Ecossistema de impacto cresce no país — mas ainda precisa atrair a Faria Lima

 

O ecossistema de negócios de impacto está amadurecendo no país. 

Hoje são 54 iniciativas que desenvolvem e investem em impacto social, de acordo com a terceira edição do Guia 2.5 elaborado pela aceleradora Quintessa, contra 34 dois anos antes. 

Além das 35 iniciativas que se dedicam ao desenvolvimento e mentoria dos negócios, como Artemisia, Din4amo e Impacta Sebrae, praticamente dobrou o número de iniciativas que injetam recursos financeiros, saindo de 11 para 19 no mesmo período. 

Mas, com o ecossistema ‘povoado’, é hora de capacitar os empreendedores para sentar à mesa com investidores e atrair o capital da Faria Lima, dizem empreendedores de impacto. 

“Estamos no playground e precisamos ir para a sala de jantar”, disse Gustavo Fuga, à frente da 4YOU2, rede de escolas populares de inglês instaladas na periferia de São Paulo, em evento de lançamento do guia. “O dinheiro e os negócios estão aí, e o ponto de atenção no curto prazo é preparar os empreendedores para conversar com investidores.”

Em meio ao cenário de juros baixos, discussões sobre ESG e demandas provocadas pela pandemia, o tema de investimento de impacto vem ganhando atenção do mercado e abrindo novos bolsos. Já há fundos de investimento adaptando seu portfólio e bancões ainda estudam como chegar de vez no setor. 

O risco é que, sem capacitação por parte dos empreendedores, o dinheiro não chegue aos negócios da periferia e do empreendedorismo nas comunidades e continue concentrado nas iniciativas de fundadores que saíram das faculdades de ponta, como FGV e Stanford. 

Na visão de Fuga, as aceleradoras e incubadoras precisam intensificar as abordagens sobre como atrair capital. “A maioria dos mentores não sabe como captar para startup ou negócios de impacto. É uma coisa nova, diferente de um IPO, de um roadshow no mercado financeiro.”

O mapeamento da Quintessa mostra ainda aprofundamento e segmentação das organizações que apoiam o sistema de impacto: as iniciativas cresceram mais que o número de organizações.  

Em 2017, eram 34 iniciativas de apoio em 30 organizações. Agora, são 54 iniciativas em 43 organizações. 

“Há uma maturidade das organizações, que compreendem melhor as necessidades dos empreendedores e criam soluções mais específicas. E também há um ganho de maturidade dos próprios negócios”, diz Anna de Souza Aranha, diretora da Quintessa. 

Disparidade regional

Embora o ecossistema esteja evoluindo, os desafios vão além da capacitação dos empreendedores para captar recursos.

Não é surpresa que a maior parte das aceleradoras esteja no Sudeste do país. Há algumas poucas no Sul e no Nordeste, mas a distância para as regiões Centro-Oeste e Norte é significativa. Nessas duas regiões há não mais que quatro iniciativas que apoiam os negócios. 

Para ajustar a lacuna, o governo precisa entrar no assunto, acredita Lucas Maciel, coordenador da Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto (Enimpacto), que articula administração pública federal, setor privado e sociedade civil para a fomentar o ecossistema. 

Maciel entende que o dinheiro público precisa ser mais presente no setor, a exemplo do que aconteceu na União Europeia. 

Ele também quer ampliar o leque de iniciativas que se conectam, incluir mais empresas de impacto nas políticas públicas e trabalhar mais com cooperativas e empresas B dentro do ecossistema de impacto.