Com FIDC verde, Órigo vai dobrar oferta de energia solar no varejo

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A Órigo Energia, especializada no fornecimento de energia solar para pequenos consumidores e que tem como acionistas um fundo de energia limpa do TPG, a japonesa Mitsui e o fundo de impacto MOV, acaba de fechar a captação de R$ 250 milhões em dívida verde.

Nesta semana, foram levantados R$ 184 milhões por meio do Green FIDC Solar GD Socioambiental. O fundo de recebíveis se soma a outros R$ 64 milhões captados em fevereiro por meio de um Certificado de Recebíveis Imobiliários. Em ambos os casos, o selo verde foi concedido pelo Bureau Veritas, seguindo os parâmetros do Climate Bond Initiative (CBI).  

Com as duas operações, a Órigo assegura os recursos para seu plano de dobrar de tamanho e chegar à capacidade de geração de 100 megawatts até o fim do ano.

Os recursos vão financiar a construção de 12 novas fazendas solares no Estado de Minas Gerais, onde a empresa concentra sua operação, adicionando 30 MW de capacidade de geração.

Hoje, a Órigo tem 12 fazendas em operação, com 50 MW, que atendem 10 mil clientes residenciais e de pequenos negócios. Entre abril e maio, dez novas plantas já em fase final de construção serão conectadas à rede da distribuidora mineira Cemig — além das outras 12 que começam a sair do papel agora.

“Estamos só no começo da inovação e da disrupção. Apesar de todo o barulho em torno da energia solar, ela ainda representa apenas 2% da energia gerada no país, sendo que metade disso é centralizado, para grandes clientes”, diz Surya Mendonça, CEO da Órigo. “O nosso objetivo é democratizar o acesso à energia solar.”

O FIDC, estruturado e gerido pela Albion Capital, tem prazo total de 12 anos (sendo que os cotistas sênior farão o resgate em dez anos) e o objetivo é pagar uma taxa de IPCA mais 9% ao ano nas cotas sênior, que têm prioridade no recebimento, e IPCA mais 11% nas cotas mezanino, que recebem depois das cotas sênior e antes das cotas subordinadas. As subordinadas, de maior risco, contam com capital próprio da Órigo para absorver possíveis perdas. 

O CFO da Órigo, Rogerio Marchini Santos, explica que o fundo vai financiar oito das novas fazendas, permitirá o resgate antecipado de uma debênture verde de R$ 50 milhões emitida no ano passado e ainda liberará capital da empresa.

As cotas foram compradas por cerca de 35 investidores, entre fundos e pessoas físicas. “O fato de se tratar de um fundo verde contou como argumento de venda, embora nenhum dos investidores seja especialista”, diz Marchini Santos.

Inovação (e incerteza)

A taxa generosa que atraiu os investidores é salgada para a empresa.

“É um custo financeiro alto, que reflete um modelo de negócio novo e ainda com incertezas regulatórias”, diz Mendonça.

Mas conseguir financiar os projetos via mercado de capitais e por meio de instrumentos verdes é uma vitória para a Órigo.

Por ser um bicho diferente no universo da geração solar, quatro anos atrás a empresa mal conseguia fazer os bancos entenderem seu modelo para abrir a torneira do crédito.

A empresa não constrói fazendas solares para abastecer grandes empresas e, portanto, não tem contratos de fornecimento de longo prazo em mãos para oferecer como garantia aos bancos.

Tampouco a empresa instala placas solares em telhados de casas e comércios, modelo em que os projetos são pagos pelos próprios consumidores, na chamada geração solar distribuída.

O modelo aqui é chamado de geração compartilhada, segmento no qual é líder. Isso quer dizer que a empresa ergue as fazendas solares, as conecta à rede da distribuidora, e vende a energia no varejo, sob a forma de aluguel mensal de placas solares, para casas e pequenos estabelecimentos comerciais. 

“Quem faz o investimento é a Órigo e o cliente tem uma economia de energia todos os meses, com o benefício socioambiental associado. Ele está gerando uma energia limpa e exercendo o direito de escolher sua fonte de energia”, diz Mendonça.

Um pequeno empresário de Uberlândia que contratou a energia da Órigo há seis meses para sua casa e para o seu negócio conta que a economia nas contas de luz tem oscilado entre 15% e 20% desde então.

Não é por acaso que a empresa se concentra em Minas até agora. É o único Estado que oferece isenção de ICMS para a geração solar compartilhada. No resto do país, o benefício só existe para projetos solares para grandes empresas. 

Do ‘solar hippie’ ao varejo

Mas a Órigo não nasceu voltada para o varejo. 

A startup foi fundada por três engenheiros em 2010, quando ainda não existia qualquer regulamentação para o setor e nem cadeia de fornecimento. Entre eles, Eduardo Bomeisel, já naquela época um reconhecido engenheiro elétrico responsável pelo desenvolvimento de protótipos de carros a energia solar.

