ESPECIAL: Como a guerra na Ucrânia afeta a transição energética

Dependência europeia do gás russo pode atrasar descarbonização da Europa, mas investimentos verdes devem se intensificar

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A invasão da Ucrânia por tropas russas na manhã desta quinta-feira deu início a uma guerra que pode ser a maior em uma geração, talvez o conflito mais grave no Ocidente desde a Segunda Guerra Mundial.

Comentaristas apontam para uma nova ordem mundial e um novo equilíbrio de forças global, 30 anos depois do fim da Guerra Fria.

Outra consequência possível – até mesmo provável, segundo alguns analistas – do conflito é uma aceleração ainda maior da transição energética.

No curto prazo, porém, deve ocorrer o inverso. Os mesmos governos europeus que têm liderança reconhecida na agenda de descarbonização estão preocupados com a segurança energética nos próximos meses.

 

As importações de carvão do continente aumentaram 56% em janeiro em relação ao mesmo mês de 2021.

As termelétricas estão estocando o mais sujo dos combustíveis fósseis dada a incerteza em relação ao fornecimento de gás russo. Interferir no suprimento dessa commodity é uma das principais armas à disposição de Vladimir Putin para colocar pressão nas potências europeias.

Saem da Rússia cerca de 40% do gás que aquece residências e escritórios, gera eletricidade em termelétricas e mantém funcionando as fábricas na Europa.

O cenário é paradoxal. Por um lado, o conflito deve levar o mundo a se afastar inicialmente dos objetivos de descarbonização consagrados no Acordo de Paris. Por outro, o esforço para garantir fontes e fornecedores alternativos de energia, preferencialmente verdes, ganhou nova urgência.

O que é certo é que o impacto da guerra na Ucrânia também se fará sentir na luta contra a mudança do clima.

Contra o relógio

“Vamos redobrar a aposta em renováveis”, afirmou no sábado Ursula Van der Leyden, presidente da Comissão Europeia, o órgão executivo da União Europeia. “Isso vai aumentar a independência estratégica da Europa em energia.”

A expectativa é que a UE apresente na próxima semana um plano com medidas concretas para reduzir sua dependência das importações russas.

Embora o pacote de sanções sobre a Rússia tenha provisões específicas para preservar o suprimento de energia, estar à mercê de um único país sempre foi motivo de inquietude no bloco.

Desde antes da conflagração no Leste Europeu, os preços do gás na Europa já haviam quintuplicado em comparação com o ano passado.

“Definitivamente há um senso de crise e um ímpeto que não se via antes”, diz ao Reset Lauri Myllyvirta, analista-chefe do think tank Centre for Research on Energy and Clean Air.

“A Europa já tem metas de net zero para a eliminação da maioria dos combustíveis fósseis. Acelerando os investimentos em energia limpa – investimentos que virão de um jeito ou de outro – conseguiremos chegar lá muito mais rápido.”

A meta declarada da UE é reduzir em 55% as emissões de gases de efeito estufa até 2030 (em comparação com níveis de 1990) e atingir a neutralidade de carbono em 2050.

O foco em fontes renováveis passa pela instalação de enormes fazendas solares e cataventos em terra e no mar. A viabilização de uma economia do hidrogênio verde – uma grande oportunidade para o Brasil – também deve ganhar impulso.

Grün, aber…

A Alemanha ilustra as escolhas difíceis trazidas pelo conflito da Ucrânia. O governo que assumiu em dezembro do ano passado prometeu antecipar para o fim da década o fechamento das termelétricas a carvão.

O país também já desligou quase todas as suas usinas nucleares, uma decisão tomada depois do desastre de Fukushima, onze anos atrás.

O plano de transição prevê que em 2030 pelo menos metade da matriz elétrica do país seja renovável. A meta é atingir 80% em 2050 ­– um percentual parecido com o do Brasil hoje.

Isso dependeria de um estágio intermediário, usando gás natural russo que fluiria em parte pelo novo gasoduto Nord Stream 2.

Mas essa obra, uma interligação de 1.200 quilômetro entre Rússia e Alemanha que ficou pronta no fim do ano passado, não entrou em operação. Com o início da guerra, seu futuro é incerto.

Com reservas estimadas em pouco mais de dois meses, alemães e seus vizinhos europeus terão de importar gás liquefeito dos Estados Unidos e do Oriente Médio, caso a Rússia feche as torneiras.

Mas o GNL transportado por navios é apenas um bandaid, como aponta um relatório da empresa de pesquisas ClearView Energy Partners.

“É a única alternativa emergencial. Mas, mesmo que seja possível em teoria, substituir os gasodutos por GNL seria proibitivo [em termos de custo].”

Hidrogênio verde

Uma das novas fontes energéticas prioritárias para a Alemanha é o hidrogênio verde.

O país anunciou em dezembro passado um programa para garantir encomendas e assim viabilizar a instalação de plantas de produção pelo mundo.

O plano prevê investimentos de 900 milhões de euros, com contratos de fornecimento de dez anos. Projetos em países que têm energia renovável competitiva ­– entre eles o Brasil – devem disputar esse dinheiro.

“Esse é o grande desafio: quem vai assinar a compra para que a gente possa dar o start na produção?”, afirmou Duna Uribe, diretora comercial do Porto de Pecém, no Ceará, num evento sobre hidrogênio realizado esta semana.

O porto cearense, que tem o Porto de Roterdã como um de seus sócios, está em fase de estudos para instalar um hub de exportação de hidrogênio verde, produzido à base de água e energia limpa.

A produção desse novo vetor energético, porém, ainda está longe de ter escala. E ainda há questões importantes a resolver em relação à logística.

Do Saara para Londres

Myllyvirta calcula que a Europa precisaria de cerca de 370 GW em nova capacidade renovável para substituir toda energia importada na forma de gás da Rússia.

“Isso é menos que o mundo instala em dois anos, e menos do que a China pretende instalar até 2025. O mercado daria conta disso”, afirma o analista.

O problema é onde. Uma empresa britânica decidiu que, se o sol não vai à Inglaterra, a Inglaterra vai ao sol.

A Xlinks está montando uma das maiores usinas renováveis do mundo – no Marrocos. Com uma área total de 1.500 quilômetros quadrados, a planta de painéis solares e cataventos ficará numa área desértica do sul do país.

A eletricidade gerada pelos painéis fotovoltaicos será transmitida para a ilha por um por um par de cabos de 3.800 quilômetros, submersos no Atlântico Norte.

O projeto vai custar US$ 21,9 bilhões e vai incluir baterias para garantir uma entrega constante da eletricidade, suficiente para abastecer 7 milhões de domicílios.

Correndo contra o relógio

“Não acredito que a ameaça russa se sobreponha à ameaça da mudança climática e não vejo a abertura de novas minas de carvão na Europa”, disse ao New York Times James Nixey, diretor do centro de estudos londrino Chatham House.

Mas o debate está mudando, afirma ele. O plano de fazer uma transição gradual usando gás natural – alvo de enorme controvérsia na nova regra de categorização de ativos verdes da EU – pode estar em xeque.

O resultado prático pode ser o não-cumprimento da meta intermediária do bloco de reduzir suas emissões aos níveis prometidos no fim desta década, o que demandaria uma transição mais abrupta adiante para se chegar ao net zero em 2050.

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