Esse fundo levantou R$ 51 milhões para comprar créditos de carbono no Brasil

Parceria entre Vitreo, WayCarbon e ForFuturing, veículo pioneiro quer dar escala à compra e venda no mercado voluntário

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Em meio à onda crescente de empresas querendo neutralizar suas emissões de gases de efeito-estufa, o mercado de créditos voluntários de carbono vem ganhando cada vez mais corpo. 

Na esteira desse movimento, o primeiro fundo de investimento voltado para a compra desses offsets no Brasil acaba de fechar uma captação de R$ 51 milhões. 

Batizado de FIP Carbono, o veículo é uma parceria entre a gestora Vitreo, a consultoria em mudanças climáticas WayCarbon e a ForFuturing, que presta assessoria empresarial em sustentabilidade e ESG.

A ideia básica é comprar créditos gerados por projetos variados, de florestais a energias renováveis e de aterros sanitários, e ter um estoque na prateleira para atender à demanda de grandes empresas que buscam neutralizar suas emissões. 

A premissa é de que há um mercado nascente a ser arbitrado: o capital dos investidores será remunerado de acordo com os spreads de compra e venda e apostando num aumento dos preços. O prazo de investimento é de cinco anos. 

“Temos visto um aumento muito grande tanto na procura de créditos por parte das empresas que querem compensar como aquelas que querem gerar créditos de carbono e não sabem por onde começar”, diz Felipe Bittencourt, sócio e CEO da WayCarbon, empresa mineira fundada há 15 anos e com tradição em assessorar estratégias de compensação. 

Pioneiro no setor, o fundo vem sendo gestado desde o começo do ano e passou inicialmente pelo desafio regulatório. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) não reconhece créditos de carbono como ativos financeiros e por isso eles não podem constar diretamente na carteira dos fundos. 

“Inicialmente consideramos a possibilidade de um FIDC [fundo de investimento em direitos creditórios], mas logo ficou claro que isso não seria possível”, diz Ed Morata, sócio da ForFuturing. 

A opção foi migrar para uma estrutura de fundo de investimento em participações (FIP). O veículo aplica diretamente numa empresa criada para este fim, batizada de Carbon Reset, que é quem vai comprar e vender os créditos de carbono e já tem uma equipe operacional dedicada.

O comitê de investimentos dessa empresa, que escolhe em quais projetos entrar, é formado por representantes de cada uma dos três parceiros, que têm competências complementares. 

No atacado

O FIP quer atuar suprindo a demanda por créditos com qualidade em transações de alto volume — uma dificuldade num mercado em que, não raro, a oferta é muito pulverizada entre pequenos projetos. Boa parte dos brokers que atuam nesse mercado apenas unem a ponta dos compradores e vendedores e são apenas intermediários, sem os créditos no estoque.

“Hoje quem quer comprar com escala tem dificuldade de comprar picadinho”, diz Bittencourt, da WayCarbon. Entre outras operações, a consultoria vem assessorando o Banco BV na compra de offsets para cumprir a meta de neutralizar a carteira de veículos financiados. São mais de 7 milhões de toneladas, numa dos maiores volumes de neutralização por parte de uma única empresa no país. 

O mercado está bastante aquecido especialmente na área de créditos florestais, com a entrada de players como a Moss, a captação de R$ 30 milhões numa rodada de investimento da Carbonext e a compra da Biofílica pela Ambipar

Mas o FIP Carbono será agnóstico: quer investir também em offsets gerados por emissões evitadas por aterros sanitários, energias renováveis e substituição de combustíveis, por exemplo. 

“Queremos ter diversidade geográfica, de tipos e padrões tecnológicos. A gente vai dar ao cliente a escolha da diversidade. Ele poderá escolher fazer um pool com diversos projetos espalhados pelo Brasil, que dá o volume que ele precisa e provavelmente tende a otimizar o preço médio do crédito”, diz Bittencourt.

A Carbon Reset já comprou 1,2 milhão de toneladas de créditos num projeto de REDD+, de desmatamento evitado, e está em vias de fechar a compra de um volume equivalente de créditos gerados por um aterro sanitário. 

E o preço? 

Num mercado pouco organizado e com formação de preços ainda opaca, uma das maiores dúvidas em relação aos créditos voluntários é qual o potencial efetivo de valorização. 

“Na modelagem financeira que apresentamos aos investidores, consideramos multiplicar o capital em algumas vezes. E aí a gente usa muito o potencial da WayCarbon de achar bons projetos”, diz Felipe Monteiro, head de gestão de patrimônio e investimentos alternativos da Vitreo. 

O último relatório ‘State and Trends of Voluntary Carbon Markets’, considerado a principal bússola do mercado voluntário global, apontou um preço médio de US$ 3,15 por tonelada de CO2 em 2021. “A gente tem comprado mais barato que isso.”

Idealmente, a Carbon Reset quer entrar em projetos já performados, com créditos já emitidos e com certificados, prontos para serem vendidos. Mas, em alguns casos, pode ajudar na última milha, auxiliando os vendedores no processo de certificação em projetos que já conhece mais de perto, o que também tende a ampliar as margens. 

Baby steps

A ideia inicial era começar o fundo com uma captação menor, de cerca de R$ 25 milhões, mas a demanda surpreendeu, principalmente por parte de institucionais. 

Apesar de todo o buzz em cima do mercado de crédito de carbono voluntário, a estimativa é que ele deve atingir a marca de US$ 1 bilhão transacionados no mundo pela primeira vez este ano

A maior parte do volume negociado em CO2 está no chamado mercado regulado, em que governos estabelecem tetos de emissões para setores ou empresas mais poluentes, caso dos mercados europeu, de Estados americanos e, mais recentemente, da China. 

“Estamos ainda no prólogo dessa história e o potencial é imenso, mas é importante ir com calma inclusive para avaliar a profundidade do mercado”, acrescenta Morata, da ForFuturing.  

Ele aponta que há um processo importante de educação dos investidores: durante o roadshow do fundo, as perguntas não eram sobre o fundo, mas sobre como funciona a dinâmica desse mercado. 

Como todo o FIP, por questões regulatórias, a oferta das cotas foi restrita a investidores profissionais — aqueles com mais de R$ 10 milhões já aplicados. Ao todo, foram 61 cotistas, entre pessoas físicas de alto patrimônio, single e multi-family offices e investidores institucionais.

Os sócios das Vitreo, WayCarbon e ForFuturing envolvidos no negócio entraram com um aporte conjunto de R$ 6 milhões e ficaram com pouco mais de 5% do fundo.

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