Mercado voluntário de carbono bate recorde e deve superar US$ 1 bilhão no ano

Valor negociado já subiu 60% neste ano até agosto frente a 2020, puxado por volumes e preços; créditos florestais são destaque

Compartilhar

Com a enxurrada de empresas se comprometendo a se tornar ‘net zero’, era natural de se supor uma explosão na demanda por créditos de carbono. 

Uma pesquisa divulgada nesta semana transformou o cenário em números. 

Nos oito primeiros meses deste ano, o valor transacionado nos mercados de carbono voluntário já cresceu 60% em relação a 2020 como um todo e deve superar a barreira de US$ 1 bilhão em 2021, marcando um recorde em meio à crescente demanda corporativa para cumprir metas de descarbonização. 

Os dados são do Ecosystem Marketplace, uma iniciativa da Forest Trends, que compila informações reportadas pelos principais desenvolvedores e vendedores de projetos de carbono em todo o mundo — e é considerada a fonte mais confiável para acompanhar tendências de preços e volumes num mercado em que as transações têm pouca transparência. 

“Não são apenas as companhias que estão comprando créditos de carbono para cumprir uma pequena parte de seus compromissos de net-zero”, afirma Stephen Donofrio, que liderou o levantamento, em nota. “Há um interesse crescente de especuladores em comprar créditos e o valor combinado desses negócios está se tornando uma fonte robusta de financiamento para projetos verdes ao redor do mundo.” 

Valores negociados nos mercados voluntários de carbono (em US$ mm)

Fonte: Ecosystem Marketplace – Set/21
*Acumulado no ano até 31 de agosto

O forte crescimento neste ano vem sendo puxado tanto por volumes quanto por preços. 

Até agosto, foram negociados 239,3 milhões de créditos (cada um representando uma tonelada de emissões de carbono evitadas ou removidas), com um aumento de 27% em relação a 2020. Os preços médios, por sua vez, aumentaram 24%, saindo de US$ 2,51 para US$ 3,13 por tonelada. 

O crescimento aconteceu em cima de um ano que já tinha sido fora da curva. 

Em 2020, apesar do estouro do coronavírus que paralisou a economia mundial, especialmente na primeira metade do ano, o mercado voluntário de carbono já tinha crescido 50% em valor frente a 2019, para US$ 473 milhões. O volume aumentou 80%, para 188,2 milhões, enquanto os preços tiveram uma queda de 18%, para US$ 2,51.

Fonte: Ecosystem Marketplace – Set/21

“O desafio para os mercados voluntários de carbono hoje não é mais encontrar compradores de crédito”, afirma Michael Jenkins, CEO da Forest Trends. “Agora, precisamos guiar os mercados para entregar a maior qualidade possível, com o melhor benefício possível para o planeta e as comunidades.” 

Apesar do avanço, as negociações voluntárias ainda precisam ganhar escala para fazer diferença efetiva nos termômetros.

A Taskforce on Scaling Voluntary Carbon Markets (TSCVM), que vem trabalhando para assegurar a qualidade de créditos e padronização, estima que os mercados voluntários de carbono precisam aumentar 15 vezes até 2030 e 100 vezes até 2050 em relação aos níveis de 2020. 

Oferta e demanda

Desenvolvedores e comercializadores de projetos de créditos de carbono estão sofrendo para atender à demanda num mercado aquecido, diz Patrick Maguire, um dos autores do relatório. 

A oferta tem aumentado. As emissões de créditos têm crescido numa velocidade muito mais forte que a aposentadoria (quando eles são efetivamente cancelados para neutralizar a emissão equivalente do comprador). 

E o mercado vem atraindo novos entrantes. Segundo o Ecosystem Marketplace, os projetos que emitiram créditos pela primeira vez em 2021 (até agosto) totalizaram 64,6 milhões de toneladas equivalentes — mais de um quarto do total emitido no período.  

A questão é a velocidade do movimento. “Se os preços vão atrair nova oferta para entrar no mercado de forma rápida o suficiente para atender à demanda crescente ainda é uma questão aberta”, afirma Maguire. “A maior parte dos projetos de carbono tipicamente leva anos para se desenvolver.”

Créditos da floresta

O forte aumento da demanda poderia sugerir um comportamento ainda mais agressivo dos preços médios.  Mas a média, contudo, esconde diferenças importantes na dinâmica.

No mercado voluntário de carbono, além da categoria de crédito, os preços variam muito dependendo de fatores como localização dos preços, sua data de lançamento (o chamado ‘vintage’) e o volume por compra (grandes compradores conseguem descontos significativos frente a quem compra pequenas quantidades).

