ENTREVISTA: Como a Suzano se prepara para tirar lugar de plásticos e tecidos

O CEO Walter Schalka fala sobre as oportunidades em novos mercados, como o de créditos de carbono, e a mudança cultural pessoal e na empresa para incorporar as questões ESG

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Em meio à corrida global das empresas para colar o adesivo ESG à sua imagem, a fabricante de celulose Suzano tem sido apontada como um dos destaques brasileiros e, invariavelmente, aparece na seleção das chamadas ‘best in class’ de analistas e investidores que adotam esse filtro.

Uma das razões é que as florestas plantadas de eucalipto, a base do seu negócio, emergiram como parte da solução para a crise climática.

Mas a  captura de gás carbônico pelas árvores é apenas o lado mais óbvio dessa contribuição e, dentro da Suzano, há uma revolução tecnológica para explorar várias outras possibilidades, da substituição dos plásticos descartáveis à criação de tecidos sustentáveis.

Por trás dessa transformação, há outra em curso, de ordem cultural.  

“Nosso papel no mundo excede a nossa cerca. Não está no limite dos ganhos de produtividade e eficiência que somos treinados a obter”, diz Walter Schalka, o CEO da Suzano e um dos mais vocais nas questões ambientais e sociais

Em entrevista ao Reset, ele fala da decisão estratégica tomada após a fusão com a Fibria de colocar o ambiental e o social no centro do negócio, da transformação cultural que precisa acontecer na empresa e sobre como teve que se educar para isso.

Falou ainda sobre o potencial de geração de crédito de carbono das florestas plantadas da companhia, suas altas expectativas para a criação de um mercado global de CO2 na COP 26 que se aproxima e de como o Brasil está se preparando.

A Suzano diz que colocou o ESG no centro dos negócios. O que isso significa na prática?

O setor [de celulose e papel] é altamente contributivo, e a Suzano é parte, para solucionar alguns dos problemas estruturais que temos na sociedade. No ambiental, temos que resolver a questão do carbono. Dizer que vai ser zero em carbono em 2050, como muita gente fala, é procrastinação, postergação de responsabilidade. Temos uma responsabilidade geracional, estamos nos aproximando do ponto sem retorno. Precisamos de ação já.

E a Suzano está muito preparada para aumentar o volume de sequestro e reduzir a emissão, simultaneamente. Com isso, o sequestro líquido vai aumentar bastante, permitindo à companhia ser parte da solução na parte que chamo de ‘carbono 1’. E tem a parte de ‘carbono 2’, que é ter materiais que substituam produtos fósseis, na área têxtil e de embalagens plásticas de uso único, por exemplo. O ambiental está muito bem desenhado.

E estamos trabalhando com um nível de maturidade ainda mais baixo na solução social, que é a segunda responsabilidade geracional que temos. Esse modelo de capitalismo de concentração de renda não está funcionando. Não estamos conseguindo entregar para as pessoas as questões fundamentais de educação, saúde, sanitária e de qualidade de alimentação. Estamos trabalhando para desenvolver ações práticas para endereçar as questões sociais, que são muito fortes no mundo e agravadas no Brasil.

Sempre que surgem questões do ‘S’ do ESG vem a discussão subjacente de até onde vai a responsabilidade das empresas versus a do Estado. Qual sua visão?

Essa é uma discussão muito relevante. Fazer filantropia é uma coisa maravilhosa, mas não resolve. A filantropia não endereça o problema estrutural. São vários band-aids num navio com um rombo monstruoso. É função, sim, do meio empresarial, porque nós fomos treinados para isso, trazer alternativas e soluções estruturantes para a sociedade. E é papel público implementar soluções para fazer com que sejam amplas e atendam a toda a sociedade.

E o que a Suzano tem feito na dimensão social?

Temos feito um trabalho nas comunidades locais [onde a empresa atua]. Colocamos uma meta de tirar 200 mil pessoas da pobreza, com renda sustentável. E, para a próxima geração, a ideia é educar cerca de 100 mil crianças, com evolução expressiva da qualidade de ensino. Nós imaginamos que podemos fazer isso até 2030. Além, também, de diversidade e inclusão, que é estrutural na sociedade brasileira. Estamos atacando nas quatro frentes, de pretos e pardos, liderança feminina e colocando metas de inclusão de LGBTQIA+ e PCD. 

E como aconteceu a decisão de tornar ESG algo estratégico?

Depois que fizemos a fusão Suzano e Fibria, começamos a discutir duas questões importantes. Uma era a estratégica, na qual criamos cinco avenidas de crescimento para o futuro, e a outra era como vamos impactar a sociedade com esse plano. Criar e compartilhar valor com todos os stakeholders é um dos três pilares da cultura pós-fusão.