 “Era a fase hippie da energia solar no Brasil”, brinca Paulo Bellotti, sócio da MOV Investimentos, investidor de primeira hora do negócio. 

No começo a empresa atuou fazendo projetos de engenharia, como a maior usina solar da CPFL até então. É da empresa, também, o projeto de alimentação por energia solar do Museu do Amanhã, no Rio.

Quando em 2014 a Aneel estabeleceu o modelo de compensação, que permite que quem gera energia solar e não usa pode jogá-la na rede de distribuição e receber um crédito por isso, a empresa começou a migrar para projetos menores, residenciais e de pequenos negócios.

Aos poucos, a Órigo passou a identificar a demanda que levou ao modelo atual. “A Órigo ia vender os projetos e ouvia que as pessoas não queriam comprar as placas, mas alugá-las”, recorda Bellotti. “Percebemos que havia um negócio ali, que seria intensivo em capital.”

A entrada do TPG Alternative and Renewable Technologies, fundo voltado para negócios que reduzem o impacto ambiental, proporcionou a construção da primeira fazenda solar. 

Mas a virada do negócio aconteceu com o recrutamento de Surya Mendonça, em 2017, para presidir a companhia. Até então vice-presidente da telefônica Vivo, ele era o homem certo para a missão de empacotar o produto da Órigo para o varejo, fortalecendo a marca e criando uma relação com pequenos clientes.

A entrada da Mitsui como sócia, em 2019, permitiu a construção de outras três fazendas e a testagem da tese de energia solar compartilhada.

Mas, assim como na telefonia celular, esse é um negócio com churn elevado, característica que sempre assustou os bancos. “Faz parte do negócio, sai cliente e entra cliente”, diz Mendonça.

Dimensões de impacto

Nos primeiros anos, foram os aportes dos sócios que garantiram a expansão e, com as diluições, dois dos fundadores preferiram vender suas participações. Hoje, apenas Bomeisel permanece, atuando como o grande mentor técnico e científico da empresa, de olho nos avanços tecnológicos que virão.

Aos poucos o crédito bancário veio, com Itaú, o principal parceiro financeiro, BDMG, BNB e Santander. E, agora, o mercado de capitais.

A Mov acompanhou os aumentos de capital até o limite do fundo e, a partir daí, alguns cotistas decidiram co-investir. Hoje, a gestora tem quase 25% do capital da empresa e um assento no conselho.

“É um negócio com várias dimensões de impacto positivo, além da energia limpa em si”, diz Bellotti. “Reduz a pressão por grandes obras de infraestrutura de geração elétrica, gera emprego e renda em diversas localidades sem precisar desmatar ou construir em terras de comunidades indígenas ou quilombolas e dá acesso a energia limpa para o pequeno cliente”, enumera.


Além do impacto, a expectativa é de um bom retorno para o fundo, que deve permitir o desinvestimento antes mesmo do prazo de 2025. Não é a empresa de maior retorno em termos percentuais, mas a que deve entregar mais recursos aos cotistas em termos absolutos, dada a alta exposição do fundo a ela.

A incerteza da regulação

Com o plano de 2021 assegurado pelas captações, o médio prazo da Órigo está turvado pela incerteza regulatória. Tudo vai depender do que sairá da votação do Projeto de Lei 5829, que está no Congresso.

O projeto propõe uma transição de 25 anos para acabar com os subsídios ao setor de energia solar distribuída, que hoje não paga pelo uso da infraestrutura de transmissão e distribuição. 

O CEO da Órigo diz considerar justo que as regras de compensação da energia gerada mudem. Mas, por razões óbvias, defende uma transição paulatina, nos termos do PL. 

Se for aprovado como está, prevendo que os projetos solares já existentes e em execução ficam na regra antiga e que haverá também um período de transição para a retirada completa do subsídio, Mendonça diz que o cenário para a Órigo é de forte crescimento nos próximos anos.

“Para os novos projetos, estamos nos preparando para sermos competitivos dentro das novas regras, com pagamento para as distribuidoras ao longo do tempo.” 

Caso sofra modificações que impliquem no pagamento acelerado às distribuidoras, tudo fica mais complicado.

No pior cenário, em que as geradoras solares tenham que pagar 100% do chamado “fio B” às distribuidoras imediatamente, a avaliação de Bellotti e de Mendonça é que a indústria solar distribuída como um todo fica comprometida.

Seja como for, daqui para a frente, avalia Mendonça, só as empresas mais eficientes ficarão na praça. “Todo mundo vai ter que se ajustar, quem não se ajustar é porque não está interessado em eficiência. Acabou o tempo de ficar na praia.”

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