Em Nova York, uma ilha para estudar o impacto das mudanças climáticas

Prefeitura quer tornar a Governors Island, ao Sul de Manhattan, num laboratório vivo de adaptação ao aquecimento global

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Por séculos, a Governors Island, ao sul de Manhattan, foi uma base militar. Agora, a prefeitura de Nova York quer que a ilha vizinha à Estátua da Liberdade sirva a um outro tipo de combate: aquele contra os efeitos do aquecimento global. 

O prefeito Bill de Blasio acaba de anunciar uma competição para encontrar instituições acadêmicas ou de pesquisa interessadas em estabelecer um centro de soluções climáticas no local. 

Seria uma espécie de âncora para um rezoneamento, que pretende atrair projetos com pegada sustentável, fazendo da região um laboratório vivo para adaptação às mudanças climáticas. 

É uma tentativa de preparar Nova York e outras cidades para desastres naturais que tendem a se tornar mais frequentes por conta do aquecimento global. A ilha fica num ponto suscetível a enchentes e tempestades e o aumento do nível do mar pode tornar a região inabitável no futuro — assim como boa parte da Manhattan. 

“Mesmo que as emissões de carbono caiam a zero amanhã, nós todos teremos que lidar com os impactos da mudança climáticas, e as comunidades precisam estar preparadas”, disse Clare Newman, que comanda o Trust for Governors Island, responsável pela administração e desenvolvimento da ilha, à Bloomberg.

No projeto, estão previstos, por exemplo, esforços para a construção de edifícios sobre palafitas ou em estruturas que poderiam ser desmontadas. 

Mais do que apenas um centro para pesquisa teórica, no edital da competição a prefeitura diz que os candidatos devem explicar como vão desenhar projetos para atrair e promover empregos verdes na região e como vão engajar o público na pesquisa.

Os interessados precisam focar em questões como adaptação climática em ambientes urbanos densamente povoados, justiça climática, educação e saúde pública.

Se o projeto for em frente, as soluções-piloto poderão ser aproveitadas em locais mais suscetíveis a desastres naturais, normalmente bairros de mais baixa renda com menos estrutura para enfrentar inundações e os impactos de furacões e tempestades. 

Junto com o edital para atrair os centros de pesquisa, Blasio anunciou o investimento de US$ 150 milhões por parte da prefeitura para melhorias no transporte e na infraestrutura da ilha. 

O valor se soma a outros US$ 400 milhões que a cidade já disponibilizou na última década e que transformaram a ilha numa espécie de refúgio urbano e turístico para os nova-iorquinos. 

O projeto de guinada verde da Governors Island é, ainda, uma tentativa de encontrar uma solução mais rentável para o local, que passou para a administração municipal há pouco mais de uma década. 

Desde o período colonial, a ilha era uma base militar, o que mudou apenas em 1996, quando a guarda costeira deixou a área. A administração passou para o Estado de Nova York em 2003, que transferiu a responsabilidade para a prefeitura em 2010. 

O que era então uma ilha fantasma passou a abrigar um grande parque e exposições de arte, tornando-se uma espécie de oásis para os nova-iorquinos.

O problema:  a receita obtida no local — que recebe 1 milhão de visitantes por ano — é suficiente para arcar com apenas um quarto dos custos anuais, que giram em torno de US$ 20 milhões e são subsidiados pela prefeitura.  

O esquema anterior de zoneamento não dava muita liberdade de desenvolvimento imobiliário.

Um rezoneamento abre espaço para a construção de edifícios de comércio e escritório em novas áreas da ilha, o que levantou sobrancelhas dos mais céticos, que temem que a roupagem verde seja apenas uma forma de garantir o avanço imobiliário na região. (A maior parte da área segue protegida por decreto federal)

Outra dúvida é se realmente haverá interessados no centro de soluções climáticas, já que há anos que a Governors Island é apontada em balões de ensaio. 

Em 2002, havia o rumor que a Universidade da Cidade de Nova York instalaria um campus a ilha. Não aconteceu. Em 2008, o então prefeito Michael Bloomberg revelou a intenção de tornar o local a sede de um instituto público ligado à sua fundação privada. Também não saiu do papel. 

(Com edição de Natalia Viri)

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