ENTREVISTA: Como a Dynamo está de olho nas oportunidades (e riscos) ambientais da bolsa

Em rara entrevista, gestora fala ao Reset sobre oportunidades em Suzano e Cosan e como lida com os riscos de transição em papéis como Vale, Eneva e Gerdau

 
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Uma das gestoras de ações mais respeitadas — e de melhor desempenho — do país, a Dynamo estava ‘distraída’ das questões ambientais até bem pouco tempo atrás, nas palavras do sócio Fernando Pires. 

Esse panorama começou a mudar no estouro da pandemia, quando os sócios passaram a refletir mais a fundo sobre a necessidade de incorporar a análise ESG a seu repertório. Numa rara entrevista, Pires contou ao Reset como tem sido o processo.

Se o ‘G’ de governança está no próprio DNA da Dynamo, que nasceu numa época em que a bolsa brasileira ainda era um faroeste, o ‘S’ na visão (um tanto controversa) do gestor já estaria mais contemplado no dia-a-dia das empresas. A maior novidade, diz ele, foi o ambiental.

“Na nossa experiência, os bons retornos, as boas oportunidades de investimento, vêm justamente nesses momentos em que as empresas são chacoalhadas por grandes transformações”, afirma. 

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Mas não espere ver uma estratégia ‘Dynamo ESG’ na prateleira. “Queremos ficar livres desse rótulo. Enxergamos essa integração como algo orgânico e estamos incorporando essas questões ao ferramental de análise.”

Mais do que uma estratégia de desinvestimento, um caso recente no mercado americano inspira o tipo de ativismo ambiental que a Dynamo enxerga como ideal: aquele mais gradual e de engajamento para direcionar os modelos de negócios. 

“Na assembleia da Exxon, os acionistas, liderados pelo fundo Engine nº1, não foram na linha de exigir que a empresa vire uma geradora de energia renovável de uma hora para a outra, mas disseram que ela precisa ter um plano”, diz Pires. “Ou seja, os próprios acionistas mais esclarecidos e atuantes vão empurrar as companhias para onde elas têm que ir. É o que a gente está tentando fazer.”

Nesse sentido, o fundo carrega tanto posições que têm oportunidades ambientais claras a serem capturadas, como Suzano e Cosan, quanto em setores mais controversos para a turma  ‘raiz’, como a Eneva, de gás natural, a Vale e a siderúrgica Gerdau.  

“Todo dia temos a chance de vender a posição no mercado. Então, ao manter, todo dia estamos reafirmando que estamos vendo algum tipo de evolução acontecer. Estamos olhando o filme das empresas.” 

A seguir, os principais trechos da conversa sobre a tese nesses papéis: 

Eneva

A Eneva está fazendo a transição [energética] mas tem o footprint do carvão. Como investidor de portfólio, é muito mais fácil vender a ação, não ter carvão e pronto. Mas a gente acha que não é por aí. Se você simplesmente vender seu ativo, do ponto de vista agregado, ambiental, se aquela planta continua lá, as emissões continuam da mesma forma. Então, talvez seja melhor você tentar melhorar a companhia, levar para o caminho de emitir menos.

De fato, eles estão avançando. Teve declarações do CEO Pedro Zinner muito enfáticas, dizendo que não iriam aumentar o footprint de carvão e que iriam manter as térmicas a carvão enquanto fossem importantes para o sistema. Eles reconhecem que têm que caminhar para uma economia livre de carbono, mas ao mesmo tempo têm o papel de prover energia acessível e confiável para o sistema. 

A confusão desse governo atrapalha muito. Estamos discutindo racionamento novamente. Se o Brasil já estivesse organizado do ponto de vista energético, talvez essas térmicas [a carvão] já tivessem caducado naturalmente. Ao mesmo tempo, são municípios pobres [em que a empresa está], com sensível aumento de renda com as operações. É preciso equilibrar essas coisas e essa é a forma como estamos interagindo lá. 

A empresa está cada vez mais sensível ao assunto. Um exemplo: a usina térmica a carvão de Pecém 2 da Eneva é vizinha siamesa de Pecém 1, que pertence à EDP. Do ponto de  vista econômico-financeiro faria todo sentido comprar a planta dos portugueses. Então, não avançar em carvão parece que não é nada, mas já foi uma decisão difícil, em que não se olhou só o retorno financeiro. 

