Europa vê fuga de investidores de fundos ESG

Ações de companhias de defesa e de energia começam a ganhar lugar nas carteiras, aponta relatório do Bank of America

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Os fundos europeus de ações que usam critérios ambientais, sociais e de governança tiveram a primeira fuga de recursos desde o começo do boom ESG, em 2016, aponta relatório do Bank of America.

O continente concentra mais de 80% dos ativos mantidos em fundos considerados sustentáveis, segundo a empresa de informações de mercado Morningstar.

Mas a somatória dos efeitos da guerra da Ucrânia com a perspectiva de uma desaceleração da economia mundial afetou os investimentos ESG.

Os fundos de ações ESG perderam 16% dos recursos sob gestão no segundo trimestre deste ano. No mesmo período do ano passado, o volume de dinheiro havia aumentado 64%.

 

Uma das explicações é a performance.

Depois de quase uma década de bons resultados, nos primeiros seis meses de 2022 os fundos ESG europeus estão atrás dos convencionais: baixa de 20%, ante queda de 17% para os não-ESG.

Defesa e energia

Historicamente, os fundos ESG de forma geral não investem em papéis dos setores de defesa e são restritivos na política de investimento em energia. Mas algo começou a mudar com a guerra na Ucrânia.

“Acreditamos que os fundos estejam revisitando o custo [de manter políticas] de exclusão”, afirma o BofA no relatório que acaba de ser enviado a clientes. Muitos dos ganhos na bolsa neste primeiro semestre foram registrados em companhias de defesa e energia, por causa da guerra.

Mas não se trata apenas de uma questão de performance. Dias depois do início do conflito, gestores do continente já sinalizavam as primeiras mudanças em suas estratégias, e analistas do Citi afirmaram que a defesa seria uma “necessidade que facilita as empreitadas ESG”.

A invasão de um país europeu pela Rússia levou parte dos gestores a repensar o filtro negativo imposto a companhias que produzem armas, sob o argumento de que, em muitos casos, elas são usadas para se defender dos agressores

Agora, o relatório do BofA captou alguns sinais concretos da mudança de paradigma.

De forma geral, os fundos com rótulo ESG seguem com um peso menor que a média de mercado (underweight) nos setores de energia e defesa, mas aqui e ali empresas polêmicas dão as caras.

Companhias como a alemã Rheinmetall, que fabrica tanques usados pelas forças da Otan, estão começando a aparecer em portfólios ESG, diz o banco. O mesmo vale para a britânica BAE Systems e a francesa Thales.

Em comparação com a média do mercado, os gestores de veículos ESG foram os que mais aumentaram suas participações em companhias de gás e petróleo, como Shell, Repsol e Galp.

O ritmo de crescimento do setor como um todo na Europa também sofreu uma grande desaceleração, segundo o BofA. O número de fundos de ações com mandatos ESG cresceu em média 55% ao ano entre 2018 e 2021. Este ano, o aumento foi de apenas 3% em comparação com o mesmo período do ano passado.

Mas essa retração pode ser circunstancial, diz o levantamento. A espera por definições regulatórias pode ter levado os gestores a ter mais cautela em 2022. Itens da chamada taxonomia de investimentos verdes da União Europeia só foram definidos há alguns dias.

Outro ponto relevante, diz o BofA, é o temor das acusações de greenwashing. Em junho, a alemã DWS sofreu uma batida da polícia alemã, parte de uma investigação de maquiagem verde.

Renda fixa ESG

Em outro levantamento, o Bank of America compara o fluxo de recursos para fundos de renda fixa no mundo todo. No mercado de dívidas, pelo menos por enquanto, os veículos ESG não estão sofrendo tanto.

Entre janeiro e maio, os fundos de dívidas ESG tiveram um fluxo positivo de US$ 3,6 bilhões. Não é muito dinheiro, mas o resultado ganha destaque na comparação com os fundos não-ESG, que perderam US$ 242 bilhões na primeira metade deste ano.

“O crescimento dos fundos [de dívida] ESG está claramente desacelerando, com o número absoluto de fundos ESG aumentando em somente cinco em maio (chegando a 1.091)”, afirma o BofA. Hoje, 10,7% dos fundos de dívida são ESG.

Assim como no caso dos fundos de ações, a retração foi particularmente aguda na Europa: houve uma fuga de US$ 3,9 bilhões nos primeiros cinco meses do ano.

Os fundos de mercados emergentes também perderam US$ 275 milhões entre janeiro e maio, o primeiro recuo desde setembro de 2020. A exceção foi o mercado americano, que registrou aumento de US$ 2,3 bilhões.

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