Dos mesmos criadores da batalha da Exxon: VOTE, o ETF do ativismo ESG

Após ganhar três assentos no conselho da petroleira, Engine No.1 lança fundo de índice que quer usar poder de voto para mudar o rumo das companhias

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Depois de ter conseguido chacoalhar o conselho da Exxon Mobil – que ficou marcada como uma vitória histórica de Davi contra Golias – a pequena gestora americana Engine No.1 acaba de lançar seu plano mais ambicioso: um ETF que quer mudar como os investidores se engajam com as principais empresas americanas. 

A forma com eles pretendem fazer isso está no ticker do fundo de índice, que deve ser lançado nas próximas semanas: VOTE. 

Em vez de excluir as companhias mal ranqueadas em métricas ambientais, sociais ou de governança, ou dar às companhias consideradas “boas” um peso maior, o ETF pretende impulsionar a mudança usando seus direitos de voto. Na prática, a ideia é levantar dinheiro para votar nas assembleias e emplacar temas relacionados a ESG. 

A julgar pela taxa de administração, de 0,05% — entre as menores da indústria —, o foco da gestora é atrair o público dos investidores de varejo, que, ao contrário de grandes fundos, normalmente não forma massa crítica para propor e votar sugestões que vão de acordo com seus valores nas empresas em que investem.

Batizado de Engine No. 1 Transform 500 ETF, o fundo vai replicar o índice Morning Star U.S. Large Cap Select, que reúne as 500 maiores empresas listadas nos Estados Unidos e ponderadas por valor de mercado. 

Até aí, nada de novo. A diferença está na forma como ele pretende se engajar com as empresas: a ideia é seguir uma política de votos bem definida para fazer com que as empresas privilegiem empregados, comunidades, clientes e o meio-ambiente.  

Questões climáticas e aquelas relacionadas à diversidade racial e de gênero, por exemplo, devem ganhar protagonismo. 

É uma abordagem diferente para combinar ESG e investimento passivo. Investidores passivos — que apenas replicam índices — estão entre os menos propensos a votar a favor de propostas sociais e ambientais, aponta uma pesquisa feita pela gestora Robeco e divulgada em fevereiro. 

“Com esse produto, a ideia é: o que podemos fazer como proprietários ativos para realmente impulsionar o impacto nessas companhias por meio da forma com que votamos e por meio de outros investidores que trazemos conosco?”, disse o diretor da Engine No. 1, Michael O’Leary, à Bloomberg.

Um bicho novo 

Desbravando um novo território do ativismo, a Engine No.1 tem um longo caminho a percorrer para provar a eficácia da sua nova abordagem.

Primeiro, é necessário um volume considerável de captação para que o voto realmente faça diferença nas assembleias das grandes companhias listadas americanas. 

Na mesma linha, com uma taxa de administração bastante baixa, formar uma equipe dedicada para efetivamente se engajar com as companhias é outro problema — tanto menor quanto maior o bolo de recursos sob administração. 

Nesse sentido, contudo, o caso de vitrine da gestora — e por que não dizer, sua maior tacada de marketing —, a grande vitória contra a Exxon Mobil, diz muito sobre como ela pode enfrentar os desafios. 

Com um investimento de apenas US$ 40 milhões, ou 0,2% da petroleira avaliada em mais de US$ 200 bi, a Engine No. 1 levou a cabo uma das campanhas ativistas mais bem sucedidas da história, emplacando três de 12 conselheiros no board para fazer valer sua tese de que Exxon precisa começar a se preparar para um mundo em que a demanda por petróleo deve cair. 

Mais que o seu poder próprio poder de fogo, o grande ativo da Engine na batalha foi seu poder de convencer os peixes grandes — uma capacidade que deve ser ainda mais crucial na estratégia do ETF. 

Com o apoio de grandes investidores, com destaque para o Calpers, o poderoso fundo de pensão dos funcionários públicos da Califórnia, e da BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, o fundo conseguiu emplacar três conselheiros no board da Exxon. 

Better call Penner

O nome bom de briga da Engine No 1 é Charlie Penner, ex-sócio do Jana Partners, um hedge fund de Nova York que fazia o ativismo mais tradicional do mercado financeiro,  aquele em que os gestores normalmente tentam influenciar a companhia a vender ativos, cindir um negócio ou retornar mais caixa aos acionistas. 

Hoje ele é o responsável pela prática de engajamento ativo da Engine No. 1 — e dono da rede de contatos e de mobilização que permitiu que a batalha da Exxon rendesse frutos. 

O lançamento do ETF de engajamento é a primeira captação oficial da Engine No. 1.

Até agora, os US$ 250 milhões da gestora fundada em dezembro de 2020 vieram principalmente da fortuna pessoal de Chris James, o fundador que fez fortuna como investidor de tecnologia e agora defende um ativismo de impacto.  

“Acreditamos que ao longo do tempo, os interesses da Main Street e de Wall Street se alinham e nós podemos nos engajar como investidores ativos para criar valor ao focar nesse alinhamento”, define-se a gestora em seu website.

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