Entre crítica e exaltação, impacto chega a ‘Billions’

Quinta temporada reflete oportunidades e contradições do 'novo capitalismo'

(Alerta: o texto contém spoilers da quinta temporada)

Se restava alguma dúvida de que os investimentos de impacto tinham saído do nicho para o mainstream, não há mais. Até Billions se rendeu. 

A quinta temporada do seriado da Showtime, que virou mania no mercado financeiro, tem como pano de fundo discussões sobre o futuro do capitalismo, transição energética, ESG e negócios de impacto — numa narrativa que tenta contrapor o que é espuma retórica e o que é efetivamente tendência no mundo dos investimentos.  

No centro da história, está um embate entre Bobby Axelrod, o gestor sangue no olho cuja ética é inversamente proporcional à sua fortuna, e Mike Prince, um investidor igualmente multibilionário, mas que se tornou entusiasta dos investimentos que equilibram lucro com impacto social e ambiental positivo.

Ou, ao menos, é o que ele diz. 

Com cinco episódios no ar, Prince parece ser o estereótipo do discurso fácil de que o capitalismo precisa se reinventar, mas com pouca substância. 

Uma voz cândida na defesa dos bons princípios, mas que não hesita em entrar com unhas e dentes nas disputas de poder: um tipo em abundância num momento em que parecer bom virou imperativo para os negócios.  

Billions é uma caricatura de Wall Street, e seu brilhantismo está exatamente no fato de que os exageros guardam uma semelhança risível com a vida real. 

Cheio de falsa modéstia, Prince tem sua própria conferência, chamada “The Mike”, na qual ele chega heroicamente pousando o próprio avião na frente dos convidados. 

No ponto alto da conferência, Prince e Axe debatem num ‘fireside chat’: “É hora de um novo capitalismo?”. 

A cena já nasce antológica: um duelo sobre o papel da sorte no sucesso, privilégios e meritocracia, e sobre até que ponto o ‘novo capitalismo’, nos moldes defendidos por Prince, não é apenas uma forma de expiar a culpa pela fortuna construída na égide do sistema que agora se combate. 

É de Axe o golpe final: 

“Eu não finjo que sou um cara comum que deu sorte. Eu sou um monstro, um monstro carnívoro. Para mim, ou tinha sucesso ou caía no esquecimento. Assim como para você, quer admita ou não. É isso que tudo isso significa para você. Um modo de esquecer o monstro que é. Você tem que ser um monstro, ou não teria chegado onde chegou”. 

Ao que Prince responde com um patético: “Posso ser um monstro, mas um monstro fofinho, estilo Monstros S.A.” — e parte para o convite para que todos presentes doem para as vítimas de um terremoto em Honduras (aparentemente, ninguém contou a ele a diferença entre filantropia e impacto).

Do quant ao carbono 

Ao expor as contradições de Prince, a narrativa seria apenas mais uma celebração do modo predatório de fazer negócios que consagrou Wall Street, se não houvesse uma outra trama que se contrapõe para mostrar como esse velho mundo está mudando de forma mais sutil e consistente. 

Enquanto Axe e Prince estão presos em suas disputas comerciais e retóricas, um fundo de impacto começa a nascer dentro da própria Axe Capital pelas mãos de Taylor Mason. 

Um dos destaques de Billions desde a terceira temporada, Taylor é a síntese magistral de tudo que desafia os gestores old-school.  

Não-binária, pede para ser identificada pelos pronomes “they, their e them”, de forma a evitar as flexões de gênero — numa neutralidade que contrasta com a masculinidade tóxica que marca boa parte dos conflitos e decisões que pautam a série (e a vida real). Millenial e nerd, é também a síntese da transição geracional. 

Agora, ela parte do mundo dos algoritmos e das estratégias quantitativas que consagrou sua ascensão na Axe Capital para investimentos em energia limpa. Não só porque é a coisa certa a se fazer, mas porque é uma oportunidade ímpar de ganhar dinheiro. 

Tudo começa com um endowment que quer desinvestir de combustíveis fósseis. Taylor vê a oportunidade para que sua gestora, que fica dentro da Axe Capital, assuma a gestão desses fundos contribuindo para que eles ganhem dinheiro na transição. 

Bobby decide bancar o esperto e, sem o conhecimento de Taylor, aproveita para comprar posições em duas petrolíferas das quais o endowment se desfez no processo. 

A pretensa jogada de mestre se mostra um tiro pela culatra. 

Taylor mostra que estava em conversas para gerir US$ 9 bilhões em endowments de universidades com a mesma estratégia de transição de portfólio — e o oportunismo de Axe fecharia essas portas. 

O oportunismo de Axe troca de lado e o gestor dá carta branca para que Taylor parta para o ativismo, usando a posição acionária da Axe Capital como uma forma de cobrar das petrolíferas um caminho para a transição energética. Nada de bom-mocismo, mas uma forma de trazer mais dinheiro para dentro.

A cena em que Taylor e Wendy Rhoades — a coach de desempenho da Axe Capital, que basicamente convence qualquer um de qualquer coisa — vão conversar com o CEO de uma das petroleiras é outra memorável. 

Numa conversa passivo-agressiva e cheia de sarcasmo, elas convencem o CEO brucutu de que trabalhar pela transição energética é uma boa ideia. Em vez de colocar a questão como um custo, Wendy a empacota como oportunidade: dado que o petróleo vai cair em desuso cedo ou tarde, ao se colocar como pioneiro na discussão, o executivo teria acesso a todos os negócios de impacto primeiro.

“Você pode parecer um fracassado de 1830 ou um herói para 2020 e além. Para os ambientalistas, é claro, mas ainda mais para o nosso setor e para Wall Street, porque você estará ganhando muito mais dinheiro”, diz Wendy. “É uma jogada ambiciosa, mas que parece altruísta. É o Santo Graal.”

Com o sucesso na empreitada, Taylor e Wendy se unem para montar um fundo de impacto dentro da própria Axe Capital. O nome: Taylor Mason Carbon. 

“Podemos ser maiores que a própria Axe”, vaticina Taylor. 

Talvez um dia. Mas não sem antes se resolver uma série de conflitos — que, ao que indica, vão abastecer a série daqui para a frente. 

As aspirações de Taylor e Wendy são completamente legítimas? Na conversa com a petrolífera, o CEO chega a perguntar se a intenção é ‘greenwash’ a empresa, ao que elas respondem com um sonoro sim. Fica no ar se trata-se apenas de uma questão de falar a língua da velha economia ou se há uma segunda intenção. (Tendo a acreditar na primeira opção)

Até que ponto Bobby vai dançar conforme a música e até que ponto suas práticas nada ortodoxas vão entrar no meio do caminho?

O conflito entre o velho e o novo — com todos diálogos afiados de costume — deve continuar a dar o tom desta temporada.

(Como tudo no mundo pós-coronavírus, o desenrolar vai demorar mais que o normal.  Por conta da pandemia, as gravações foram interrompidas. Os primeiros sete episódios estão prontos e vão ao ar toda segunda-feira tanto no Showtime quanto na Netflix .  Os cinco restantes só quando a covid deixar.)