Como a re.green quer reflorestar 1 milhão de hectares

Com investidores de peso, como Lanx, Gávea, Dynamo e os Moreira Salles, empresa quer fazer restauração com qualidade e em escala — e sem abrir mão de retorno

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Uma das principais soluções para combater o aquecimento global, reflorestamento no Brasil sempre foi coisa de baixa escala ou pouca variedade de espécies. 

Agora, um grupo de investidores nacionais de peso está apostando que é possível restaurar florestas nativas no Brasil com qualidade e em massa – e ganhando dinheiro com isso. 

Com investimento inicial de R$ 390 milhões, a re.green nasceu com a meta inédita de restaurar 1 milhão de hectares na Mata Atlântica e na Floresta Amazônia. 

Longe do bolso da filantropia, o aporte veio de quatro investidores tradicionais: a Lanx Capital, de Marcelo Medeiros e Marcelo Barbará, o BW, family office dos Moreira Salles, a Gávea Investimentos, de Armínio Fraga, e a Dynamo. Todos esperando retornos em linha com bons investimentos de private equity. 

 

Boa parte da restauração virá de um modelo em que a re.green compra terras de área original de floresta que foram convertidas em pastagens e faz toda a restauração, com atenção para a biodiversidade e os benefícios para a comunidade local. 

No fim do processo, abre mão das terras e as transforma em unidades de conservação, garantindo a perenidade das florestas. 

O plano é monetizar o investimento com a venda de créditos de carbono “premium”, que têm uma vantagem significativa de preço exatamente por conta desses benefícios extras, além da comercialização de produtos madeireiros, extraídos de maneira sustentável. 

A chuva de compromissos net zero e uma seletividade maior nos projetos de compensação por parte de multinacionais e grandes empresas estão por trás do componente que faltava para fechar a equação.

“Muitas empresas estabeleceram metas de neutralização de sua pegada de carbono até 2040, 2050, mas poucas estão desenvolvendo projetos que vão permitir que isso aconteça. Hoje tem uma falta no mercado que estamos buscando aproveitar”, afirma o co-CEO Thiago Picolo, executivo com perfil de gestão, com experiência no comando de negócios conduzidos por private equities, caso do hortifruti Natural da Terra e da Technos, de relógios.

Seu parceiro no comando da empresa é Bernardo Strassburg, economista referência em estudos globais sobre áreas prioritárias para restauração de ecossistemas e professor da PUC-Rio. Partiu dele a ideia que deu origem à re.green. 

A dupla no comando resume bem o perfil da empresa: ciência com business. “É um equilíbrio entre maximizar o ciclo biológico e o ciclo financeiro. Só é viável proteger a mata se tiver alguma forma econômica de fazer isso”, diz Picolo. 

Mais de R$ 5 bi 

Com equipes comerciais atuando a todo vapor há mais de seis meses, a re.green está em fase final para fechar as primeiras compras de terras. Sul da Bahia e Pará estão entre as áreas preferenciais, especialmente por conta do potencial de biodiversidade. 

E o capital inicial levantado pela empresa é apenas uma fração do que ela deve demandar para colocar em marcha seu objetivo de restauração. Para atingir 1 milhão de hectares, Picolo estima que seja necessário investir algo entre R$ 8 bi e R$ 10 bi. 

Com o dinheiro que deve entrar quando os projetos começaram a performar, a expectativa é que a re.green precise levantar algo como R$ 5 bilhões nos próximos anos para fechar a conta. “Vamos ter que fazer outras rodadas de captação lá na frente”, diz Picolo. 

A compra de terras para restauração completa é o modelo mais ‘extremo’ da re.green e deve consumir entre R$ 20 mil e R$ 30 mil por hectare. Apesar de ser o modelo mais intensivo em capital, é um dos principais diferenciais da companhia e o que garante com mais facilidade a emissão de créditos. 

