Em fundo ESG, Indie aposta em engajamento em vez de exclusão

Veículo replica o flagship da casa, com peso maior para empresas bem posicionadas em ESG e desconto para as que estão atrás

 

Rodando com capital proprietário desde o ano passado, o fundo ESG da Indie Capital agora foi efetivamente para a rua e começou a ser oferecido nas plataformas da Ágora e da XP, com tíquete inicial de R$ 5 mil. 

Segundo veículo da casa, que opera com um fundo de ações flagship com R$ 2,5 sob gestão, o Indie 2 é um veículo ESG com uma pegada diferente da que vem sendo adotada pelas casas nacionais com fundos dedicados à estratégia: não tem um filtro negativo que exclua empresas de setores considerados controversos, como mineradoras e combustíveis fósseis. 

A ideia é premiar boas práticas e dar desconto nas empresas que ainda estão atrás. Na prática, o fundo replica a carteira do carro-chefe, mas com alocação maior em empresas com boas notas e posicionamento ESG, bancada por uma participação menor naquelas que têm desempenho pior nesses quesitos. 

Nesse aspecto, é uma estratégia parecida com a aplicada por alguns índices ESG internacionais, que rebalanceam os principais benchmarks do mercado — e que, por vezes, recebem críticas da sustentabilidade mais ‘raiz’.  

“Se a nossa ferramenta ESG estiver correta, ao concentrar mais a carteira nessas empresas, teremos uma melhor relação de risco e retorno”, diz Marcelo Bronze, sócio da área de relações com investidores da Indie. “Isso é uma hipótese nossa, que estamos testando com esse fundo e convidando agora quem compactua desses esses valores para estar junto com a gente.”

No caso da Indie, tudo parte de uma metodologia de análise ESG que vem sendo desenvolvida nos últimos dois anos, que leva em conta não somente a pontuação num questionário de fatores ambientais, sociais e de governança, mas também de uma avaliação da ‘atitude’ da gestão da empresa em relação a esses fatores.

A ideia é capturar a foto, mas o filme, de forma a se apropriar de teses em que a melhora do perfil ESG se reflita na melhora do perfil de risco e retorno das companhias. 

Essa matriz é aplicada como um dos elementos de decisão de investimento no principal fundo da casa, mas no Indie 2 é o fator preponderante. Como vem sendo feito por algumas casas de investimento por aqui, o fundo dedicado é uma forma de dar foco ao tema e refinar a estratégia ESG para a gestora como um todo.  

Na prática, o fundo 2 tem uma alocação maior em nomes como Intermédica, de planos de saúde, que é a maior posição da carteira; Natura, de cosméticos;  Rumo, de ferrovias; Log-In, de navegação; e Ânima, de educação superior.

Outra empresa com prêmio de alocação é a Eneva, de gás natural — que costuma dividir opiniões quando o assunto é ESG. Se para alguns o gás natural é uma alternativa menos poluente que o petróleo, para outros ainda se trata de um combustível fóssil.

Mais do que isso, a empresa tem usinas térmicas a carvão, considerado o fóssil mais poluente, que representam 30% da receita.  

“Eneva ilustra muito que a gente não quer só olhar a foto, mas o filme que essa companhia, independentemente do setor de atuação, está querendo construir. É uma empresa com papel importante na transição energética e eles estão bem ativos para endereçar a questão ESG”, diz o gestor Daniel Reichstul. “Na questão do carvão, por exemplo, passaram de ser potenciais compradores de ativos em que houvesse bom retorno, para não considerar novos investimentos“.  

Cada um no seu quadrado  

Na prática, para avaliar o conjunto ESG das empresas investidas, o Indie 2 distribui as empresas do fundo principal em quatro quadrantes. 

No primeiro deles entram empresas com boa nota ESG e gestores engajados e com atitudes positivas em relação ao tema, que ganham prêmio em relação ao portfólio original. Dos 26 papéis do fundo, 9 ativos estão nessa seara, representando 55% da carteira ESG, contra 48% do primeiro fundo. 

No extremo oposto, estão empresas com notas ESG ruins em relação à média dos demais e gestores com pouco engajamento — as que ganham desconto sobre a alocação do flagship. Hoje, compõem um total de cinco ativos, que representam 10%, contra 17% do portfólio-mãe.

Aqui estão os pontos de maior atenção.  

“Esse quadrante é usado para priorizar nossas iniciativas de engajamento. A nossa abordagem de não-exclusão faz com que a gente fique em cima dessas empresas mais do que se não tivesse o papel no portfólio”, diz Laura Vehanen, economista que se juntou ao time da Indie no começo do ano com foco na análise ESG das companhias, feita a quatro mãos em conjunto com os analistas responsáveis por cada setor.  

Os dois quadrantes restantes incluem ações com pesos iguais aos do portfólio original. Em um deles, as notas ESG ficam abaixo da média, mas a atitude da companhia é considerada positiva. Já no outro as notas ESG são boas, mas os gestores mostram pouco engajamento em relação aos gaps mais materiais. Esses dois grupos incluem 12 ações, com 34% de participação. 

Apesar de falar sobre os prêmios, a Indie evita dizer quais os papéis que têm desconto no fundo ESG. “Não quer dizer que sejam companhias ruins, até porque estão no nosso fundo principal, mas ainda estão atrás nessa trajetória e precisam de mais atenção”, diz Reichstul. 

Na CVM, é possível ver apenas a posição das carteiras de ambos os fundos da casa com defasagem, referente ao fim de janeiro. Entre os principais papéis da carteira do Indie 2 estavam Intermédica, Eneva, Natura, Unidas, Rumo, Tenda, PetroRio, Light, Petrobras e Locaweb.

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