paris, e outros passos precisam ser dados na direção correta, porque temos o risco de um precipício ambiental. Hoje temos instrumentos tecnológicos e financeiros para fazer acontecer. Agora, vamos colocar a mão na massa.”


Qual o balanço que você faz do resultado da COP em Glasgow?

Sempre temos que olhar numa perspectiva de evolução. Ambientalistas mais ferrenhos vão falar que foi insuficiente a evolução que tivemos e aqueles que olham na perspectiva de defesa dos interesses próprios vão falar que cederam muito. 

Em primeiro lugar, já é uma grande vitória a consolidação de um quase consenso de que precisamos limitar a 1,5°C o aumento da temperatura global. Porque antes existia certo negacionismo em relação a isso e depois o Acordo de Paris colocou o limite de 2°C.

Em segundo lugar, houve vitórias relevantes. Foi destravada a questão fundamental do financiamento do mega investimento que vai ter que ser feito no mundo. Ao regularmos a questão do carbono, abrimos uma perspectiva de ter o maior investimento da história do mundo, que vai gerar benefícios ambientais, sociais e econômicos.

Do lado menos positivo, as somas das NDCs (as metas de descarbonização de cada país) ainda não atingem as necessidades que o mundo tem em relação à limitação de temperatura. Obviamente sempre temos que nos colocar na pele dos outros. Alguns países têm dependência econômica de uma matriz energética antiga, de carvão, de fósseis, e não podem abrir mão de forma imediata disso, porque dependem deles para sobreviver. E de outro lado vemos países que deveriam dar contribuições maiores em NDCs, pelo histórico que tiveram ou pelos recursos que têm disponíveis.

É um jogo com cerca de 200 países em negociação, onde cada um tem direito a veto e, portanto, é difícil construir uma solução que vá ao ponto ideal. Mas é inegável a enorme evolução que tivemos nesta COP. Saio muito satisfeito.

Depois da COP, um especialista indiano comentava sobre o avanço que representa o compromisso de descarbonização do país e que muitos fora da Índia não conseguem entender, porque a dependência do carvão lá é enorme e a emissão per capita não é tão grande…

Sim, se você pega países como Arábia Saudita e Rússia, que são dependentes de derivados de petróleo, e Índia e China, que são dependentes de carvão, ninguém consegue resolver seus assuntos imediatamente. O legal nisso tudo é que achamos um mecanismo que vai acelerar o investimento, que é o mercado de carbono. E essa aceleração do investimento é que vai descarbonizar o mundo para o futuro.

Tenho pensado muito sobre como será o futuro, e minha percepção é que vamos ter um aumento do preço do carbono no curto prazo, mas em 2050 o carbono terá valor zero. Porque vamos ter passado a transição e não vai mais precisar precificar carbono, porque a matriz energética já vai ser limpa, porque vamos ser dependentes de renováveis, o setor de transportes já vai estar endereçado como menos emissões.

E como você avalia a regulamentação dos Artigo 6 do Acordo de Paris, dos mecanismos de mercados de carbono, que finalmente aconteceu em Glasgow?

Esse modelo, cocriado entre Japão e Brasil, ficou muito positivo para eliminar riscos sistêmicos de projetos que não tenham adicionalidade ambiental [que provoca um impacto que não existiria na ausência do incentivo dado pelo crédito de carbono]. É perfeito? Não. Mas é possível algo perfeito? É inegável que agora temos mecanismos com transparência, segurança e credibilidade para fazer esse processo de aprovação do que é possível monetizar em carbono. 

Agora é preciso acelerar a regulamentação do mercado de carbono doméstico, não?

Lógico, porque agora abrimos uma oportunidade fantástica para o país atrair investimentos em descarbonização. O Brasil pode ser um grande player na questão da energia e da floresta. Pode ter um papel na geopolítica internacional e abriu-se espaço para isso a partir dessa COP.

O Brasil pode ser um enorme gerador de energia pro mundo com projetos de energia renovável. Podemos ter muita energia solar, eólica, nuclear — muita gente questiona, mas acho relevante para o futuro –, e de biomassa. E isso tudo pode gerar uma quantidade em excesso de energia que, através do hidrogênio verde, transformará o país em um exportador de energia limpa.

Que avaliação você faz do papel do governo brasileiro nesta COP?

Houve uma mudança de postura muito positiva. O Brasil abriu mão de posições históricas para poder obter acordo. Primeiro houve, por parte do governo, um amadurecimento de que era muito relevante o Brasil ser protagonista na busca de solução e não bloqueador.

E abrimos mão de coisas como a contabilização de créditos de carbono antigos, da dupla contagem, assinamos o acordo do metano, assinamos o acordo de florestas, melhoramos a NDC, anunciamos um posicionamento em relação ao desmatamento ilegal da Amazônia. Ou seja, fizemos muitos avanços durante a COP.

Sempre vai ter aqueles que dirão que poderíamos ser mais ambiciosos, mas isso aqui é um processo de negociação [entre países]. Se formos mais ambiciosos em relação à NDC, fica mais difícil atingir a meta para poder negociar créditos com outros países, por exemplo. A postura que o Brasil teve durante a COP foi positiva e reconhecida por muitas partes na negociação.

Falei com outras delegações e existia uma certa desconfiança de que o país mudaria de posição na última hora. Da mesma forma que eu critico quando tenho que criticar, desta vez temos que elogiar.

Foi sua primeira COP. Por que resolveu ir?

Porque acho que a gente tem um papel na sociedade que excede as nossas fronteiras físicas e percebi que existia a possibilidade de nós sermos agentes construtivos nesse processo. Interlocutores tentando mostrar para as diversas partes – ONGs, governo, outras delegações — que nós podíamos criar uma solução. Vejo muito o papel dos CEOs mais ativistas como aqueles que vão buscar soluções, usando a sua experiência negocial e analítica. Ao fazermos isso, podemos ser entes que fazem parte da construção das soluções necessárias para o país e para o mundo.

Especificamente em relação à Suzano, vocês vinham indicando que há um potencial de monetização de créditos de carbono gerados. Então, a regulamentação do Artigo 6 é positiva, certo?

A Suzano tem uma parte dos créditos que não é monetizável. Somos sequestradores de CO2, mas reconhecemos que apenas o que for adicionalidade é que poderemos monetizar. 

Mas, sim, é positivo para o setor [de florestas plantadas] como um todo, assim como para o setor de energia, porque abre perspectiva de sermos parte da solução climática global. Novos projetos oriundos da biomassa florestal para geração de energia ou substituição de materiais fósseis representam claramente uma construção de valor ambiental e econômico por meio dos créditos de carbono. Desde que Suzano faça projetos nessa direção, o que é uma decisão unilateral. Mas temos espaço para fazer, assim como outras empresas também têm.

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