Eneva descarta novos investimentos em carvão, mas pode dar sobrevida a usinas existentes, diz CEO

Pedro Zinner diz que, se houver demanda pela energia das térmicas ao fim dos contratos, prefere ver o ativo na mão da empresa do que de um investidor com mentalidade puramente de retorno

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De encrenca do grupo X ao caso de recuperação judicial mais bem sucedido do país, a Eneva virou figurinha carimbada no portfólio de investidores domésticos mais fundamentalistas.

Em menos de quatro anos, a companhia equacionou sua situação financeira, superou os temores que remontavam aos tempos de Eike Batista de que não teria gás natural suficiente para atender os contratos de suas térmicas e se tornou uma tese de crescimento.

Em resposta, suas ações mais que quintuplicaram desde o fim do processo de recuperação.

Dynamo, Atmos e Velt, três respeitadas gestoras de value investing, têm um acordo de acionistas amarrando 16% da sua participação na companhia, que tem o BTG e a Cambuhy, dos Moreira Salles, como maiores acionistas, com 23% cada.   

Principal produtora de gás em terra no Brasil e única a gerar energia térmica com usinas na poca do poço, quando a questão são os princípios ESG, uma análise dualista da Eneva pode colocá-la como vilã ou como mocinha — numa das mostras mais evidentes de que a questão ESG vai bem além do mero ‘ser’ ou ‘não ser’.

Por um lado, a Eneva tem um papel relevante na transição energética, já que o gás natural tende a substituir a energia térmica gerada por óleo de combustível e diesel, de forma a garantir a estabilidade de um sistema cada com cada vez mais participação de energia solar e eólica.

Com ativos antes concentrados no Maranhão, hoje a companhia tem uma avenida de crescimento na região Norte, onde estão os chamados sistemas isolados, abastecidos por óleo e diesel, que além de poluentes, são muito mais caros.

Vencedora de um leilão em 2017, a companhia vai abastecer parte de Roraima com energia gerada a gás, financiada em parte com uma emissão de debêntures que levou rótulo de ‘título de transição’ — uma evidência de como a companhia mais recentemente está tentando se posicionar no lado verde da força.

Na mesma linha, mas em escala muito maior, um dos principais fatores que continuam a puxar as ações é a possibilidade de a Eneva levar o Polo de Urucu, também na Região Norte, com alto potencial de gás e pouco explorado pela Petrobras, que colocou o ativo à venda.

Por outro lado, o gás natural, ainda que menos poluente, continua sendo um combustível fóssil, um ‘no go’ para investidores ESG que trabalham com lista de exclusão.

Mas o grande calcanhar de Aquiles da companhia são as usinas a carvão de Pecém e Itaqui, no Ceará e no Maranhão, que têm contratos para operar até 2026 e 2027, respectivamente. 

Hoje, 25% da receita da companhia vêm do carvão, um dos combustíveis mais poluentes, e que coloca a Eneva na lista de exclusão de grandes gestores de recursos europeus, como o fundo soberano da Noruega.

No seu primeiro relatório de sustentabilidade, divulgado há algumas semanas, a Eneva pactuou o que já vinha sinalizando aos investidores e se comprometeu a não aplicar mais capital em novos ativos a carvão.

Com uma letra miúda importante: não descarta estender os contratos das usinas hoje em operação caso haja demanda por parte do governo para abastecer o sistema. 

Numa conversa de uma hora com o Reset, o CEO Pedro Zinner falou sobre essa questão, a tentativa de compra da AES Tietê e de ingresso no segmento de energia renováveis, a expectativa sobre o papel do gás na matriz energética, precificação de carbono e metas de descarbonização.

A seguir, os principais trechos da entrevista: 

A Eneva se comprometeu a não investir em novos ativos a carvão. Mas tem duas térmicas abastecidas pelo insumo, cujos contratos vencem em 2026 e 2027. Qual o plano de vocês para esses ativos? 

Nós não vamos fazer novos investimentos em térmicas a carvão, acho que essa é a maior mensagem. Grande parte do nosso papel é ser um viabilizador da transição energética, fazendo a substituição do que existe hoje de óleo combustível, diesel e carvão para o gás natural. 

Mas uma coisa que a gente faz e faz bem é cuidar dos ativos e garantir a confiabilidade do sistema, ou seja, que não vai faltar energia. No carvão, a principal preocupação que tivemos desde o início foi fazer um investimento grande em manutenção das usinas. Parte desse investimento não tinha sido feita no processo de recuperação judicial. Garantir a confiabilidade vem sendo o papel do carvão ao longo do tempo, desde lá atrás, quando essas usinas foram montadas. 

