Fama começa a medir pegada de carbono do portfólio

Prática vem ganhando força entre gestoras estrangeiras, mas ainda engatinha no Brasil

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Uma pioneiras e mais vocais na adoção de critérios ESG no Brasil, a Fama Investimentos foi a primeira gestora do país a divulgar um relatório de pegada de carbono do portfólio. 

O resultado: para cada um milhão de reais investido, o portfólio emite 7,6 milhões de toneladas equivalentes de dióxido de carbono, 97% menos que a carteira que compõe o Ibovespa. 

Mesmo considerando os índices setoriais de sustentabilidade, a carteira ainda sai na frente. No Índice de Carbono Eficiente (ICO2) da B3, cada milhão de reais se traduz numa emissão de 103,2 milhões de toneladas, quase 14 vezes as emissões do portfólio da Fama. 

Os resultados levam em conta as emissões brutas das empresas investidas — isto é, sem considerar ações de compensação, como reflorestamento –, ponderadas pela participação da gestora no capital de cada uma das companhias. 

 

“Se eu cobro isso de todas as empresas em que eu invisto, não apresentar o mesmo seria quase que hipocrisia. Preciso reportar o resultado daquilo que eu faço”, diz Fabio Alperowitch, sócio-fundador da Fama, que gere R$ 2,3 bilhões em ações. 

Considerando as emissões líquidas, isto é, as iniciativas que as empresas do portfólio tomam para retirar o CO2 da atmosfera, o portfólio da Fama é carbono negativo: sequestrou 86,8 mil toneladas de gás carbônico equivalente. 

A grande contribuição vem da Klabin, que tem uma participação grande na carteira, e tem uma ampla política de reflorestamento, além da Duratex, de painéis de madeira, que também tem políticas para sequestrar carbono.

Uma prática que vem ganhando cada vez mais adesão entre as gestoras estrangeiras, especialmente as europeias, a mensuração da pegada de carbono dos portfólios ainda engatinha no Brasil. 

A mensuração do portfólio da Fama teve início dentro da iniciativa Investidores pelo Clima (IPC), uma parceria entre a Sitawi e o Instituto Clima e Sociedade (iCS), que visa engajar e capacitar investidores domésticos para descarbonizar seus portfólios. 

“No Brasil, os investidores olham pouco para o clima e, se olham, é com um viés mais distante, de médio e longo prazo, quando o assunto é mais urgente”, diz Gustavo Pimentel, diretor da Sitawi. “O IPC nasceu como uma forma de engajar sobre o risco climático e dar as ferramentas e metodologias que já estão à disposição para lidar com isso.” 

Foram feitos alguns projetos-piloto com gestoras, entre as quais a Fama — a única a tornar público o resultado. 

Fundada em 1993, a gestora tem uma política ESG bem estabelecida e não investe em combustíveis fósseis. Ainda que não haja um veto específico ao setor na política de investimentos, a casa tem por princípio não investir em estatais e nem em empresas de commodities puras, o que exclui empresas como a Petrobras e Vale do universo investível. 

Na carteira, estão B3, Sul América, Raia Drogasil, Fleury, Multiplan, MRV, M. Dias Branco, Duratex, Klabin, Randon, Mills, Alpargatas e Arezzo. (O diagnóstico da pegada de carbono leva em conta o portfólio do fim de 2018, para torná-lo comparável com as emissões de gás estufa por parte das empresas, que são feitas com defasagem.) 

Um dos grandes problemas encontrados pelas gestoras é que a divulgação dos dados de emissão de carbono por parte das empresas ainda é falha: no portfólio da Fama, 25% das empresas (Randon, Mills, Alpargatas e Arezzo) não divulgam dados de emissões. 

Para isso, a Sitawi desenvolve proxies, com base em empresas de mesmo porte e setor. Além disso, alguns dados são divulgados com padrões diferentes e são necessários ajustes para torná-los comparáveis. 

Em meio à emergência climática, a cartilha dos investidores é que a perfeição não pode ser inimiga do progresso. A expectativa da Fama é que a divulgação tenha um efeito pedagógico: “Ao deixar explícito quem não reportou, espero que haja um incentivo e até algum tipo de constrangimento de que isso ainda não esteja feito”, diz Alperowitch. 

A ideia é que o relatório seja atualizado anualmente.

As gestoras de recursos dos bancos Itaú, Santander e BTG, além da JGP, assinaram um compromisso com o IPC para dar prioridade a questões climáticas nos seus processos de investimento, o que inclui mensurar a pegada de carbono do seu portfólio. 

Confira aqui o relatório da FAMA e aqui o guia de descarbonização de portfólios do IPC.

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