O fundo que investe na biodiversidade da Amazônia (e atraiu o BNDES)

Com a entrada do BNDES e novos investidores, veículo da gestora francesa Mirova deve mais que dobrar de tamanho e chegar a R$ 220 milhões

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Em meio à profusão de fundos de investimento que miram florestas e teses climáticas, um veículo da gestora francesa Mirova tem um foco muito mais específico: investe exclusivamente em empresas que fomentam a biodiversidade da Amazônia brasileira. 

Lançado há pouco mais de dois anos, o Amazon Biodiversity Fund (ABF) tem cerca de R$ 80 milhões sob gestão. O fundo recebeu capital âncora do Centro Internacional de Agricultura Tropical (Ciat) além de recursos da USAID, órgão do governo americano de assistência ao desenvolvimento, do banco holandês ASN, focado em investimentos sustentáveis, e da própria Mirova. 

E está prestes a mais que dobrar de tamanho. O ABF foi selecionado pelo BNDES numa chamada para veículos de impacto socioambiental que está em fase final de diligência. O banco deve entrar com cerca de R$ 60 a R$ 70 milhões, diz Nick Oakes, gestor do ABF. 

“Estamos bem no caminho para chegar a uma captação total de R$ 220 milhões, R$ 230 milhões”, afirma Oakes. Sem citar nomes, ele diz ter outros dois investidores grandes entrando até outubro, além de haver conversas com family offices locais.

 

Dívida lastreada em receita

O ABF opera num modelo relativamente comum no mundo dos investimentos de impacto, mas ainda pouco utilizado no Brasil: o de dívidas atreladas a receitas futuras.

O fundo só recebe o pagamento conforme as empresas de que é sócio atingem determinados patamares acordados de faturamento ou Ebitda. 

“O ponto principal, que é mais atrativo para as investidas, é que não tem cronograma de amortização, como uma dívida”, explica Oakes. “Dessa forma, podemos conseguir um retorno atrativo para os investidores, quase igual ao do equity, mas sem precisar diluir os fundadores e sem precisar assumir um risco de iliquidez no futuro”.

Com bastante flexibilidade em termos de estrutura de negócio, o fundo até pode investir em participação acionária. Mas esse não é o caminho preferencial. A preocupação é que a propriedade dos negócios permaneça dentro da Amazônia.

“Esse é um ponto de impacto muito importante para nós. Se pensarmos em equity (participação acionária), é bem provável que o comprador seja um grupo de fora. Por isso preferimos minimizar esse risco.”

O negócio da biodiversidade

Dívida atrelada à receita futura foi o mecanismo utilizado em três dos quatro investimentos já fechados pelo ABF. 

O fundo investe na Manioca, marca de alimentos que utiliza ingredientes amazônicos e que já caiu no gosto de chefs famosos como Alex Atala e Helena Rizzo; na Horta da Terra, que produz ervas e plantas alimentícias não-convencionais da Amazônia, como taioba e jambu, e as disponibiliza na forma de um pó desidratado, de maior duração; e na Inocas, que produz a macaúba em sistema agroflorestal, cujo fruto pode produzir um substituto do óleo de palma.

O investimento mais recente foi no Café Apuí, num financiamento que será pago em créditos de carbono a serem gerados pelas plantações consorciadas com a floresta. Um quinto aporte está em vias de ser fechado. 

“Com esses cinco investimentos, já comprometemos dois terços da primeira captação. Agora precisamos captar os novos recursos”, afirma Oakes.

Os cheques assinados variam entre R$ 4 milhões e R$ 10 milhões. 

“Quando aumentar o tamanho do fundo pretendemos chegar a cheques de até R$ 20 milhões, especialmente para follow-ons”, diz o gestor.

Blended finance

Para dar capital paciente a negócios ainda incipientes, o fundo conta com uma estrutura de ‘blended finance’.

O dinheiro do Ciat está em cotas juniores, que assumem as primeiras perdas. O restante dos investidores têm cotas sêniores e contam com uma garantia do Development Finance Corporate (DFC), ligado à USAID.  

O ABF mira em empresas em estágio inicial, mas que já tenham tido algum tipo de aporte e planos de negócios estruturado – papel que, num ecossistema incipiente como o amazônico, não raro fica por conta da filantropia. 

O surgimento de aceleradoras, como a Amaz, ajuda a aumentar o escopo. 

“Esse novo crescimento do ecossistema de aceleradores e incubadoras nos ajuda muito. Por outro lado, a gente tem visto outros fundos, atuais ou lançando em breve, investindo numa fase posterior à nossa, de crescimento”, diz Oakes.

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