De ONG a negócio social: Gerando Falcões entra no varejo para andar com as próprias pernas

Bazar abre primeira loja no dia 26, mas o sonho é criar um marketplace social em escala nacional, dizem Mayara e Edu Lyra

 

Com a pandemia do coronavírus, a ONG Gerando Falcões nunca recebeu tantas doações como em 2020. Foram R$ 30 milhões no total, a maior parte para distribuir cartões de alimentação nas favelas por meio da campanha ‘Corona no Paredão. Fome Não’.

Mas a crise econômica que veio com a pandemia fez o fundador da ONG, Edu Lyra, refletir sobre a necessidade de a organização andar com as próprias pernas.

“Não quero ter que dar a notícia de que vamos parar tudo para o jovem que depende das nossas tecnologias sociais ou para uma favela que está num processo de transformação. A transformação social não pode ser interrompida por um período de crise”, diz.

No próximo dia 26, será inaugurada a primeira loja do Bazar Gerando Falcões, um negócio de varejo social que nasce com a ambição de virar uma fonte de receita permanente para sustentar o trabalho da ONG.

“Decidimos tornar a Gerando Falcões uma organização híbrida, que sempre vai ter doações, mas que poderá gerar sua própria receita a partir da nossa engenhosidade empreendedora”, diz Lyra.

A ideia é canalizar para a venda, de forma permanente, as doações de roupas, calçados e eletrodomésticos que já são recebidas pela organização. E, obviamente, escalar esse negócio.

Hoje, sem esforços dirigidos, a ONG recebe cerca de mil itens doados todos os dias. A maioria em bom estado e condições de ser vendida.

Além disso, marcas parceiras como Malwee, Renner, Pernambucanas, Reserva, Arezzo, Tip Top, Magazine Luiza, Carmen Steffens e Topper doaram produtos novos que serão comercializados com descontos entre 40% e 60% sobre o preço normal de venda.

Na base do novo negócio, portanto, a matéria-prima seguirá sendo a doação. Mas agora de outra natureza. “A gente percebeu que o brasileiro tem mais inclinação para doar bens do que dinheiro”, diz Edu.

A empreitada começa com a primeira loja física em Poá, na Grande São Paulo, de 500 metros quadrados, e a meta de faturar R$ 1 milhão até o Natal. Além da loja, já estão montados um centro de distribuição e um call center para atender os doadores.

As doações são retiradas pela organização, a princípio na Grande São Paulo e região, mas em breve em outras localidades do país.

A mãe da criança é Mayara Lyra, que era diretora financeira da ONG e agora assumiu a recém-criada área de novos negócios. É ela quem está à frente do dia-a-dia do bazar.

“O sonho é ir para o e-commerce, criar um marketplace social, abrir outras lojas e gerar escala”, diz ela, que é cofundadora da ONG e casada com Edu.

“Mas vamos com calma e também não vamos inventar a roda. Queremos aprender com que já sabe”, completa ela, contando que na semana passada teve reuniões com gigantes do varejo digital como Mercado Livre e Magazine Luiza.

A ideia é que parte do lucro gerado pelo bazar seja reinvestida no próprio negócio e parte passe a sustentar o trabalho da Gerando Falcões.

Impacto triplo

“Vejo três impactos claros do bazar: gerar recursos permanentes para a Gerando Falcões, dar acesso a coisas boas a um preço baixo para a comunidade da periferia e formar jovens para o mercado de trabalho”, diz Mayara.

O negócio nasce com um conceito de bazar-escola. Além de uma equipe de dez pessoas que está contratada para tocar o negócio a seu lado, contará com doze jovens dentro desse conceito.

São jovens de 14 a 18 anos que foram selecionados dentro das inúmeras oficinas que a Gerando Falcões oferece em favelas.

Eles terão acesso a formação teórica e apoio psicológico e quem se sair bem nessa fase passará para a parte prática, recebendo treinamento nas várias áreas do negócio. Cada turma dessas ficará quatro meses no bazar.

“A ideia é ter muita qualidade nessa formação porque depois os parceiros do projeto, como Renner e Pernambucanas, vão contratar os jovens formados aqui”, diz Mayara. “E é aí que a gente pode mudar a vida das famílias e fechar o ciclo.”

Hackeando Guilherme Benchimol

Criada em 2011, a Gerando Falcões oferece oficinas de esporte e cultura para crianças e adolescentes e de capacitação profissional de jovens e adultos para o mercado de trabalho.

Para tentar escalar o impacto gerado, cada vez mais a organização está migrando para um modelo de plataforma de empreendedorismo social que apoia o trabalho de outras ONGs em periferias e favelas de todo o país.

Hoje, 21 ONGs fazem parte do seu programa de aceleração em 289 comunidades, e a meta é alcançar 100 aceleradas em mais de 1200 favelas em quatro anos.

O site do instituto diz que sua missão é “erguer pontes de oportunidade entre a periferia e o centro”.

E isso Edu Lyra consegue fazer como nenhum outro empreendedor social.

Ele criou uma rede de apoio que inclui nomes graúdos como Jorge Paulo Lemann, Elie Horn e Ana Maria Diniz, construída à base de uma conversa que os empresários e o mercado entendem: gestão inspirada no modelo da Ambev, com auditoria da KPMG.

A Faria Lima em peso tem apoiado a ONG e, especialmente na pandemia, os cheques foram se enfileirando, cada vez mais gordos.

E é justamente uma dessas pontes mais recentes entre o centro e a periferia que está por trás da criação do bazar.

Edu conta que meses atrás se encontrou com o fundador e CEO da XP, Guilherme Benchimol, para convidá-lo a integrar o conselho do instituto e fazer uma doação para o programa de aceleração de ONGs.

Convite aceito, levou um cheque de R$ 1 milhão de Benchimol na física para a causa. Mas, além da pauta oficial, havia outra. “Eu também queria poder hackear a cabeça dele. Eu pensava: tenho que aprender com esse cara como fazer dinheiro.”

Os dois passaram a trocar ideias sobre como criar um negócio e partiu de Benchimol a sugestão de criar um varejo social. “Nós fazíamos um bazar de Natal todos os anos, para arrecadar dinheiro com a venda dos produtos doados e ele disse: ‘faz isso todo dia’”, diz Edu.

 “Eu tenho certeza de que o Edu vai ser um super empreendedor social com essa visão do bazar. O lucro será o combustível para tudo o que ele quer fazer”, diz Benchimol.  

Além da mentoria, Lyra também pegou R$ 500 mil emprestados da XP como capital inicial para tirar a ideia do papel. “Ele queria doar, mas eu quis um empréstimo, para mostrar que o negócio pode parar de pé.”