A principal tendência foi a explosão nos negócios que envolvem as chamadas “soluções baseadas na natureza”, que envolvem projetos de proteção de áreas de florestas nativas e reflorestamento. 

Normalmente, eles são valorizados pelos compradores pelos benefícios associados à redução de emissões, como proteção da biodiversidade e desenvolvimento socioeconômico das comunidades tradicionais que deles fazem parte. 

As transações de crédito do tipo REDD+ — de proteção de áreas florestais sob risco de desmatamento — explodiram em 2021, crescendo 280% em volume frente a 2020 e se tornando a principal categoria, com 115 milhões de toneladas comercializadas, à frente de energias renováveis. 

E os preços aumentaram.  No setor de florestas e uso da terra, eles subiram de US$ 4,33 em 2019 para US$ 4,73 na média 2021, com um pico de US$ 5,60 em 2020. Dados mais granulares mostram que, no terceiro trimestre deste ano, os preços já voltaram a girar em torno de US$ 5,69 novamente.

Volume e preços de crédito de carbono por categoria – 2021 (acumulado até agosto)

Fonte: Ecosystem Marketplace – set/2021

Prêmio por remoções 

Outra tendência que já começa a ser capturada é o prêmio por créditos que efetivamente removem carbono da atmosfera em vez daqueles que evitam emissões. 

Projetos de reflorestamento e melhorias do solo efetivamente sequestram carbono da atmosfera, mas representam hoje uma fatia bem menor, de apenas um décimo, do mercado de créditos de carbono. 

A maioria dos créditos é de iniciativas que impedem que mais CO2 seja liberado na atmosfera — evitando a liberação associada ao desmatamento, por exemplo, no caso dos REDD+, ou trocando combustível fóssil por fontes renováveis no caso dos projetos de energia renovável. 

Segundo o Ecosystem Marketplace, o preço para créditos de remoção é quase 5 vezes mais alto que o de emissões evitadas. 

“O último relatório do IPCC deixou muito claro que para evitarmos as piores consequências do aquecimento global precisamos efetivamente sequestrar carbono — e as empresas que estão comprometidas com a agenda estão cientes disso”, afirma Felipe Bittencourt, CEO da brasileira WayCarbon.

Último suspiro da energia renovável

O estudo mostra que 2021 deve também marcar o pico de energia renovável como a maior fonte de créditos para os mercados voluntários. 

Se os preços dos créditos florestais estão bombando, aqueles associados à energia renovável vão na contramão. Ainda que o volume continue alto, os preços estão próximos de US$ 1 por tonelada — o que puxa a média agregada de preços para baixo. 

De acordo com os pesquisadores, o movimento reflete uma disparada em créditos mais baratos, vindos da Ásia, num momento em que países de regiões mais desenvolvidas têm tido dificuldade de certificar novos projetos de energia eólica e solar. 

O problema aqui é um critério conhecido como “adicionalidade”. Para emitir um crédito de carbono, um projeto tem que provar que provoca um impacto que não existiria na ausência do incentivo dado pelo crédito. 

Conforme as energias renováveis se tornam mais competitivas em relação a outras formas de energia, como vem acontecendo nas economias desenvolvidas, não precisam mais de financiamento de carbono para sobreviver.

“Projetos de energia renovável podem continuar a atender os critérios de adicionalidade em alguns lugares, como países menos desenvolvidos”, diz Maguire. “Mas particularmente em países desenvolvidos, não esperamos ver novas ofertas nos próximos anos.”

Ele nota, no entanto, que houve aumento de preços em outras fontes renováveis menos tradicionais, como biogás, biomassa e energia geotérmica. 

E o Brasil? 

Em termos de regiões, Ásia, América Latina e Caribe são as que mais transacionaram créditos de carbono voluntário nos últimos anos. 

Os volumes vindos da América Latina e Caribe foram dominados por florestas e uso da terra. Desde o ano passado, 80% dos créditos comercializados na região vieram dessa categoria, com preços médios girando entre US$ 4,30 e US$ 4,46. 

Há poucas informações sobre o Brasil no levantamento, mas um dado chama a atenção: em 2021, os dados levantados pelo Ecosystem Marketplace mostram que o país transacionou 3,1 milhões de toneladas de créditos florestais. No mesmo período, o vizinho Peru movimentou 23,5 milhões.

Leia mais

Quer receber o Reset no seu e-mail? Inscreva-se

A melhor cobertura de negócios e finanças sustentáveis

Contribua com o Reset e ajude a construir a mudança.