Esses ativos já estiveram à venda? 

Nunca tivemos um processo de venda formal. O grande desafio é que os eventuais compradores desse tipo de ativo vão demandar uma taxa de desconto muito alta, seja pela potencial baixa financiabilidade dos ativos hoje, pela incerteza em relação à renovação dos PPAs [Purchase Power Agreement, os contratos de longo prazo de compra de energia], ou o que fazer com esses ativos após o fim dos PPAs. 

E, no fundo, qualquer um com a mentalidade puramente de retorno que faça a gestão desses ativos vai gerar uma externalidade negativa muito maior do que se nós gerirmos.  Temos a competência e a vontade de fazer a coisa certa. Se o sistema demandar que esses ativos continuem na base após o fim do PPA, temos que exercer um dever de garantir a efetividade do sistema. 

Então vocês não descartam estender o contrato ou participar de outros leilões de carvão com essas mesmas usinas?

No último leilão que teve de capacidade, as térmicas a carvão puderam participar. Tinha que ser carvão nacional, do Sul, não podia ser importado, mas podiam. Isso mostra um pouco a necessidade de ter térmicas dentro do sistema. E tem a questão do custo. O custo de produção das térmicas que temos são baixos e pela região onde elas estão podem compensar a intermitência dos sistemas gerados pelas renováveis. 

Então você acham que o carvão ainda vai ter um papel a desempenhar nos próximos anos para garantir a confiabilidade do sistema? Esse papel não tende a ser exercido pelo gás natural? 

O cenário-base é esse. Estamos fazendo a estratégia para fazer a substituição desses combustíveis pelo gás. Temos um modelo de negócio um pouco diferente dos outros players, que é trazer gás onshore e não do pré-sal ou importando LNG [gás natural liquefeito]. Cada vez mais temos sucesso nas campanhas exploratórias, o que vai começar a gerar um excedente de gás ao longo do tempo, que vai permitir não só honrar os contratos de hoje como buscar expandir. 

E o que acontece com esses ativos de carvão se não tiver extensão do PPA? Esses ativos são baixados do balanço? Há um custo de desativação?

A questão do impairment [baixa contábil] é muito pequeno porque a vida útil do ativo é considerada dentro do PPA. Mas tem um custo de abandono ao fim desse PPA, sim. A questão aqui é menos contábil e mais de atender uma potencial demanda que pode haver no sistema. Se não houver demanda, faremos o shutdown do ativo e vamos partir para outra. Sempre fora do carvão.  Mas, assumindo que há uma demanda do sistema, preferia o ativo na mão de alguém que é socialmente responsável do que passar para algum oportunista, um vulture fund. A decisão é de não alocar capital novo em investimentos em carvão. 

Se vocês estenderem esses contratos não pode haver uma reação dos investidores mais preocupados com as questões ESG? 

Se a gente não crescer no gás, sim. Mas o foco do crescimento da companhia é o gás. A vantagem que a gente tem em relação a outros players é o acesso ao gás onshore e uma molécula competitiva. Nos próximos 5, 10 anos, vai ter uma diluição significa no componente carvão. É uma diluição passiva. 

O gás natural é visto como combustível de transição, mas ainda é um combustível fóssil e tem tecnologias como baterias e hidrogênio verde que potencialmente podem deslocá-lo no médio/longo prazo. Como a Eneva vê o papel do gás natural e como está se preparando em relação a essas novas tecnologias? 

Olhando a matriz e a forma que ela vem sendo desenhada para atender a demanda, acho que o componente gás vai ter um papel crítico pelo menos nos próximos 10 a 15 anos. O que não quer dizer que hoje a gente não esteja olhando exatamente essas frentes que você mencionou.

Para olhar as questões de inovação e novas tecnologias na companhia, criamos um núcleo diferente, que é a Eneva Ventures. Por quê? Simplesmente pela forma de pensar. Em qualquer grande companhia, se pegar qualquer um no time de engenharia e pedir para pensar o que pode acontecer de tecnologia daqui a 10 anos, todo mundo vai ser reativo. 

Hidrogênio verde, as discussões de carbon capture and storage, até bateria em escala. A reação vai ser: ‘não existe, não tem a menor chance’. Mas, quando a gente olha para trás e vê a velocidade com que as mudanças aconteceram nos últimos 10 anos, é inacreditável. 

E como vocês vêem a possibilidade de uma precificação de carbono no Brasil? 

