Emitir green bond e financiar carvão? O maior fundo de títulos verdes do mundo diz ‘não’

Francesa Amundi ameaça vender títulos verdes do State Bank of India (SBI), que quer financiar maior projeto de carvão do mundo

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Dona do maior fundo voltado para green bonds no mundo, a francesa Amundi está dando um recado poderoso nesta semana: mais do que destinar os recursos dos títulos em si para projetos sustentáveis, as empresas emissoras precisam ser coerentes na sua estratégia de sustentabilidade como um todo. 

Nesta semana, a casa, que ao todo tem mais de 1 trilhão de euros sob gestão, disse que vai vender os títulos verdes do State Bank of India (SBI) que tem em seu portfólio, depois de o banco sinalizar que pretende avançar com um empréstimo de US$ 650 milhões para financiar a mina de carvão de Carmichael, na Austrália. 

Trata-se de um dos projetos mais controversos do ponto de vista ambiental do mundo: se conseguir financiamento, a mina do grupo indiano Adani vai produzir entre 10 e 60 milhões de toneladas de carvão por ano. 

Nos últimos anos, diversos bancos e seguradores têm se recusado a dar apoio ao projeto, num momento em que todo o mundo caminha na direção de desligar projetos a carvão, a mais poluente entre todas as fontes energéticas. Na prática, se der o crédito, o SBI vai efetivamente permitir que o projeto saia do papel. 

“Estamos mantendo um engajamento com o SBI e temos sido muito claros em dizer que não gostaríamos que eles participassem do projeto”, disse o diretor da divisão de clientes corporativos e ESG da Amundi, Jean-Jacques Barbéries, ao Environmental Finance. “Não sei qual vai ser o resultado das conversas, mas vamos vender se eles forem à frente com o projeto.” 

Lançado em 2018 com um aporte âncora de US$ 256 milhões do IFC, o Amundi Planet Emerging Green One alcançou US$ 1,42 bilhão sob gestão e tem a meta de chegar a US$ 2 bilhões, comprando principalmente títulos verdes de bancos de mercados emergentes. 

De acordo com documentos regulatórios, o fundo tem participação de ativos brasileiros. Foi o comprador da emissão de US$ 50 milhões em green bonds do Banco Votorantim no começo do ano e tem US$ 46,8 milhões em títulos verdes do BNDES. Fontes no mercado o apontam como o mais provável comprador das emissão de green bonds anunciada ontem pelo BTG

Tipicamente, os green bonds asseguram que os recursos captados serão aplicados em projetos com benefícios ambientais. 

Mas a política de investimentos da Amundi tem o que eles chamam de ‘double-assessment’, ou “dupla avaliação”,  o que significa que avalia as credenciais de sustentabilidade tanto do emissor quanto o uso dos recursos do green bond em si. “Isso foi desenhado para evitar exatamente esse tipo de situação”, disse Barbéries. 

“Um mercado de green bonds no qual um emissor pode financiar diretamente o que é chamado de ‘mais insano projeto de energia do mundo’ e ainda quer crédito por financiar uma dúzia de usinas eólicas merece ser questionado”, disse em nota Ulf Erlandsson, um ex-gestor do fundo de pensão suíço AP4 e que se tornou referência sobre agenda climática em ativos de renda fixa. 

Nos cálculos dele, se o financiamento à mina de carvão for para frente, a pegada de carbono do empréstimo será 20 vezes maior do que a do green bond que o SBI lançou há dois anos, apesar de ambos terem o mesmo valor. 

O SBI emitiu US$ 650 milhões em 2018 em títulos verdes e a Amundi tem uma posição relativamente pequena, de US$ 20 milhões. 

O framework sob o qual a emissão foi lançada diz que os recursos podem ser usados para uma variedade de propósitos, incluindo energias renováveis, eficiência energética e edifícios de baixo carbono. 

O banco indiano emitiu três green bonds, num total de US$ 800 milhões.

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