‘Do it Wright’: A gestora de patrimônio que puxa a pauta ESG e de impacto no Brasil

Na Wright Capital, de Fernanda Camargo, os clientes precisam alocar ao menos 1% dos recursos em impacto. Mas, mais que do que atrair clientes, seu maior legado tem sido desbravar a oferta de produtos no mercado local

 

“Está aí o que você queria!”

Já passava das 9 da noite do dia 4 de junho de 2018 quando a mensagem pulou no Whatsapp de Fernanda Camargo.  

O remetente, Paulo Werneck, então diretor de investimentos da Funcef, o fundo de pensão da Caixa, referia-se ao fato de a nova resolução do Conselho Monetário Nacional sobre a aplicação de recursos pelos fundos de pensão, a 4.661, afirmar que as fundações deveriam passar a considerar nas suas análises de risco os aspectos ambientais, sociais e de governança dos investimentos.

Nos meses anteriores, ela havia feito um périplo junto a autoridades e dirigentes de fundos de pensão advogando pela inclusão de fatores ESG na análise de investimentos. Werneck não só sabia disso como havia sido um dos que encampara a pauta.

A vitória só não era completa porque o texto da nova regra trazia um incômodo “sempre que possível”, que aliviava a obrigatoriedade. Mas já era uma conquista.

Camargo é CEO e fundadora da Wright Capital, uma gestora de patrimônio de famílias abastadas fundada em 2014 e que nasceu de um jeito diferente.

Depois de 25 anos de carreira no mercado financeiro, ela e seu marido e sócio, o advogado Alexandre Lindenbojm, deixaram as posições em empresas do circuito Faria Lima em busca de algo que conversasse com suas crenças pessoais. 

Resolveram abrir um multi-family office que só cuidaria do patrimônio de famílias que estivessem dispostas a destinar ao menos 1% de seus recursos para investimentos de impacto socioambiental positivo.

O percentual, acanhado à primeira vista, era uma novidade e tanto no mercado brasileiro àquela altura, em que o mainstream econômico ignorava solenemente os investimentos de impacto e aqueles que integram fatores ambientais, sociais e de governança (ESG).

A realidade se impôs e alocar até mesmo o mísero 1% em impacto se mostrou um desafio diante da carência de opções no mercado local. Para serem coerentes nos outros 99% do portfólio dos clientes e buscarem opções de produtos com integração ESG, o problema só aumentou.

(Tecla SAP para os não iniciados: enquanto os negócios de impacto são aqueles em que o core é resolver uma dor social ou ambiental, empresas de qualquer ramo de atividade podem melhorar sua performance ambiental, social e de governança.)

“Em 2017 resolvemos mapear os fundos ESG que existiam no Brasil. Fizemos um monte de telefonemas para as assets, perguntando porque não havia mais produtos, numa pesquisa que resultou em 200 respostas ‘ninguém liga’”, exagera ela, entre risadas.

A equipe da Wright entendeu que, além de gerir a fortuna dos clientes, precisaria ajudar a desbravar o mercado, criando o ‘awareness’ e fomentando o desenvolvimento de políticas e produtos. 

“Mas nunca estivemos nisso sozinhos. Quando surgimos, no ecossistema de impacto já existiam Artemísia, Vox Capital, Mov, Sitawi. E todos eles sempre colaboraram muito. A gente veio somar”, diz ela.

O caminho, de fato, já tinha começado a ser desbravado por outros agentes. A Pragma é o multi-family office que primeiro trilhou o caminho dos investimentos responsáveis no país, mas com um posicionamento muito mais discreto. Outro que tem se destacado é o Turim, do Rio. 

Embora ambos sejam bem maiores em termos de ativos sob gestão, com estimados R$ 25 bilhões a R$ 30 bilhões cada um, a Wright Capital é a pequena do barulho.

Hoje, o multi-family office tem R$ 3,7 bilhões em ativos sob gestão, de 40 famílias.

Do mercado para o mercado 

As histórias que registram o advocacy da Wright chegam de todos os lados.

Alexandre Muller, gestor de renda fixa da JGP, não se esquece de um almoço que teve com Fernanda Camargo dois anos e meio atrás, no restaurante Santinho no térreo do Instituto Tomie Ohtake, onde fica também o escritório da Wright, no bairro paulistano de Pinheiros. 

“Eu até tinha ouvido falar de ESG, mas não estava na nossa pauta. Nosso arcabouço era o clássico de finanças: maximizar retorno e reduzir risco. Foi nesse momento que a chave virou para mim”, lembra Muller.