Como a gente cria valor, para ter o que compartilhar, e, se cria valor, tem que atender a acionistas, credores, fornecedores, clientes, comunidade, colaboradores, a sociedade de uma forma geral. A gente precisa deixar todo mundo um pouquinho infeliz. Porque não tem criação de valor suficiente para deixar todos super felizes. Todo mundo quer mais e isso é genuíno. Temos que, gradativamente, ir melhorando as condições para todos. Essa é a arte de gerir.

Outro pilar da nossa cultura é que só é bom para nós se for bom para o mundo. E tem que haver uma introjeção cultural — e aí vem uma mudança importante, porque isso não acontecia de forma adequada na Suzano — da ideia de que nosso papel no mundo excede a nossa cerca. Não está no limite dos ganhos de produtividade e eficiência que somos treinados a obter. Então, após a fusão, isso ficou cada vez mais relevante para nós e é isso que estamos comunicando melhor a partir de agora.

Existe um manual de como incorporar o ESG à estratégia?

São duas coisas: liderança com comunicação. Comunicação, comunicação e comunicação e quando achar que está pouco, faz mais comunicação. Parte do pressuposto que tenhamos pessoas na organização que estejam motivadas e engajadas. Se não tivermos isso, não vamos sair do lugar. As pessoas precisam entender que não estão lá apenas para trabalhar, estão para impactar positivamente a sociedade. Hoje atendemos 2 bilhões de pessoas no mundo, é muita gente. E temos meta de ESG para 100% das pessoas. Coisas que não se medem, não evoluem. 

Você é um CEO bastante vocal nas questões ambientais e sociais. Você se deparou com dificuldades para incorporá-las?

É uma questão educacional, de letramento. Eu fui pessoalmente treinado a buscar ganho de produtividade e eficiência. Então, a gente precisa mudar o mindset. Começou a cair muito a ficha para mim que algumas questões são impostergáveis na sociedade e que nós tínhamos, a empresa e eu, na posição em que estou hoje, a responsabilidade de começar a trabalhar nesses temas.

Quando comecei a escutar falar na questão racial dez anos atrás, a primeira reação que tive foi dizer que no Brasil não tem racismo. E aí você vai vendo que tem, sim. É um racismo diferente do instalado em outros países, mas que está entrincheirado na sociedade brasileira.

Sete anos atrás fui convidado a fazer uma palestra num programa de liderança feminina e, antes de ir, fui perguntar para mulheres da empresa e para minhas duas filhas, que são executivas, como elas viam isso, quais as limitações. Era um tema que não estava nas minhas prioridades. Mas quando você se depara com o que escuta, percebe que tem um problema que precisa ser resolvido. Comecei a aprender sobre essa pauta e adotar formas de começar a agir.

E isso se repete em todos os temas. Aprender e entender como posso ser um protagonista da transformação da sociedade. E é isso que levo para dentro da empresa. 

No ‘ESG Day’ da empresa, foi falado que a Suzano tem 22 milhões de toneladas de CO2 que potencialmente podem ser vendidos como crédito.

São 22 milhões de toneladas de CO2 que já foram sequestrados e estão em processo de certificação.

Algumas pessoas fizeram um cálculo considerando o preço de US$ 10 por tonelada, resultando em receita de R$ 1,1 bilhão…

Não fazemos projeção de valores, de receita futura. Falamos da quantidade de carbono e depois vamos ver como buscar a monetização. Mas é importante dizer que, no ano passado, tivemos um sequestro de 15 milhões de toneladas, mas nem todas elas são consideradas adicionalidades e, portanto, não é possível fazer acreditação para vender créditos a partir de tudo isso.

São coisas distintas: uma coisa é o nosso impacto no meio ambiente e tivemos, sim, esse impacto de 15 milhões de toneladas em 2020. Mas apenas uma pequena parte poderá ser monetizável ao longo do tempo. E as 22 milhões de toneladas é o que temos de adicionalidade já em estoque.

Mas, quando se olha para o tamanho da receita anual da Suzano, não parece ser algo que mudará completamente a equação.

Temos que comparar o resultado da venda de CO2 com Ebitda e não com receita. O carbono vai ser relevante no Ebitda da Suzano? Quando você fazia uma fábrica de celulose 30 anos atrás, qual era sua receita? De onde vinha seu Ebitda? Vinha 100% da celulose do papel. Hoje — e o número é esse mesmo — R$ 35 por tonelada vêm da energia que estamos vendendo no mercado. Isso é parte do Ebitda.

Qual o custo dessa energia para a Suzano hoje? Zero. Então, 100% da receita é Ebitda. A mesma coisa vai acontecer com o carbono: 100% da receita vai ser Ebitda, porque o custo já está lá. Então, vai ter um crescimento no total do Ebitda da empresa. Vai ser 50% da empresa? Não. Mas vai ter contribuição, da mesma forma que a energia tem hoje.