A discussão vai acontecer. É uma dinâmica de mercado e é uma dinâmica eficiente. Hoje tem muita incerteza no custo associado ao carbono. Mas não considerar isso também não é razoável quando você está falando de 10 a 15 anos para a frente. Tem discussões geopolíticas gigantescas sobre o tema, mas vai acabar acontecendo. Então é melhor se preparar para mudanças. E ter essa discussão de uma forma mais estruturada, com uma cabeça de livre pensar, fora do viés cognitivo que existe dentro da corporação é a boa prática.

Vocês fizeram um relatório de sustentabilidade, mas não divulgaram metas de descarbonização ou relacionadas a ESG, como outras empresas de combustíveis fósseis têm feito. Podemos esperar algo nesse sentido? 

Precisamos fazer. Em algum momento, conforme formos ganhando maturidade no processo, teremos toda essa discussão de metas e evolução de KPIs ao longo do tempo.  No fundo, você precisa inserir dentro do painel de performance da companhia esses indicadores. Acho que um componente do nosso negócio que é crítico é a parte de saúde e segurança operacional. Sempre fez parte do painel de remuneração não só dos executivos, mas do painel corporativo. 

Mas vocês pretendem ter algum tipo de meta de descarbonização? 

Precisamos evoluir na discussão. O aumento de eficiência das térmicas tem um limite, que está vinculado à qualidade do carvão, à quantidade de cinzas, como você opera na eficiência da planta. E no gás idem. Uma coisa que a gente vem olhando, que não é tão nova e ainda não tem regulação, é a discussão de carbon capture and storage (CCS). Ninguém atinge métricas agressivas de descarbonização sem elas. E a grande dificuldade está na regulação. Você pode fazer efetivamente o storage, o problema vai ser quando tiver o leakage [vazamento]. 

A tecnologia de CCS, os prestadores de serviços e todas as majors sabem fazer. Mas, se tiver o vazamento, quem assume o passivo? O operador vai dizer que é o prestador de serviço, o prestador de serviço vai dizer que se for com ele, não faz. Vai ser um bom tema para discussão nas próximos anos. Vai ter que mudar a regulação, aqui e lá fora. 

Tem empresas que preferem colocar as metas, mesmo sem saber exatamente todos os passos para alcançá-las, exatamente como um incentivo para que se encontrem soluções. Por que vocês não optaram por esse caminho? 

Primeiro, porque eu não vou colocar uma métrica e um KPI para divulgar para o mercado que eu não tenha como KPI dentro da companhia, porque não vai ter ‘accountability’. Dois: porque tem que ser crível. É desafiador, mas tem que ser crível. 

Vocês fizeram oferta pela AES Tietê, mas a fusão acabou não vingando por resistência deles. Como está a cabeça de vocês para crescimento inorgânico? Pretendem continuar perseguindo aquisições em renováveis? 

O negócio com a AES Tietê tinha grande complementaridade por causa das hídricas. No primeiro período do ano, quando as hídricas estão operando despachadas, as térmicas estão pouco despachadas. No segundo período do ano, despachamos as térmicas e os níveis dos reservatórios estão baixos, portanto as hidros não são despachadas. 

O crescimento inorgânico faz parte da condução do negócio da companhia, mas ele é oportunístico. Temos dois grandes projetos até o terceiro trimestre do ano que vem, que é o Azulão Jaguatirica, e o fechamento de ciclo de P5. O capex comprometido é em torno de R$ 3 bilhões e o foco está na execução desses projetos. Mas acho que a gente mostrou uma velocidade e uma agressividade boas em fazer deals, que o mercado achava que não existia. 

A meta de crescimento anunciada por vocês é ambiciosa: passar de 2,8 GW para 4,7 GW até 2023. Como pretendem atingir?

Atingir a meta depende um pouco da dinâmica dos leilões. Crescimento de forma inorgânica faz parte da estratégia, mas tem que fazer sentido em termos de alocação de capital.

A Eneva já anunciou que fez oferta pelo Polo de Urucu, na região amazônica, que era da Petrobras e o mercado vê um potencial transformacional na aquisição, caso vocês vençam, dado ao tamanho das reservas. Qual a expectativa de vocês em relação a esse ativo? 

O crescimento inorgânico faz sentido considerando a complementaridade de ativos e/ou acesso a molécula de gás competitiva. O projeto de Urucu endereça ambos pontos.

Você disse que o principal atrativo na Tietê era a complementaridade das hídricas. Faz sentido também eólica ou solar? 

Crescimento inorgânico em eólicas tem que ter um retorno muito atrativo. Apesar de termos um pequeno portfólio em desenvolvimento, não é um core da companhia. 

Então você teria que trazer o operador junto? 

É isso. No caso da AES Tietê, essa competência também estava no core da companhia. É uma vantagem competitiva que nós não temos. 

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