Com sua retórica empolgada e inspiradora de costume, ela falou de riscos climáticos e da importância do ESG. Ao final do almoço, Muller estava fisgado. Depois de fazer a integração na renda variável e lançar um fundo de ações rotulado recentemente, a JGP prepara seu primeiro fundo de renda fixa ESG.

A Indie Capital, casa independente de ações do circuito da Faria Lima, é mais um exemplo de que a provocação da Wright para passar a integrar fatores ESG aos fundos deu frutos. 

E foi assim, de almoço em almoço, de cafezinho em cafezinho, que Camargo foi se intrometer até na seara dos fundos de pensão, totalmente fora do foco do seu negócio.

“Um dia vi um estudo do CFA que mostrava que, quando havia fundos de pensão ESG como acionistas de empresas, a nota ESG das empresas subia rapidinho, principalmente na Europa. Me convenci de que puxar os fundos de pensão era parte da solução aqui”, diz. 

Primeiro cliente 

A Wright foi batizada em homenagem a Roger Wright, ex-sócio do lendário Garantia, e que fundou a Arsenal, onde Camargo trabalhou de 2003 a 2010. Morto em maio de 2009 num acidente aéreo em Trancoso, no Sul da Bahia, ele foi uma inspiração definitiva — e batizar a nova casa com seu nome foi uma forma de extrapolar seu legado.  

“Principalmente pela generosidade, que se manifestava no tempo que sempre dedicava a escutar as pessoas”, diz Camargo. 

Quando tomaram a decisão de abrir a Wright, ela e o marido estavam convencidos do propósito, mas bateu aquele medo. E se não conseguissem nenhum cliente que aceitasse investir em impacto?

A resposta veio no mesmo dia. A decisão foi tomada no café da manhã e, logo em seguida, Camargo foi a um evento sobre educação. Sem saber, na plateia sentou-se ao lado de quem viria a ser o primeiro cliente da Wright.

O empresário Jayme Garfinkel, do grupo segurador Porto Seguro, estava coincidentemente em busca de alguém para administrar seu patrimônio pessoal. Entre uma conversa e outra, deu match. “Gostei muito da Fernanda, mas, no começo, confesso que não entendia bem o que era o tal do impacto de que eles falavam”, diz Garfinkel. “Eu era cético.”

Hoje, há seis anos sendo catequizado pela Wright, ele diz que foi convertido — ou ‘impactado’, como costuma dizer Camargo. “Hoje está bem claro que é possível ganhar dinheiro e fazer o bem”, diz ele.

No divã 

Ao colocar impacto e ESG nas carteiras das famílias que são clientes e levar a elas a discussão sobre as consequências dos investimentos que fazem hoje para o futuro do planeta e da sociedade, Camargo diz que tem sido natural que essas ideias extrapolem os portfólios financeiros.

“O mais gostoso é quando a gente vê as famílias levando isso para os seus próprios negócios, suas empresas. A sementinha do impacto está plantada.”

E é preciso abrir mão de retorno para investir fazendo o bem?

“Essa é uma boa pergunta”, diz Camargo. “Estatisticamente, ainda não dá para afirmar, mas acredito que não. Pode ser que, nesse primeiro momento, quando a transição está ocorrendo, sim. Mas, no longo prazo, as empresas que integram ESG tendem a performar melhor.”

O fundo Wright Impacto, que concentra as alocações da gestora de patrimônio em fundos de impacto variados, tem hoje um patrimônio de R$ 18 milhões. Desde o lançamento, em 2016, até hoje, acumula um retorno positivo de 50%.

Mas é importante dizer que esse retorno é baseado no valuation das empresas nas carteiras e só vai se materializar quando os fundos venderem suas participações.

Assistindo de camarote aos investimentos ESG e de impacto finalmente chegando ao mainstream local, hoje começa a ficar mais fácil montar um portfólio para os clientes.

Na área de impacto especificamente, Alexandre Lindenbojm diz que começam a surgir opções para além dos fundos de venture capital, como fundos de private equity e também de crédito. “Vai ser uma oportunidade de diversificação de classe de ativos e que aumenta a nossa capacidade de alocação”, diz ele. 

Se a diversificação de produtos de impacto e ESG é bem-vinda, traz junto a necessidade de se fazer uma boa peneira, dado o risco de greenwashing com a sua popularização relâmpago. 

Ao comentar o tema, Fernanda aciona seu habitual modo indignado.

“Não é possível que, vivendo neste mundo, com coronavírus, biomas queimando, violência nas cidades, tenha gente pensando em empacotar produtos que não sejam para valer. Não temos mais tempo para isso.”

LEIA MAIS:

Como esse family office brasileiro criou negócios de moradia popular nos Estados Unidos e na Inglaterra