ESG: Mais que a linha de chegada, é sobre a forma de caminhar

Na busca pela coerência e a consistência, é preciso reconhecer as inconsistências ao longo do caminho, escreve Anna de Souza Aranha

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A agenda ESG chegou ao mainstream econômico e a um público mais amplo, o que é ótimo — mas vejo  também o risco de o tema ser tratado de forma muito superficial.

Já assistimos de perto isso acontecer com alguns mercados e temáticas, como “aceleração”, “coaching” e até “sustentabilidade”. A apropriação de termos que estão em alta por aqueles que desejam apenas capturar oportunidades de mercado é comum e muitas vezes acaba os esvaziando.

Para aqueles que questionam se ESG é apenas uma moda, afirmo: não é — ou, pelo menos, não deveria ser.

Há anos vem acontecendo um movimento muito maior. Que repensa o modo como fazemos negócios, como nos relacionamos. Que questiona o papel das empresas como meras geradoras de retorno financeiro para os acionistas.

Que propõe um olhar mais humano e integrado à sociedade na sua forma de operar. Que rompe o mito de que para que alguém ganhe, outro deve perder. Que pensa o benefício individual a partir de um benefício coletivo gerado.

Aqui é onde acredito que existe uma grande oportunidade que estamos perdendo.

Não adianta atuar na agenda ESG sem mudar o antigo modo de operar. Querer aderir à onda com uma urgência curto-prazista, midiática, para ganhar rapidamente um selo é a velha forma de operar, que não funciona mais.

Me incomoda muito ver posicionamentos como “agora a empresa é ESG”. É ESG? 100% ESG?

Triste notícia para aqueles que querem logo dar ‘check’ no assunto: não é sobre uma linha de chegada, mas é sobre uma forma de caminhar. É um compromisso de longo prazo. À medida que se avança, mais se ganha lucidez sobre o que é necessário melhorar.

Em constante reflexão

O caminho em que acredito é o de começar com uma reflexão interna e compreender os compromissos que fazem sentido ser estabelecidos.

Por exemplo, se a empresa deve se comprometer com uma meta carbono zero antes de garantir condições humanas de trabalho na cadeia de valor, que é uma questão core do negócio. Se deseja mesmo avançar na temática de diversidade, de forma integrada à sua estratégia, ou está apenas aderindo a uma movimentação do seu setor.

A reflexão deve ser permanente, mas é importante que não se torne um entrave.

Os desafios são urgentes, e não agir não é mais uma opção.

Por trás desta nova forma de operar, está também a habilidade de tomar decisões sem ter todas as certezas de largada, baseando-se nas suas convicções e nos dados disponíveis. Se estamos indo na direção de algo que ainda não existe, dificilmente teremos todas as provas de que aquela  é a melhor estratégia.

Além disso está também a capacidade de reconhecer nossas vulnerabilidades e fragilidades. O erro é certo, bem como o aprendizado. Tudo bem se não tirar nota 10 na primeira ação. O que importa é tentar, ouvir, se abrir a aprender e a se repensar para que a próxima versão saia melhor do que a anterior.

Reconhecendo as inconsistências

Na busca pela coerência e a consistência, é preciso reconhecer as inconsistências ao longo do caminho. Dizer para onde se quer ir, mas reconhecer onde se está. Toda transformação relevante passa por lidar com incômodos e desconfortos.

Além disso, dificilmente uma única ação fará toda a lição de casa: é necessário compor uma estratégia e um portfólio de ações complementares, que sejam disseminados por todo o negócio e sua forma de operar.

É um grande risco para uma empresa dizer: “sou ESG”. Por que não comunicar que “faço” tais ações e políticas e estratégias ESG? Por que, em vez de usar adjetivos, não falamos dos fatos em si?

Essas máscaras que vestimos, como “minha empresa é do bem”, acabam nos aprisionando ao longo do tempo.

Somos organismos em constante evolução e, assim, naturalmente, não coerentes 100% do tempo. Trata-se de um exercício diário e constante. Ser humano nas suas relações é um eterno exercício. Quanto mais se evolui, mais sua própria régua sobe e mais lição de casa existe para ser feita.

Acolhendo a transição

Assim, da mesma forma que acredito em reconhecer as vulnerabilidades e admitir onde se precisa avançar, prefiro o caminho de acolher a transição, estar junto daqueles que desejam mudar, sujando a mão no barro junto, do que estar na plateia acusando e julgando.

Isso significa “passar pano”? Com certeza, não.

Afirmações devem ser embasadas e comprovadas, compromissos devem ser honrados. Mas se não acolhermos o erro e o aprendizado constante, ficaremos congelados e sem agir. Ficaremos rendidos a vermos apenas o que é bonito de ser mostrado.

O que é novo não tem um manual exato, apesar de existirem boas práticas. Ninguém tem exatamente a resposta certa de como fazer.

Mas, certamente, se avançarmos juntos, errarmos compartilhando os aprendizados, poderemos ter uma realidade muito melhor para todos no futuro.

* Anna de Souza Aranha é diretora do Quintessa e passa a assinar uma coluna mensal no Reset. Desde 2009, a Quintessa impulsiona startups que resolvem desafios socioambientais e realiza iniciativas que promovem as agendas de inovação, impacto positivo e ESG para grandes empresas, investidores, institutos e fundações. Formada pela FGV, cursou a Stanford Ignite (Stanford University Graduate School of Business), com foco em empreendedorismo e inovação, e a Singularity University.

(Crédito da imagem: Anika Huizinga/Unsplash)

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