A Suzano tem se tornado um exemplo claro de que a agenda ambiental traz oportunidades de desenvolver novas áreas de negócios. Qual será a Suzano que vai existir daqui a dez anos? Não vai ser apenas uma produtora de celulose, certo? 

Nossa percepção é que a base do futuro da empresa é a árvore plantada. Daí vai sair nosso negócio do futuro. Mas da árvore antigamente a gente tirava a celulose para o papel. Depois a gente passou a tirar celulose e energia. Agora vamos tirar esses dois e mais o CO2. Mas tem mais coisas e mais mercados para atingir.

E acho que está ficando cada vez mais claro para o mundo que o eucalipto vai ter papel fundamental nesse processo. Se você olha dez anos para a frente, a fibra curta do eucalipto vai ganhar mercado sobre outras fibras. E aí estou falando de fibra reciclável e fibra longa. Vamos ganhar mercado desse mundo, que tem mais impacto ambiental que o nosso, que não tem a competitividade de custos que a nossa fibra tem. E estamos trabalhando na parte de qualificação da evolução da nossa fibra, para poder repor outras fibras.

Além disso, vamos tirar mercado de outros materiais, eminentemente dos fósseis. Porque o carbono cada vez mais vai penalizar esses materiais. E onde acho que são as principais áreas que a gente vai tirar? Primeiro vamos começar tirando de single use plastics e disposable products, os descartáveis.

Não tem lógica a sociedade usar um copo de plástico descartável por 30 segundos e jogar fora. Quanto custou isso para a sociedade? O plástico tem um papel muito relevante e vai continuar tendo. Mas não é no single use.

E aí vamos crescer em outras utilizações da árvore. Um mercado que eu, pessoalmente, gosto muito, é o têxtil. O algodão tem um impacto ambiental enorme e a outra parte da equação hoje é material fóssil, com o poliéster e a poliamida. Então, vai ter espaço grande para wood based fiber no futuro. E depois tem outras aplicações como bio-óleo. 

E quais dessas possibilidades são mais promissoras?

Vamos criando novas avenidas para o futuro, mas quais delas vão estar com maturidade comercial e tecnológica mais rápido é difícil dizer. É preciso estar em muitos lugares para entender em quais vamos colocando mais recursos. Mas a Suzano daqui a dez ou 15 anos vai ser outra empresa.

Sobre a COP 26, parece que finalmente vamos ter os mercados de carbono sendo discutidos a fundo. Qual a sua expectativa?

Tenho alta expectativa, porque é transformacional para o mundo. Temos dois sistemas de carbono possíveis e eu só acredito em um. Um é o carbon tax, em que não acredito, porque só vai aumentar a receita dos governos e não vai mudar a postura das empresas e dos consumidores. E o outro é um cap and trade system, onde vamos limitar as emissões de cada uma das empresas e cada um dos países, num mercado regulado de carbono, e cobrar em cima daqueles que excedam a regulação. E cobrar caro.

O carbono vai subir de preço no médio e longo prazos e permitir que haja investimentos na descarbonização. Quando você chega para uma empresa que está emitindo 100 e diz que só vai poder emitir 80, ela vai ter que investir e é problema dela o que vai investir, mas ela já vai pensar o seguinte: talvez eu consiga investir pra chegar em 75 ou 72 e vender esses cinco ou esse oito de CO2 no mercado. Isso vai levar a um mega investimento global na descarbonização.

Por isso é tão importante sair da COP com o mercado regulado de carbono com o maior número de países aderindo ao modelo. Na hora em que fizermos isso, os investimentos na descarbonização global serão violentos. Se as empresas não fizerem, o preço vai para o espaço.

E você acha que tem boas chances de sair o acordo?

Estou conversando com vários líderes globais que estão envolvidos na COP e eles dizem que nós estamos num bom caminho para isso.

E como o Brasil vai chegar para essa COP?

O Brasil tem uma grande oportunidade de usar a COP como instrumento de alteração da percepção global sobre o país e nossas posturas. Se o Brasil defender a redução do desmatamento ilegal da amazônia, ou a eliminação, e o mercado regulado de carbono, vai recuperar a credibilidade nesse mundo ambiental, sendo uma potência ambiental. É uma janela de oportunidade única que não podemos perder.

Mas você vê esse movimento no governo?

Está havendo evolução dentro do governo, sim. Espero que nos próximos 60 dias possamos atingir esse nível de maturidade para fazer o compromisso lá. Mas a minha percepção é que está ganhando relevância esse tema dentro do governo e está ganhando clareza da importância de o Brasil se posicionar adequadamente.

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