Do Copom ao campo: Como a Mauá quer transformar as cadeias de fornecimento

Gestora do ex-BC Luiz Fernando Figueiredo estrutura fundos de crédito para levar boas práticas socioambientais a pequenos produtores. E está começando com a Natura

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Em meio à corrida entre as assets para oferecer produtos financeiros com a pegada ESG, a Mauá Capital, fundada pelo ex-Banco Central Luiz Fernando Figueiredo, não foi pela via fácil — e escolheu um filão tão complexo quanto potencialmente transformador.

A gestora, que se fez operando as tendências de câmbio e juros, agora está criando fundos de crédito que funcionem como indutores da transição de cadeias de fornecimento de grandes empresas rumo a boas práticas sociais e ambientais. 

Um dos primeiros será tocado com a Natura e tem como alvo pequenos produtores ou cooperativas que fornecem bioinsumos da Amazônia à fabricante de cosméticos. 

O que está em jogo aqui é a ideia muito falada — e pouco praticada — de criar modelos de desenvolvimento para manter a floresta em pé. 

O acesso aos recursos ficará condicionado ao cumprimento de metas de preservação da floresta e, para isso, é preciso criar as condições adequadas para as comunidades envolvidas.

“A intenção é levar conhecimento e certificar esses produtores por boas práticas e ajudá-los a se organizar em cooperativas ou agroindústrias”, diz Carolina da Costa, sócia que chegou à Mauá no ano passado para tocar as novos negócios e ESG, antes do tsunami das três letrinhas, e que idealizou a estratégia de fundos para cadeias de fornecimento.

O projeto com a Natura acaba de ser selecionado para ser acelerado pelo Global Innovation Lab for Climate Finance, da ONG Climate Policy Initiative (CPI).

A aceleradora foi criada em 2014, numa cooperação entre governos, organismos multilaterais e setor privado, para desenvolver instrumentos financeiros capazes de combater as mudanças climáticas. Desde o lançamento, foram acelerados 49 projetos que mobilizaram US$ 2,4 bilhões em investimentos. Fazem parte do Lab, por exemplo, o BNDES, o IFC e o alemão GIZ.

O desenho final do fundo ainda não existe. O conceito será testado durante os seis meses de aceleração.

Mas uma das premissas é que a Natura assuma o compromisso de comprar os ingredientes num determinado volume por ano. É o que se chama de off-take. Esse compromisso de compra de uma grande empresa serve de lastro de recebíveis para que o fundo possa captar dinheiro de investidores no mercado.

Primeiro de muitos

O fundo com a Natura não é o único em estruturação. 

“Esse produto da Amazônia deve fazer barulho. Mas ele é replicável para uma série de cadeias e a gente já está fazendo isso”, diz Brunno Bagnariolli, sócio da Mauá responsável pela área de fundos alternativos.

Além do capital financeiro, a ideia é que esse tipo de fundo também conte com uma fatia de capital concessional — filantrópico ou com taxas subsidiadas — para absorver as primeiras perdas com inadimplência e bancar a formação dos fornecedores. 

“A beleza desse tipo de instrumento é que, se você for bem-sucedido, esses pequenos produtores se organizam e ganham tecido para, aí sim, entrar num modelo de financiamento mais tradicional”, diz Costa.

“Tem um capital concessional, um capital de mercado, que quer a rentabilidade e é agnóstico, e o capital que exige critérios ESG para investir, além de uma grande empresa que tem interesse em que sua cadeia de fornecedores seja mais sustentável”, diz Bagnariolli. “Quando você coloca esse conjunto no liquidificador, sai um produto que reúne crédito mais saudável para o produtor.” 

Do hard ao soft

Para quem está habituado a ouvir Luiz Fernando Figueiredo opinar sobre temas áridos como os rumos da política monetária, pode soar estranho escutá-lo falar sobre legado ou sustentabilidade. 

Mas ele se esforça para demonstrar que nada disso brotou de uma hora para outra. A boa governança e a filantropia, diz, sempre estiveram no DNA da gestora fundada por ele. E agora, diz, é hora de mais avanços, principalmente na frente ambiental.

“O mundo estava claramente negligenciando coisas que não podia negligenciar. A gente sabe que a ética da sociedade, ao longo do tempo, vai evoluindo. A inclusão do ESG nos investimentos é uma mudança de ética”, diz. “Na Mauá, precisamos dar vários passos relacionados à sustentabilidade.”

Os planos são de integrar o ESG a todos os fundos já existentes e também transformar a própria gestora numa empresa com práticas sustentáveis.

Há cerca de um mês a Mauá foi dividida em duas áreas distintas. 

De um lado ficaram os fundos líquidos — ações, multimercados e renda fixa — e, de outro, os fundos chamados alternativos, área que foi assumida por Bagnariolli.

“A iniciativa ESG na Mauá passa, necessariamente, pelos produtos estruturados”, diz Bagnariolli, que aponta que o grau de impacto socioambiental gerado pela adequação das carteiras é algo mais reativo. 

“Nos fundos estruturados conseguimos ter um alcance mais forte, criar um impacto de primeira magnitude, porque estamos criando o produto.”

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