Gerdau

O aço continua sendo um material importante, que está em todo lugar, e a Gerdau tem um footprint mais verde que outras siderúrgicas, por causa do uso de sucata, das mini mills, além do uso de carvão vegetal e processos de reinjeção de gás. Então, a intensidade de carbono deles por tonelada de aço é metade da indústria no mundo.

Mas eles estão muito conectados lá fora e estão vendo que não podem ficar parados. Porque quem está atrasado hoje no mundo, a turma da ArcelorMittal, a maior do mundo, que tem footprint de quem usa alto-forno, está se mexendo e querendo caminhar para o hidrogênio verde. A Gerdau tem uma ótima oportunidade, mas não pode ficar parada ou vai para o final da fila. Então, eles podem aumentar ainda mais o uso de carvão vegetal, por exemplo. 

Esse processo está muito interessante. Gosto de comparar com a época da qualidade total. Todo mundo achava que implantar qualidade total ia aumentar custos. Mas depois viram a economia extraordinária e o controle de qualidade. Com o ambiental está acontecendo isso. As empresas estão descobrindo  processos, reaproveitamento, reuso de resíduos. Parece pouca coisa no começo, mas tem muita coisa que estava mais descuidada e que dá para melhorar em processos industriais. Como a reinjeção de gases e o aproveitamento de resíduos.

Vale

Com os dois acidentes [Mariana e Brumadinho], muitos fundos externos resolveram sair da Vale. E a gente viu que, até por conta do que aconteceu, que a empresa estava redobrando as linhas de defesa. 

A companhia é melhor do que estava sendo precificada. O gap de preço para os australianos estava muito grande, então voltamos [a investir] mais forte, numa aposta de que a atual administração não pode se dar ao luxo de ter outro problema. Vimos uma equação bem séria de gestão de risco e de ESG. 

A agenda está muito séria. Estão colocando KPIs de ESG na remuneração de longo prazo e de curto prazo dos executivos. Estão colocando uma precificação de carbono que não vimos em nenhuma outra companhia, de US$ 50 por tonelada. Nessa jornada, nesse processo, se a gente olhar o filme, vemos evoluções e muita seriedade.

Suzano e Cosan

O campo é a nossa vergonha e acho que já é e vai ser nosso orgulho. A nossa saída vai ser pelo campo. Estamos muito impressionados com o que está acontecendo do lado certo da equação, que é o setor de florestas plantadas, no caso da Suzano, e na parte de biomassa, da turma da cana, que é a Cosan.

Os dois têm alguns paralelos interessantes. Foram dois setores em que o crescimento e o avanço tem sido muito grande nos últimos anos e em cima de muita ciência, conhecimento e pesquisa. 

A produtividade das florestas de eucalipto cresceu muito e se analisar essas áreas ao longo desse tempo, vai ver que o clima atrapalhou. O que ajudou foi a ciência, foram espécies adaptadas a depender de menos água.

E agora está aparecendo toda essa coisa da nanocelulose e da biorrefinaria na árvore [produção de energia a partir da biomassa florestal], que pode ser um divisor de águas. São muitas linhas. 

A Suzano tem 96 cientistas, fora as universidades com as quais tem parceria. Isso vai se acelerar, por causa de toda a questão de substituição do plástico, é um mercado com grandes oportunidades. 

E, na Cosan, é parecida a história da cana. Há muita pesquisa e o Brasil é reconhecido como o maior polo produtor de estudos, está na vanguarda dos biocombustíveis e da biomassa e vai ser protagonista dessa história.

O roadmap da International Energy Association confere à biomassa um papel fundamental na transição energética para o baixo carbono. Hoje, no mundo, 50% da energia renovável é de biomassa e 50% é o restante das fontes limpas.

E temos no Brasil essa enorme oportunidade de 90 milhões de hectares de área com pecuária extensiva, de áreas degradadas, para entrar e fazer a festa — isso é uma Alemanha e mais uma França. Não precisamos derrubar nenhuma floresta para isso.

Na cana de açúcar, nos últimos 40 anos a área plantada aumentou quatro vezes e a produtividade do etanol, 30 vezes. Estamos muito na vanguarda e as oportunidades estão dentro de casa.  A Cosan tem etanol de segunda geração, cogeração, biogás, que é extraordinário, temos condições de ter solução para combustíveis de aviação e são coisas que estão aqui.

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