Exxon Mobil sofre derrota histórica em pressão dos acionistas por transição energética

Apoiado por gigantes como BlackRock, pequeno hedge fund emplaca conselheiros para mudar a estratégia da maior petroleira americana em direção a mais renováveis

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Em mais um sinal dos tempos para as empresas de petróleo, a ExxonMobil sofreu uma derrota histórica hoje na sua assembleia anual, com investidores pressionando por uma mudança de estratégia em direção à transição para energia mais limpa. 

Numa batalha corporativa de Davi contra Golias, a gigante levou a pior. 

O Engine nº1 — um pequeno hedge fund com apenas US$ 54 milhões investidos na companhia que vale US$ 248 bilhões na bolsa — conseguiu apoio para eleger ao menos dois de quatro nomes que propôs para o board da companhia, no último capítulo de uma campanha ativista que se arrastava desde dezembro.

(Numa reunião atribulada, ainda há votos a serem contados para saber o que vai acontecer com o restante das 10 cadeiras que compõem o conselho.) 

Além dos maiores fundos de pensão dos Estados Unidos, que já haviam manifestado apoio, o Engine também contou com o endosso da BlackRock,  a maior gestora de ativos do mundo, que votou a favor de três dos quatro candidatos da chapa. 

A derrota veio num dia emblemático para as Big Oil. 

Do outro lado do Atlântico, a Shell perdeu outra batalha relevante, dessa vez na Justiça, com uma corte holandesa ordenando que a companhia seja mais agressiva ao cortar suas emissões de carbono para se alinhar ao Acordo de Paris.

Na Chevron, outra grande petroleira americana, 61% dos acionistas votaram hoje a favor de uma proposta para que a companhia reduza as emissões de carbono de escopo 3, geradas pelos consumidores no uso dos combustíveis. O conselho tinha recomendado que os investidores rejeitassem a proposta.    

Mudança no clima

Mais do que o mero ativismo climático, a derrota na Exxon mostra uma preocupação crescente dos investidores com o futuro da companhia, num mundo em que o petróleo está cada vez mais obsoleto.

 A tese do Engine nº1 — que chamou a Exxon de “dinossauro dos combustíveis fósseis” — é que a empresa precisa diversificar seus investimentos para se tornar mais resiliente. 

Em nota após a reunião, a BlackRock justificou seu voto dizendo que a Exxon e seu conselho precisam “avaliar melhor a possibilidade de que a demanda por combustíveis fósseis caia de forma mais rápida nas próximas décadas”. 

“Continuamos a estar preocupados com a direção estratégia da Exxon e o impacto antecipado em sua performance financeira de longo prazo e continuidade”, ressaltou a gestora. 

Já a Exxon defende aumentar os investimentos em exploração, à espera de uma demanda ainda forte por petróleo e plástico nas próximas décadas, com aposta em um plano multibilionário de novas tecnologias de captura e armazenagem para tornar sua atividade principal menos poluente. (Qualquer semelhança com a estratégia da Petrobras não é mera coincidência.)

O CEO da Exxon, Darren Woods, fez campanha pessoalmente contra o Engine nº1, e muitos viam a votação como uma espécie de referendo sobre sua atuação à frente da companhia — que já chegou a ser a mais valiosa da bolsa americana em 2013, mas no ano passado foi retirada do índice Dow Jones. 

O retorno sobre o capital investido da Exxon é hoje uma fração do que já foi nos tempos áureos e a companhia saiu de geradora de caixa para uma dívida, que disparou ainda mais em 2020 com a queda na demanda causada pela pandemia de covid. 

“Com quase 3 milhões de acionistas, não é surpreendente que tenhamos ouvido uma ampla gama de visões, e muitos deram apoio ao trabalho que estamos fazendo para melhorar os lucros e a capacidade de fluxo de caixa, bem como os avanços da companhia para um mundo de baixo carbono”, disse Woods em nota depois da votação.

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