Com doação de US$ 1,1 bi, Stanford terá escola de sustentabilidade

“Clima e sustentabilidade serão a nova ciência da computação”, afirmou o doador John Doerr, uma das lendas do capital de risco americano

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John Doerr, que fez fama e fortuna como um dos capitalistas de risco mais bem sucedidos da história do Vale do Silício, e sua mulher, Ann, anunciaram a doação de US$ 1,1 bilhão para criar uma nova escola na Universidade Stanford.

Mas a escola não vai ensinar tecnologia. A Stanford Doerr School of Sustainability, que começa a funcionar no ano letivo que se inicia em setembro, será a primeira nova faculdade da universidade em 70 anos.

“Clima e sustentabilidade serão a nova ciência da computação”, afirmou Doerr, um dos primeiros a fazer aportes em empresas como Netscape, Sun, Amazon e Google.

É a maior doação já feita à universidade californiana e a segunda maior da história das instituições de ensino dos Estados Unidos (em 2018, Michael Bloomberg doou US$ 1,8 bilhão para a Johns Hopkins).

 

A escola terá departamentos tradicionalmente ligados à ciência do clima, mas haverá ênfase em colaborações interdisciplinares para “desenvolver políticas de curto prazo e soluções tecnológicas”.

“A escolha da palavra ‘Sustentabilidade’ para o nome aponta a necessidade urgente de estudos e soluções novas e de alto impacto para incentivar um futuro sustentável”, afirma um comunicado da universidade.

A faculdade vai se concentrar em três áreas: Terra, clima e sociedade. Mas, dada sua localização – em Palo Alto, no coração do Vale do Silício –, é de esperar que o lado tecnológico da transição energética será relevante. Do campus de Stanford saíram algumas das cabeças e startups digitais mais conhecidas do mundo.

“É a isso que os jovens querem dedicar suas vidas, pelas razões corretas”, afirmou Doerr,  ao The New York Times. Ele diz que foi uma conversa com sua filha, há mais de 15 anos, que o fez prestar atenção ao problema da mudança climática.

Depois de assistir ao documentário “Uma Verdade Inconveniente”, de Al Gore, ela disse ao pai: “Sua geração criou o problema. É bom que o conserte”.

Àquela altura, Doerr, hoje com 70 anos, já era um investidor conhecido por suas apostas em startups que se tornariam gigantes globais. Em 2008, quando o iPhone tinha pouco mais de um ano de vida, ele afirmou que o smartphone seria “mais importante que o computador pessoal”.

Nos dois anos que precederam o estouro da bolha financeira, Doerr e o Kleiner Perkins Caulfield Byers, fundo do qual é chairman, começaram a investir em companhias ligadas à sustentabilidade.

Mas aquela primeira experiência foi um fracasso. Muitas das startups quebraram com a crise e a queda do preço do gás natural causada pela revolução do fracking, ou fraturamento hidráulico.

O setor de tecnologias limpas também exige aportes de outra ordem de grandeza – centenas, não dezenas de milhões de dólares. Doerr e seus colegas da Sand Hill Road “não entenderam os verdadeiros riscos científicos e técnicos” do segmento, segundo um artigo da Harvard Business Review.

Segundo ato

Passados mais de dez anos, o senso de urgência é maior.  “Essa é a década decisiva, e temos de agir com velocidade e escala máximas”, disseram John e Ann Doerr em comunicado publicado por Stanford.

Mas filantropia e investimento de risco são duas atividades muito diferentes. A escola, que também conta com cerca de US$ 600 milhões de outros doadores, será dirigida por Arun Majumdar.

Ex-conselheiro de Barack Obama e Joe Biden para assuntos energéticos, Majumdar afirmou ao NY Times que a missão da escola é entender a mudança climática, mas não fazer ativismo. “Não vamos entrar em política.”

Ele também afirmou que a escola vai aceitar eventuais contribuições de companhias de combustíveis fósseis. “Com as que quiserem se diversificar [buscando fontes alternativas] e ser parte da solução, estaremos abertos.”

A faculdade vai nascer com cerca de 90 professores de Stanford, e a intenção é acrescentar outros 60 na próxima década. Além de absorver institutos já existentes, como um dedicado ao meio ambiente, será criada uma nova entidade para tratar de temas como infraestrutura econômica e políticas de transição para um cotidiano sustentável.

A nova faculdade também terá uma aceleradora, com laboratórios para desenvolver tecnologias, mas também para aperfeiçoar ideias que possam ser aplicadas pelo poder público.

O casal John e Ann Doerr, cuja fortuna é estimada em US$ 11,3 bilhões, assinou o “Giving Pledge”, iniciativa criada por Bill Gates, sua ex-mulher, Melinda, e Warren Buffett para incentivar multibilionários a doar a maior parte de suas fortunas.

O investidor afirma que um de seus objetivos é inspirar doações semelhantes para o estabelecimento de mais escolas especializadas. “Assim como temos várias escolas de medicina, precisaremos de várias escolas de sustentabilidade para dar conta do problema”, afirmou ele.

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