Essa startup quer reduzir o custo dos hospitais — e acaba de receber um aporte da KPTL

 

Dona de um marketplace de suprimentos hospitalares com cerca de 8 mil fornecedores cadastrados, uma startup do Recife chamada Síntese B2B acaba de fechar uma rodada de captação que pode chegar a R$ 9 milhões para bancar sua expansão geográfica e a criação de novos produtos. 

O investimento é liderado pela KPTL (lê-se Capital, em inglês), gestora de venture capital que ganhou notoriedade no setor de saúde, entre outras coisas, por sua aposta na fabricante de respiradoras Magnamed.

A aposta é na sofisticação das compras do setor hospitalar, hoje ainda feitas de forma analógica no país, como forma de reduzir custos e ajudar a conter a disparada na inflação médica.  

Fundada pelo francês Bertrand Gourgue em 2016, a Síntese conecta a área de compras de hospitais, clínicas e planos de saúde aos fornecedores dos mais variados itens, como medicamentos, equipamentos de proteção individual, enxoval e dietas. 

No ano passado, a plataforma, que tem 400 clientes — com nomes como o Instituto de Infectologia Emílio Ribas, o Hospital Santa Marcelina, o Hospital Primavera, além de unidades da Unimed e Santas Casas — transacionou R$ 1,5 bilhão.

Tudo começa com a lista de compras do cliente. É aberta uma cotação e os fornecedores dos itens buscados são avisados para fazer suas propostas no prazo indicado pelo cliente. 

O sistema gera um comparativo por preços, qualidade, prazos de entrega, condições de pagamento, entre outros fatores para facilitar a escolha. Depois disso, o sistema gera os pedidos e viabiliza faturamento e acompanhamento da entrega, além de gerar relatórios gerenciais e permitir gestão de contratos.

Para ter acesso à plataforma, os clientes pagam uma mensalidade fixa média de R$ 2 mil, calibrada de acordo com o volume e complexidade de suas compras. Para os fornecedores, o acesso é gratuito. 

Oceano azul

A Síntese não está sozinha no mercado. Empresas como Apoio Cotações, Dr. Market, GC Cotações, entre outras, também atuam neste modelo. 

Uma das maiores do setor, a Bionexo — que atende 2.220 clientes, transacionou R$ 11,7 bilhões no ano passado e tem a Temasek, holding de investimentos do governo de Cingapura como acionista — chegou a ensaiar um IPO no começo de março, mas o processo foi interrompido em meio ao maior ceticismo com empresas de tecnologia. 

Mas o oceano ainda é azul. Segundo Gourgue, apenas metade dos hospitais e cerca de 10% das clínicas utilizam marketplaces. O restante ainda opta pela chamada “compra manual”, em que hospitais e clínicas negociam diretamente com os fornecedores e mantêm um controle próprio sobre a operação de abastecimento. 

De acordo com o fundador da Síntese, ao utilizar a plataforma, os clientes alcançam uma economia média de 15% nos gastos com suprimentos. O desconto pode chegar a 50% no caso de hospitais com grande incidência de compras de emergência — quando o prestador de saúde busca no varejo alguns suprimentos necessários para alguma situação específica e, com isso, paga mais caro. 

No limite, a economia de custos pode ser transmitida aos pacientes, com menores reajustes nos custos hospitalares e planos de saúde. Há ainda um ganho com a maior transparência das compras, evitando possíveis práticas como superfaturamento.

A plataforma evita ainda a falta de suprimentos — que, no setor hospitalar, pode ser caso de vida ou morte. “Pode haver cancelamento de cirurgias. Por vezes, os produtos nem são caros, mas são importantíssimos para um tratamento”, diz.  

Dupla vertente

Este segundo investimento que a Síntese recebeu — antes houve um investimento-anjo — conta também com a participação do Interplayers, hub voltado para negócios ligados a saúde e bem-estar. O aporte começa em R$ 5 milhões (sendo R$ 3 milhões da KPTL) e pode adicionar outros R$ 4 milhões de acordo com a evolução do negócio.

Com a injeção de capital, a previsão é que a operação cresça a uma taxa entre 80% e 100% nos próximos dois anos. É pelo menos o dobro dos 40% de crescimento registrados em cada um dos últimos três anos. O dinheiro será aplicado em duas vertentes.

A primeira é a ampliação da presença geográfica da operação principal, o marketplace. Hoje a healthtech está em 16 estados e vai investir em marketing e estrutura comercial nas regiões Sul, Centro-Oeste e em São Paulo, mercados hoje atendidos a partir de outras localidades.

A segunda vertente é o lançamento de novos produtos. 

Nessa frente, uma das principais apostas é uma plataforma de planejamento de compras, que pretende antecipar as necessidades de cada hospital ou clínica e melhorar a gestão de estoque.

“Com base na análise de uma base gigante de dados, como histórico de compras e sazonalidade, o sistema poderá sugerir uma programação de compras”, diz o CEO. “É uma ferramenta que vai mastigar toda a informação do usuário.”

Veterana das healthtechs

O aporte da KPTL foi feito a partir do fundo Criatec 3, que a casa gere com recursos do BNDES. O novo investimento adiciona mais uma healthtech ao portfólio já parrudo da gestora, que é uma das pioneiras no setor que agora está aquecido do que nunca.

Segundo a consultoria Distrito, os investimentos em healthtechs brasileiras já ultrapassaram os US$ 90 milhões no primeiro trimestre de 2021, valor que corresponde a 85% de todo o investimento em 2020. 

Além da Síntese, a KPTL, que administra um total de R$ 1 bilhão, também injetou dinheiro em startups como NeuroUP, Carenet e Invita. É também a maior investidora da Magnamed, a partir do fundo Criatec 1, também com recursos do BNDES.

“O setor de saúde tem trazido as maiores taxas de retorno dos nossos portfólios e agora estamos criando um fundo dedicado”, diz Renato Ramalho, CEO da KPTL.

Ainda em fase de captação e com validade de dez anos, o Health Tech Fund prevê levantar R$ 200 milhões para operações voltadas para áreas como biotecnologia, telemedicina, inteligência artificial e internet das coisas voltada para saúde, entre outras.

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