Por que os conselhos são peça-chave das estratégias ESG

Conselheiros têm importância cada vez maior para exigir que temas ambientais, sociais e de governança tenham prioridade na agenda das empresas

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Outro dia estava lendo um artigo [1] sobre como o segundo maior fundo de pensão dos Estados Unidos está exigindo uma atuação mais incisiva dos executivos a respeito dos temas de diversidade e mudança climática. O mesmo texto citava também o caso emblemático do fundo Engine No.1, que conseguiu dois assentos no conselho de administração da Exxon Mobil para cobrar um compromisso maior com as energias renováveis.

Eu mesmo atuo como conselheiro de administração e do ano passado para cá tive diversas conversas com conselhos de outras empresas de capital aberto e fechado para entender quais são as demandas desses novos investidores e como colocar esses temas como pilares do planejamento estratégico. A pressão dos investidores é real, e agora faz parte do cotidiano da área de relação com investidores.

Quem me acompanha há mais tempo já deve ter ouvido eu comentar que as pessoas aderem à sustentabilidade por três “Cs”: convicção, conveniência ou constrangimento. Um exemplo de constrangimento: certa vez me pediram uma recomendação de um profissional de sustentabilidade. Quando fiz algumas perguntas para entender um pouco sobre o perfil que estavam buscando, recebi a seguinte resposta: “Não sei, só sei que não posso mais deixar de falar no assunto”.

Um dos pontos mais claros para observar o papel dos conselhos de administração é no aspecto de governança. As metas de sustentabilidade assumidas pela empresa se tornaram compromissos públicos, podendo estar diretamente ligadas ao desempenho das ações, incluindo a participação em índices de sustentabilidade, e até em operações de captação de recursos. É necessário que o conselheiro seja cada vez mais diligente, pois o risco reputacional e financeiro que um episódio de greenwashing pode causar é relevante.

Passando para a esfera ambiental, ter uma boa análise dos aspectos de ESG significa ter uma boa análise de risco, pois os efeitos das mudanças climáticas estão aí: secas prolongadas em algumas regiões, inundações em outras, eventos climáticos adversos acontecendo cada vez com uma frequência maior, impactando do agronegócio à indústria e ao setor de serviços. Sem contar a discussão sobre o custo da energia, que é real não só no Brasil como em outros países, principalmente agora diante de um contexto de guerra entre Rússia e Ucrânia.

Quando falamos de diversidade não só no conselho de administração, mas em todos os níveis hierárquicos das empresas, diversos estudos de universidades e consultorias renomadas comprovam que ela traz resultados financeiros positivos. Não se trata de abrir mão da meritocracia. Empresas mais diversas têm desempenho melhor. Que investidor será contra isso?

Pois bem, a janela de oportunidade está aberta, os investidores estão em busca de empresas com boas práticas de ESG, os pioneiros vão se beneficiar. Porque, em algum momento, o que hoje é visto como diferencial será prática corrente do mundo dos negócios. Cabe aos conselhos de administração garantir que as empresas estão mudando a tempo de aproveitar este momento.

[1] Institutional Investors are flexing their ESG Muscles

colunista-IMAGEM

Fábio Barbosa é CEO da Natura &Co, membro do conselho de administração da UN Foundation, foi presidente do Banco Real/ Santander.

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