“Para conseguir um crédito de carbono certificável, alguns elementos são fundamentais. Um deles é garantir que a floresta ficará plantada para sempre – e é mais difícil fazer isso quando se está arrendando uma terra de terceiros”, explica o CEO. 

Mas há um mix de modelos, incluindo parcerias em que os investidores entram com a terra e a empresa, com os serviços de restauração. Há ainda diversos fatores, como declividade, clima, pluviosidade, uso da terra, a existência ou não de floresta no entorno que determinam se a restauração será mais ou menos intensiva. 

“Vamos montar um portfólio que vai ter um pouco de tudo. Se formos fazer da maneira mais intensiva possível, é um caminhão de dinheiro. Porém não queremos fazer tudo da forma menos intensiva porque não vamos abranger as áreas que queremos”, diz o co-CEO. 

Hoje, boa parte da restauração florestal no Brasil se concentra em áreas próximas de florestas, que já têm grande potencial de regeneração natural. A re.green quer encarar o desafio de promover o reflorestamento em áreas desmatadas há muito tempo.

A equação

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) da ONU já deixou claro que, para conter os piores efeitos do aquecimento global, não será suficiente apenas reduzir as emissões de gases de efeito-estufa. Será preciso remover carbono da atmosfera – e a tecnologia mais consagrada para fazer isso é a restauração de florestas. 

Apesar disso, esse tipo de crédito de carbono ainda engatinha. 

Nos últimos três anos, 47% dos créditos de carbono registrados junto aos principais certificadores foram de soluções baseadas na natureza. Desses, só 14% vieram de projetos de restauração, com a maioria vindo de soluções como o REDD+, de projetos de desmatamento evitado – o principal alvo das desenvolvedoras de projetos de carbono no Brasil.

Na prática, as empresas vêm demandando projetos de sequestro de carbono e pagando mais caro por isso.

“Citando números muito grosseiros, porque esses valores variam muito, para um projeto REDD a gente talvez esteja falando de US$ 15. Um projeto de sequestro, US$ 20. E um projeto com as certificações mais altas possíveis, com co-benefícios de biodiversidade e sociais, você chega a bater US$ 25”, aponta Picolo, referindo-se ao preço do crédito de carbono. 

Além disso, há cada vez mais demanda por serviços personalizados, feitos sob medida para cada tipo de empresa. Há aquelas que querem uma restauração em determinado bioma, onde está concentrada sua atuação ou a de seus principais fornecedores. Outras, com objetivos específicos de biodiversidade. 

O desafio ecológico

Além do desafio financeiro, a re.green vai enfrentar um imenso desafio ecológico. Para isso, trouxe para a equipe Ricardo Rodrigues, professor da Esalq-USP e um dos maiores especialistas em restauração, com mais de 30 mil hectares no currículo. 

Rodrigues foi seguido por uma equipe de PhDs especializados em todas as etapas de restauração, com mais de mil papers publicados sobre o assunto. 

Desenvolver a cadeia de fornecimento é um dos pontos cruciais. 

A re.green encampou a Bioflora, viveiro de mudas de espécies nativas da Mata Atlântica fundado por Rodrigues e André Nave, e está investindo para aumentar a produção para 2 milhões de mudas no curto prazo e mais de 10 milhões de mudas nos próximos anos. 

“Ainda assim, será uma fração da quantidade de mudas que vamos precisar”, aponta Picolo, acrescentando que a re.green já trabalha para capacitar oito fornecedores de mudas, incluindo comunidades indígenas, para dar conta da escala necessária. 

Investimento em pesquisa e desenvolvimento também será uma parte crucial. 

A re.green já está trabalhando para trazer para o reflorestamento de espécies nativas uma tecnologia em que as mudas são plantadas com um papel biodegradável em vez do tradicional plástico, que aumenta o vai-e-vem de lixo. 

“O que a gente está fazendo ainda não foi feito em escala no mundo real. A empresa vai ser um laboratório neste início e vamos descobrir muitas coisas. Vamos fazer restaurações muito melhores e mais eficientes daqui um, dois, três anos”, diz o CEO.

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