Filantropia estratégica: as selecionadas da Quintessa para o enfrentamento à covid

Parças, Empreende Aí e Programa Vivenda receberam R$ 650 mil dos family offices Península e Provence

 

Uma startup que forma egressos do sistema prisional em programação, outra de reforma de casas de baixa renda e um fundo de microcrédito e capacitação para microempreendedores foram os escolhidos pela aceleradora de negócios de impacto Quintessa em seu edital para soluções que combatem a covid-19. 

Os negócios vão receber, ao todo, R$ 650 mil das firmas de investimento Península, family office de Abilio Diniz, e Provence, de Leo Figueiredo, um dos fundadores da Quintessa. 

Na plataforma Negócios pelo Futuro, além do apoio em dinheiro, os empreendedores já estão recebendo mentorias de executivos de todos atores envolvidos, que se estendem até abril de 2021 — um ativo tão relevante quanto o capital em termos de incertezas da pandemia. 

Dentre as 261 inscritas, as escolhidas foram a escola de desenvolvimento e programação de softwares e aplicativos Parças, focada em egressos do sistema prisional; a startup de reformas Vivenda, com enfoque na periferia; e a escola e fundo de investimento Empreende Aí.

Tratam-se todos de negócios de impacto, que operam a partir de mecanismos de mercado e buscam o lucro por meio da venda de seus produtos e serviços. 

Mas, ainda que as duas estruturas de family office possam analisá-los como potenciais investimentos no futuro, este não foi o foco da plataforma. 

O capital mobilizado veio do bolso da filantropia estratégica, contratando as soluções dos negócios para que elas sejam oferecidas gratuitamente para os beneficiários na ponta. É um ganha-ganha: as empresas têm um fluxo de caixa em meio às dificuldades trazidas pela covid e o dinheiro garante que o serviço chegue ao beneficiário final. 

“É uma doação para ajudar as empresas de impacto a crescerem”, diz Laura Jaguaribe, diretora de investimentos do Península, que alocou R$ 50 milhões em doações neste ano para amenizar os efeitos do coronavírus. 

“Nosso objetivo com o apoio aos projetos e a formação da próxima geração foi o de colaborar com o nosso trabalho e o capital das famílias que estão conosco”, diz Ricardo Coelho Duarte, diretor da Provence. “Além de gerar valor para as pessoas que têm a petulância de construir um país melhor através do empreendedorismo.”

Além da Quintessa, a Negócios pelo Futuro contou com apoio do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), do Pipe Social, vitrine de startups de impacto, além da TetraPak e da AWS. Novas edições da plataforma estão previstas para 2021.

Quem é quem 

Desde o início da pandemia, a Empreende Aí, que nasceu como uma escola de empreendedorismo voltada às periferias, está mais próxima da motivação que inspirou o casal empreendedor. Eles montaram o Fundo Periferia Empreendedora, que desde maio já captou R$ 500 mil para oferecer microcrédito a 250 negócios até fevereiro de 2021. 

Com o novo apoio financeiro vão poder também estruturar e disponibilizar online seu curso de voltado aos empreendedores das periferias. 

“Com os R$ 120 mil reais que estamos recebendo vamos gerar fluxo de caixa e conhecimento para empreendedores da periferia”, conta Luis Coelho, que fundou a Empreende Aí com sua esposa Jennifer Rodrigues, inspirados por uma palestra que assistiram do economista Muhammad Yunus, criador do termo microcrédito, e laureado com o Nobel da Paz. 

Duas selecionadas têm uma história interligada. Foi um dos alunos da Empreende Aí, o advogado e programador Alan Almeida, que fundou com sua esposa, Carla Cristina, assistente social e programadora, a Parças Development School. 

A startup é focada em dar formação em tecnologia para egressos do sistema prisional, como forma de romper o ciclo de reincidência no crime ao mesmo tempo em que supre a carência de profissionais de TI qualificados no mercado brasileiro.

A Parças vai receber até R$ 215 mil para formar mil técnicos em programação no período de seis meses. Desse valor, R$ 84 mil irão para cestas básicas para os alunos, egressos da Fundação Casa e de um presídio feminino em São Paulo.

O impacto, no entanto, é mais amplo: os alunos vão testar seus conhecimentos prestando serviços para 5.000 comércios nas periferias. 

Após concluir as certificações para desenvolver e testar aplicativos de celular, sites e softwares, os técnicos estarão prontos para o mercado de trabalho. “Ajudamos a resolver o apagão técnico do mercado, o desperdício do potencial humano e a aumentar a segurança na sociedade”, diz Almeida.

A terceira empresa é uma velha conhecida do mundo de impacto e vai usar os recursos como parte do plano para aumentar seu alcance. O Programa Vivenda, de reformas na periferia de São Paulo, recebeu R$ 160 mil para montar um marketplace e contratar seis empresas reformar 26 casas de famílias de baixa renda em outros Estados.

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