Em agenda ESG, Natura&Co foca em medir, medir e medir

Grupo divulgou avanços e obstáculos de sua agenda de sustentabilidade para 2030, anunciada um ano atrás, e que contempla suas quatro marcas: Natura, Avon, The Body Shop e Aesop

 
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Depois de anunciar a agenda de sustentabilidade até 2030 para todo o grupo, um ano atrás, a Natura&Co arregaçou as mangas para executar um trabalho sem glamour, mas essencial para empresas que, com o perdão do trocadilho, não estão no ramo da maquiagem ESG.

A empresa direcionou esforços para encontrar formas de medir todos os indicadores ESG que estão na base das metas do grupo, como emissão de carbono em toda cadeia de valor, diversidade da força de trabalho, diferenças salariais entre homens e mulheres, quantidade de plástico e por aí vai.

Pode parecer algo muito inicial para uma empresa reconhecida por liderar a agenda da sustentabilidade no país. Mas, se a marca Natura já estava mais avançada na maioria das frentes, as coisas se tornaram mais complexas com a série de aquisições realizadas.

Para além da dificuldade natural de qualquer empresa, o esforço do grupo envolve a complexidade de harmonizar os indicadores das suas quatro marcas — Natura, Avon, The Body Shop e Aesop —, que se encontram em geografias distintas e estágios bem diferentes de evolução na agenda.

“Foi uma opção. Preferimos focar em saber onde estávamos para entendermos o tamanho dos gaps, em vez de focar na evolução”, diz Keyvan Macedo, diretor de sustentabilidade da Natura&Co, em conversa com o Reset. A ideia é, a partir de 2022, começar a fazer um reporte anual consolidado do grupo.

Num evento online, a empresa apresentou os principais avanços e obstáculos em cada um dos pilares da agenda para 2030: crise climática e proteção da Amazônia, direitos humanos e circularidade e regeneração.

Selecionamos alguns destaques:

Gases de efeito estufa

Pela primeira vez, o grupo conseguiu medir qual a emissão de gases de efeito estufa das quatro marcas: 2 milhões de toneladas equivalentes de CO2 por ano. Quase metade disso vem da Avon, que, além de ter uma produção grande, tem fábricas de outros produtos além de higiene e beleza.

O número inclui suas emissões diretas (escopo 1), as emissões relacionadas à energia consumida (escopo 2) e as emissões da cadeia de valor, de fornecedores a clientes (escopo 3).

“No escopo 3, a única coisa que não conseguimos medir ainda é a etapa de uso dos produtos”, explica Macedo ao Reset. Essa etapa é especialmente relevante para produtos de higiene usados no banho e dá uma ideia de quão a fundo o grupo está indo no mapeamento do seu impacto ambiental.

Mensurar as emissões dos clientes significa estimar a energia consumida para o aquecimento da água do banho, que varia de país para país, a depender da matriz energética local. Mas a empresa considera fundamental chegar lá, porque, segundo Macedo, pode dobrar o volume de emissões do grupo. 

A ideia é concluir o inventário consolidado das emissões, que vem sendo elaborado pela Carbon Trust, até outubro para, em novembro, apresentar e aprovar o plano para se tornar net zero, em conformidade com o Science Based Targets (SBT).  

A meta do grupo é se tornar net zero até 2030 — o que significa não apenas neutralizar tudo que emite (por meio de compra de créditos de carbono, por exemplo), mas evitar suas emissões até onde for possível.

Hoje a marca Natura já neutraliza todas as suas emissões não evitadas e a Aesop concluiu seu inventário completo e neutraliza as emissões na Oceania.

Diversidade e inclusão

Uma das principais metas do grupo nessa área é incluir ao menos 30% de grupos sub representados em cargos de gerência até 2030. Nesse pacote entram grupos raciais ou étnicos, diversidade sexual e de gênero, pessoas em desvantagem econômica e também deficientes físicos e mentais.

A meta não é padronizada para todas as marcas. “O plano é que a força de trabalho reflita o perfil demográfico de cada uma das regiões em que a empresa opera”, disse Jade Fraser, chefe global de diversidade do grupo. As regiões são as das sedes das marcas: Brasil, Reino Unido e Austrália.

O principal obstáculo, no momento, tem sido obter tanto os dados demográficos de cada região quanto os dados da força de trabalho da própria empresa, o que tem esbarrado nas leis de proteção de dados. Macedo explica que a empresa precisa do consentimento explícito dos funcionários para usar cada uma das informações e que, em alguns casos, os colaboradores querem abrir uma informação, como raça, e manter outra fechada, como identidade de gênero.

No Brasil a companhia conseguiu obter os dados de etnia e os gaps já ficaram claros.

O país tem uma população que se autodeclara afrodescendente de 56%, 42,7% branca e menos de 2% de indígenas e asiáticos. Nos quadros totais da Natura no Brasil, há 31,5% de afrodescendentes, 64% de brancos e 3% de indígenas e asiáticos. Quando se olha dos quadros gerenciais para cima, há apenas 7% de afrodescendentes, 85% de brancos e 5% de asiáticos e indígenas. 

A Avon se mostra ainda menos diversa. No quadro de colaboradores, há 30% de afrodescendentes, 67% de brancos e 1% de asiáticos e indígenas, enquanto que na liderança da empresa são apenas 6% de afrodescendentes, mais de 90% de brancos e menos de 2% de asiáticos e indígenas.

Enquanto 24% da população brasileira tem algum tipo de deficiência física ou mental, na Natura há apenas 7,2% e na Avon, 5%.

“Agora conseguimos entender o tamanho do esforço que precisamos fazer para mover a agulha”, disse Fraser.

Plástico e circularidade

Cerca de 50% das emissões de gases de efeito estufa do grupo vêm do uso de embalagens, principalmente plásticas, o que mostra o tamanho da encrenca nessa frente. 

Uma das metas do grupo para 2030 é que ao menos 50% de todo o plástico seja de origem reciclada. A primeira medição realizada nas quatro marcas indicou qual o ponto de partida para se chegar lá: atualmente o indicador está em 7%.

Outro compromisso nessa frente é atingir 100% de descarte responsável de embalagens e o ponto de partida foi calculado em 24,3%.

“Estamos reportando apenas a coleta que nós mesmos fazemos. E não contabilizamos as estruturas de reciclagem que existem nos países porque é impressionante como não temos base de dados de governo para saber a taxa de reciclagem por tipo de material. Vamos precisar mais um tempo para isso”, diz Keyvan Macedo.

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