Como o Itaú quer construir um marketplace global para créditos de carbono

Primeira iniciativa do tipo liderada por bancos, em conjunto com estrangeiros, quer dar liquidez e segurança para escalar mercado de créditos voluntários

 
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Com cada vez mais empresas buscando créditos de carbono para neutralizar suas emissões de gases de efeito-estufa, o mercado voluntário de compensações floresceu, deixando claras também suas ineficiências. 

O processo de compra dos créditos costuma ser complexo, muitas vezes sem garantias de que não haja dupla contagem, e com uma formação de preços opaca, que deixa tanto compradores quanto vendedores no escuro. 

Todo problema é uma oportunidade — e muitas empresas e iniciativas vêm surgindo em todo mundo para tentar endereçar parte dessas questões e dar escala ao mercado de compensações, garantindo a integridade dos ativos que estão sendo comercializados. 

Mas, pela primeira vez, um conjunto de bancos decidiu entrar no jogo, com o chamado Projeto Carbono, um marketplace que quer unir compradores e vendedores para dar mais transparência ao mercado de offsets e garantir a rastreabilidade dos contratos por meio de blockchain.

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A iniciativa é encabeçada pelo Itaú Unibanco, junto com outros três bancos estrangeiros: o canadense CIBC, o National Australian Bank (NAB), maior banco comercial da Austrália, e o britânico NatWest (antigo Royal Bank of Scotland).

Construída a inúmeras mãos, com equipes multidisciplinares de todas as instituições financeiras envolvidas, a plataforma está em fase final de gestação e deve estrear de forma piloto no próximo mês. 

“Estamos olhando para a capacidade operacional, jurídica e técnica da plataforma. Temos este ano para olhar essas questões e rodar algumas operações para ter certeza que chegamos no melhor modelo”, aponta Luciana Nicola, superintendente de sustentabilidade do Itaú Unibanco. 

Mas algumas bases já estão dadas. 

No centro do projeto, está a utilização de uma plataforma blockchain, desenvolvida pela americana Consensys, que torna o crédito rastreável e evita a dupla contagem — ou seja, que o mesmo crédito possa ser vendido para mais de um comprador.

O conceito não é novo. 

Outras plataformas, como a da fintech Moss, usam tecnologias de blockchain para garantir a integridade dos contratos. 

No caso do Projeto Carbono, apesar de viabilizarem a plataforma, os bancos não vão atuar como intermediários nos processos de compra e venda. 

A ideia é que os proprietários dos créditos — sejam eles as próprias empresas geradoras, desenvolvedores e outros tipos de brokers — demonstrem com clareza suas posses ao mercado e que sejam divulgados os portes e valores das transações realizadas, de forma a facilitar a descoberta de preço. 

Bolsas e outros provedores poderão se plugar à plataforma para oferecer serviços adicionais. 

“O que queremos evitar é que esse mercado vá por um caminho menos adequado. Já vimos movimentos acontecendo no Brasil e no mundo, com players comprando baratinho para estocar e depois vender mais caro”, diz Nicola. 

No caminho do net zero 

Fomentar a liquidez e a transparência no mercado voluntário de créditos de carbono é uma peça crucial para que os bancos possam fazer sua própria trajetória em direção ao net zero, diz a executiva. 

Nas instituições financeiras, as emissões das operações próprias — o que inclui escritórios, centro de dados e agências — são relativamente pequenas e o que realmente importa é o chamado escopo 3, isto é, as emissões financiadas via carteira de crédito. 

Para ‘limpar’ a carteira, além de reduzir a exposição a setores carbono intensivos, é preciso ajudar os clientes na transição. Mais do que transformar a plataforma numa fonte de receita por si, o que o banco pretende é aumentar o valor agregado da sua oferta nesse processo, diz Nicola.

“A plataforma vem para auxiliar nossos clientes para a transição para um modelo mais limpo e aumentar nossa exposição a baixo carbono. Claro que reduzir efetivamente as emissões é o mais importante e queremos auxiliar as empresas nessa trajetória, mas muitas vezes isso não é possível no curto prazo e é aí que entram os créditos”. 

Além de atender a demanda por offsets, uma plataforma robusta de negociações no mercado voluntário de carbono é uma forma também de estimular a oferta, gerando oportunidade de negócios para empresas que têm alternativas para capturar ou evitar emissões. 

“Recebemos com muita frequência questionamentos de clientes que querem ou comprar ou vender créditos de carbono”, afirma a superintendente. “E com a quantidade de compromissos net zero que devem vir até a COP 26, não tenho dúvida que não vai faltar nem oferta e nem demanda por esses serviços.”

O Itaú ainda não tem uma meta oficial de se neutralizar as emissões de sua carteira financiada, mas pretende aderir “em breve” ao Net Zero Banking Alliance, iniciativa da ONU pela qual os bancos se comprometem com o neto zero em 2050, e que por ora, só tem o Bradesco entre os grandes bancos de capital nacional. 

“Mas já somos signatários dos Princípios de Responsabilidade Bancária da ONU desde setembro de 2019, que pressupõe o alinhamento ao Acordo de Paris”, afirma a executiva.

Do local para o global

O Itaú já tem alguma experiência no mercado de compensações. 

Há anos o banco compensa a maior parte de suas emissões próprias por meio do Compromisso com o Clima, uma plataforma fundada pelo próprio Itaú e pela Natura e que agrega projetos de compensação que geram também impacto social —- num processo que é considerado estado da arte no Brasil. 

Hoje, diversas outras empresas além das fundadoras também utilizam plataforma. 

“O Compromisso com o Clima é muito relevante no mercado brasileiro, mas a experiência também nos ajudou a ver alguns gargalos. O maior é que ele não tem rastreabilidade, o que é crucial quando estamos falando de escala para o mercado global”, diz.

No Projeto Carbono, a parceria com bancos estrangeiros de países onde há mercado regulado de emissões deve ajudar na robustez da plataforma. “Esses países já tem uma série de boas práticas estabelecidas, o que nos ajuda muito”, afirma.

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