Compromisso climático pode abrir caminho para envio de vacinas dos EUA ao Brasil

 

A poucos dias da cúpula climática marcada pelo presidente americano, Joe Biden, em 22 e 23 de abril, é grande a ansiedade para saber se o Brasil assumirá um compromisso formal de cortar drasticamente o desmatamento da Amazônia.

Não só pela questão climática, mas por uma razão ainda mais urgente: uma meta ambiciosa na área poderá ser decisiva para que os Estados Unidos concordem em destinar vacinas excedentes contra a covid-19 ao Brasil já nos próximos meses.

O Reset apurou que as duas pautas têm se cruzado nas discussões diplomáticas entre os dois países. 

O tema é tratado com cautela para não melindrar ainda mais as relações bilaterais com a ideia de que as vacinas podem entrar como moeda de troca na obtenção do compromisso ambiental brasileiro. 

O fato é que o excedente de vacinas que os EUA terão em breve se tornou uma das opções mais viáveis para que o Brasil consiga acelerar a imunização da população.

Junto do governo, um grupo de empresários reunidos no movimento Unidos pela Vacina tem trabalhado para agilizar a compra de imunizantes para o país, inclusive em conversas com os americanos.

A ideia do grupo é que todas as vacinas sejam integradas ao Plano Nacional de Imunização (PNI), do Ministério da Saúde. O movimento é contra a compra de vacinas pelo setor privado para furar a fila do PNI, que dá prioridade a grupos considerados mais vulneráveis.

Têm sido constantes os atrasos da Fiocruz na produção do imunizante da AstraZeneca, principal aposta inicial do governo brasileiro para vacinar a população, enquanto o Instituto Butantan enfrenta dificuldades para importar matéria-prima para acelerar a produção da Coronavac, até agora responsável por 83% dos imunizantes aplicados no país.

Opções negociadas recentemente, como os 100 milhões de doses da Pfizer, estão previstas para chegar de forma mais massiva apenas no segundo semestre.

Já nos EUA, a disponibilidade de vacinas excedentes se dará bem antes, provavelmente no próximo mês, tão logo o país consiga imunizar toda a sua população adulta.

O governo Biden já sinalizou que o México tem prioridade, por conta da proximidade geográfica e das relações comerciais, mas o Brasil pode vir logo depois. O país se converteu em um caso de preocupação humanitária e sanitária para o mundo todo, por conta do grande número de mortes e pelo temor de surgimento de novas cepas do coronavírus.

Biden marcou a cúpula sobre o clima para a semana que vem e convidou 40 líderes mundiais. Do Brasil, o governo americano espera um compromisso com metas de redução de desmatamento ilegal, zerando a prática até 2030, com resultados já neste ano.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que quer receber US$ 1 bilhão dos Estados Unidos para cortar o desmatamento em 40% em 12 meses.

A imposição da cifra como contrapartida para o compromisso caiu mal no governo americano. Na noite desta quarta, dia 14, vazou a versão de uma carta que o presidente Jair Bolsonaro deve enviar a Biden, afirmando que o país pretende eliminar o desmatamento até 2030.

A percepção de quem acompanha as conversas é que, se o Brasil anunciar seu compromisso, o dinheiro irá fluir — bem como as vacinas.

As pressões têm vindo de todos os lados para que o Brasil atenda às expectativas e volte às negociações climáticas pela porta da frente. Nesta semana, um grupo de 33 empresários de peso divulgou uma carta em que pedem ao governo mais ambição climática.