Fundo pioneiro em impacto caça negócios no Brasil

Bamboo Capital Partners está captando fundo de US$ 100 milhões, e em parceria com KPTL, quer investir até metade em startups brasileiras

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O Bamboo Capital Partners, um dos fundos pioneiros em investimentos de impacto com US$ 700 milhões sob gestão, está chegando ao Brasil.

Comandado pelo belga Jean-Philippe de Schrevel (à direita na imagem), o Bamboo acaba de fechar uma parceria com o fundo de capital de risco KPTL para gerir a porção brasileira de um veículo de US$ 100 milhões dedicado à América Latina.

A expectativa é que até metade do total seja destinado a startups brasileiras em estágio inicial de desenvolvimento. Os aportes devem ser de cerca de R$ 5 milhões cada.

De Schrevel é um veterano do segmento que começou a atuar com impacto antes mesmo que esse tipo de investimento ganhasse um nome.

 

Ele foi um dos fundadores do Blue Orchard, fundo criado em 2001 que levantou US$ 1 bilhão para sustentar instituições de microcrédito.

Com a intenção de ir além das microfinanças, em 2007 de Schrevel fundou o Bamboo Capital, que atua com iniciativas de acesso a educação, serviços de saúde e energia, além de tecnologias agrícolas e inclusão financeira.

Esses serão os setores que receberão atenção no Brasil, disse de Schrevel ao Reset, de sua casa, em Genebra. Com uma distinção importante: todos os aportes levarão em conta o uso da tecnologia digital.

“Estamos convencidos de que a tecnologia pode ser uma força poderosa para gerar impacto. Ela baixa custos e aumenta o acesso a serviços, o que ficou comprovado durante a pandemia.”

O Bamboo tem um escritório em Bogotá, na Colômbia, e já fez investimentos em outros países da região, mas essa é a primeira experiência no Brasil – “um mundo à parte” da América Latina por causa do tamanho e da língua, diz de Schrevel.

O trabalho de seleção dos empreendedores será feito em conjunto com a KPTL, e a casa brasileira fica responsável pela gestão dos investimentos.

“A agenda ESG e o capital de risco são primos de primeiro grau. É algo que já fazemos há quase dez anos”, diz Renato Ramalho (à esquerda na imagem), fundador e CEO da KPTL.

“Agora teremos acesso a um dos melhores exemplos do mundo de gestão de impacto. Precisamos beber essa água limpa, aprimorar nosso repertório técnico e profissional para entender o que é impacto verdadeiro.”

Outra casa brasileira, a X8 Investimentos, mantém uma parceria com outra grife do mundo do impacto, o Capria.

O Bamboo também é responsável há um ano e meio pela gestão dos ativos de impacto do grupo britânico Palladium, um dos nomes mais reconhecidos do segmento.

Ramalho acredita que uma das contribuições do Bamboo – para a KPTL e também para o segmento de investimentos de impacto no país – será justamente a sofisticação das ferramentas e medições feitas pelos europeus.

A Bamboo utiliza indicadores e metodologias padronizadas, como IRIS+, que também é usado por algumas casas brasileiras, além de sistemas proprietários para entender o efeito positivo das empresas de seu portfólio.

Em 15 anos, a Bamboo afirma ter causado impacto positivo para 193 milhões de pessoas, em 30 países diferentes, incluindo algumas das nações mais pobres do mundo.

Segundo seu relatório de impacto, os investimentos da companhia geraram quase 50 mil empregos, 18 mil dos quais para mulheres, e evitaram a emissão de 12 milhões de toneladas de CO2.

Desde 2019, o fundo também administra projetos para o Banco Mundial e para organismos da ONU, como o Unicef e o Fundo Internacional para Desenvolvimento da Agricutura.

“É um reconhecimento de que investimentos que visam o lucro podem gerar resultados duradouros e sustentáveis”, afirma de Schrevel.

Conta de multiplicação

Um dos nortes do investimento será a capacidade de gerar efeitos positivos em grande escala – possivelmente global, afirma de Schrevel.

A startup Lidya, investida do Bamboo que oferece crédito entre US$ 500 e US$ 50 mil para pequenas e médias empresas em apenas 24 horas, nasceu na Nigéria e já está presente na Polônia, na República Tcheca e em Portugal.

“Os problemas são os mesmos para quem mora em uma favela de Manila, Nairóbi ou do Rio de Janeiro”, afirma o gestor. “E as ferramentas para sair do ciclo de pobreza, também.”

A diferença é que o Brasil tem grandes números: serviços baseados em tecnologias de ruptura podem crescer muito rapidamente por aqui.

A taxa interna de retorno esperada dos fundos da Bamboo é de 20% ao ano. O fundo também já fez alguns gols de placa. Uma startup de energia solar com atuação na África está levantando a quinta rodada de financiamento. O aporte da Bamboo será multiplicado por cinco vezes, afirma de Schrevel.

Captação nacional

O novo fundo, chamado BLOC LatAm, está em fase de captação, e a ideia é conseguir também investidores locais.

“Estamos conversando com o 1% [dos mais ricos], dizendo: ‘Pessoal, é ótimo esperar que o Banco Mundial venha resolver o problema dos 40% mais pobres, mas que tal contribuir? Não estamos pedindo caridade, mas sim oferecendo um investimento rentável para seu portfólio”, diz de Schrevel.

Ramalho acredita que sejam feitos entre 10 e 15 aportes. Ele afirma que a KPTL tem mais de 12 mil empresas cadastradas, e a busca das candidatas já começou.

Além da KPTL, a parceria da Bamboo também conta com o apoio técnico da Brasilpar, por meio de seu sócio Carlos Braga, presidente do conselho da Bamboo América Latina, e do escritório de advocacia Stocche Forbes.

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