Gigantes de Wall Street ameaçam abandonar aliança net zero

Bancos temem ser alvo de ações judiciais por causa de compromissos para limpar o CO2 de seus portfólios; campanha da ONU faz concessões

Logotipo da campanha Race to Zero, da ONU
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O evento da tarde ontem no Plaza Hotel, em Nova York, celebraria os avanços da campanha Race to Zero, uma iniciativa da ONU para envolver atores não-governamentais, notadamente o setor privado, na descarbonização.

Horas antes do encontro, porém, o Financial Times publicou uma notícia apontando que algumas das maiores instituições financeiras do mundo ameaçavam abandonar o barco.

Bank of America, Morgan Stanley e JPMorgan, entre outros bancos americanos, estariam descontentes com a aliança que representa o setor financeiro global dentro da Race to Zero.

A queixa teria a ver com a exposição a eventuais ações judiciais relacionadas aos compromissos assumidos pelos integrantes da coalizões, de acordo com o FT.

 

Aderir ao Gfanz significa subscrever as metas rigorosas de descarbonização estabelecidas por um comitê técnico da ONU, que se baseia na ciência. No caso do setor financeiro, existem restrições ao financiamento de projetos de combustíveis fósseis.

Embora seja apenas parte da Race to Zero, o braço das finanças é considerado essencial por causa da pressão que pode colocar no setor privado: as 450 instituições que aderiram têm US$ 130 trilhões sob gestão.

A regra que tinha causado mais incômodo foi alterada – ou, na linguagem oficial, “esclarecida” –, na sexta-feira passada, deixando mais margem para que a exploração de petróleo, gás e carvão continue recebendo dinheiro.

Mas o imbróglio mostra as limitações das campanhas de adesão voluntária, especialmente diante da urgência na redução das emissões de gases de efeito estufa ainda nesta década.

Também sinaliza que a campanha anti-ESG movida por políticos da extrema direita americana pode estar surtindo efeito.

Meia-volta

A Glasgow Financial Alliance for Net Zero, ou Gfanz, foi lançada com pompa no ano passado. Guarda-chuva de sete alianças específicas (dos gestores, das seguradoras, dos bancos etc.), a Gfanz seria a demonstração de compromisso do mundo das finanças com a luta contra a mudança do clima.

O problema surgiu em junho, quando os critérios estabelecidos no âmbito da campanha da ONU – e que são a espinha dorsal do Gfanz – foram atualizados.    

De acordo com a interpretação oficial, todos os integrantes da Race to Zero (e portanto do Gfanz) “deveriam restringir o desenvolvimento, financiamento e facilitação de novos ativos de combustíveis fósseis”.

Em negrito, o texto indicava especificamente que nenhum novo projeto de carvão deveria ser levado adiante.

Essas diretrizes seguiam a recomendação dos relatórios mais recentes do Painel das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que reafirmam a urgência de uma transição para a economia de baixo carbono.

Mas os bancos ainda fazem muitos negócios com as empresas de combustíveis fósseis – como mostra a corrida desesperada dos europeus por alternativas diante do corte do gás russo.

Na sexta-feira passada, o texto foi alterado. Em vez de “restringir”, os membros da Race to Zero deveriam “gradualmente abandonar novos ativos de combustíveis fósseis difíceis de abater, incluindo o carvão”.

A nova redação traz mudanças importantes. O carvão deixou de ser proibido. As restrições a petróleo e gás agora se estendem no futuro. E a expressão “difíceis de abater” abre espaço para projetos em que haja captura de CO2.

Foi uma meia-volta e tanto para a Gfanz. Semanas atrás, a aliança havia afirmado apoio inequívoco à proibição de mais financiamento para a queima de carvão.

Mark Carney, ex-presidente dos bancos centrais do Canadá e do Reino Unido e co-presidente da Gfanz, foi questionado sobre o assunto no evento em que foram anunciados os progressos da campanha Race to Zero.

Ele disse que o texto original ia “longe demais” e que as instituições financeiras não podem se comprometer a nada que seja “legalmente vinculante”.

Um dos motivadores para a mudança seriam as leis de defesa da concorrência. Bancos signatários do documento que se negassem a oferecer recursos para uma usina de carvão, por exemplo, poderiam ser alvos de ações antitruste.

Mas poucos duvidam da influência das leis aprovadas em Estados americanos controlados pelo Partido Republicano. No Texas e na Flórida, por exemplo, gestores que se recusarem a fazer negócios com companhias de combustíveis fósseis podem perder contratos governamentais.

Acelerando

A ONU apresentou ontem um relatório do andamento da campanha Race to Zero. Fazem parte da iniciativa todo tipo de entidade que não é parte dos governos nacionais: empresas, universidades, bancos, municípios, universidades e assim por diante.

As adesões à corrida pelo net zero, oficialmente lançada em junho de 2020, quase dobraram nos últimos 12 meses. Ao todo, 11 309 membros entraram na campanha, de 116 países diferentes.

“Embora o progresso seja louvável, ainda precisamos de mais (e melhores) reportes públicos [de emissões de gases que causam o efeito estufa] para garantir a continuidade das atividades e para servir de base para as próximas ações”, diz o documento.

Todos os membros da Race to Zero terão de demonstrar que estão alinhados aos princípios básicos da campanha até junho do ano que vem.

Mas os próprios líderes da campanha afirmam que ações voluntárias não serão suficientes para atingir os objetivos de reduzir pela metade as emissões de CO2 até o fim da década e atingir a neutralidade em carbono em 2050.

Outro documento, também divulgado ontem e batizado de Pivot Point (ponto de inflexão), aponta a necessidade de uma ação coordenada entre o setor privado, governos e reguladores para superar obstáculos no caminho da descarbonização.

A harmonização dos padrões de divulgações de informações e regulamentações que ataquem o greenwashing são dois problemas apontados pelo texto.

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