Em carta anual, Larry Fink recua e acena para petroleiras

CEO da maior gestora de recursos do mundo afirma que a descarbonização tem de ser "ordeira" e que as empresas farão transições em "velocidades diferentes"

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Apontado pela extrema direita americana como símbolo do “capitalismo woke”, Larry Fink resolveu baixar o tom quase ativista adotado por ele nas suas cartas aos CEOs nos últimos anos. 

Desde 2018, o chefe da BlackRock, a maior gestora de fundos do mundo, passou a levantar a bandeira de que os negócios precisam fazer contribuições à sociedade além de gerar retornos financeiros, impulsionando as agendas ESG e climática no mundo financeiro e corporativo.

Desta vez, o fundador e CEO da BlackRock, que administra US$ 8,6 trilhões, reiterou a gravidade da crise climática, mas fez acenos para as empresas que farão a transição para um mundo de baixo carbono em velocidades diferentes.

O tema principal da carta foram potenciais desdobramentos da quebra do Silicon Valley Bank, na semana passada, mas Fink dedicou parte do texto ao papel das finanças no combate à mudança do clima.

 

“Temos clientes que querem investir de forma alinhada a um caminho particular de transição, ou então acelerá-la. Temos clientes que preferem não fazê-lo. Oferecemos escolhas”, escreve Fink na carta, endereçada aos líderes das empresas em que a BlackRock investe e também aos acionistas da gestora.

Ele aponta especificamente o setor de óleo e gás. Os lucros recordes no ano passado com a crise causada pela guerra na Ucrânia levaram algumas petroleiras a rever o ritmo de seus planos de descarbonização.

“Diferentes países e indústrias terão velocidades diferentes, e petróleo e gás terão um papel vital para atender à demanda energética durante essa jornada”, afirma Fink.

Ele aponta um gasoduto no Oriente Médio que recebeu investimento da BlackRock como o tipo de projeto que vai garantir segurança.

Mesmo argumentando que não cabe aos gestores de recursos atuar como “polícia ambiental”, Fink reafirmou a importância da ação climática, tanto do ponto de vista do risco como também de novas oportunidades de negócios.

“Todos podem ver o impacto da mudança climática em desastres naturais na Califórnia, na Flórida, no Paquistão, na Europa e na Austrália.”

Ele aponta a conta de US$ 120 bilhões que caiu no colo das seguradoras em decorrência de eventos climáticos extremos, “um número que era impensável”.

Mas as menções a uma “descarbonização ordeira” e à importância da segurança energética também podem ser lidas como um recuo.

Suas cartas recentes, que apontavam com veemência a necessidade de transformações profundas nos negócios, acabaram por transformar Fink no alvo predileto da extrema direita americana.

Ron DeSantis, governador da Flórida e provável pré-candidato à presidência, determinou em dezembro que o estado tirasse cerca de US$ 2 bilhões aplicados na gestora.

Sem fazer menção direta aos ataques que vem recebendo, Fink reiterou que seu dever fiduciário é para com os donos do dinheiro.

“Muita gente tem opiniões sobre como devemos administrar o dinheiro dos nossos clientes. Mas o dinheiro não pertence a essas pessoas. Também não é nosso. Ele pertence aos nossos clientes, e nossa responsabilidade e dever são para com eles.”

Crise financeira à vista?

O tema principal da carta divulgada na tarde desta quarta-feira foi o risco de uma crise financeira persistente na esteira da quebra do Silicon Valley Bank.

Fink afirma que o aumento dos juros para combater a inflação foi “a primeira peça de dominó a cair” depois de anos de “dinheiro fácil”.

A derrocada do SVB pode representar o tombo da próxima peça. Apesar da resposta rápida do governo americano, ele argumenta que outras instituições podem ter o mesmo destino do banco californiano.

Fink faz referência específica ao escândalo conhecido como Savings and Loan, uma crise iniciada em meados dos anos 1980 e que durou quase uma década.

Na época, mais de mil associações de poupança e empréstimos, que ofereciam crédito imobiliário, foram à falência em um momento de aperto monetário.

“Ainda não sabemos se as consequências do dinheiro fácil e de mudanças regulatórias terão efeito cascata nos bancos regionais americanos, com mais quebras e intervenções”, escreve Fink.

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