ESG vem de berço: tempo de falar sobre o tempo

Múltiplas abordagens sobre o conceito de tempo enriquecem trocas entre adultos e pequenos, especialmente em uma data simbólica como a virada do ano

nove livros infantis para falar sobre o tempo
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“O meu amanhecer vai ser de noite”

(Verso do poema 'O livro sobre nada', de Manoel de Barros)

Todo ano um ano acaba e outro começa.

Adultos definem novos projetos e refazem velhas promessas. Crianças continuam com o mesmo plano: brincar ainda mais e colecionar descobertas, agora até o infinito. Ainda assim, infelizmente, nem todas podem realizar esse direito. Quando poderão? Em que momento?

Uma coisa todas elas têm em comum: levam alguns anos para conseguir se localizar no tempo. Têm dificuldade em entender seu ritmo, suas medidas e, sobretudo, seu tempo. Confundem o ontem, com o hoje e com o amanhã. Misturam o futuro e o passado. 

Anseiam pela chegada do aniversário, pelo dia da visita de alguém, para uma fase difícil acabar, mas não têm ideia de quantas vezes o sol precisa nascer até lá.

Precisam de rotina e de experiências para entender esse fenômeno que passa sem parar, mas que nunca vemos e sobre o qual não temos qualquer controle.

Coincidência ou não, a noção de tempo é básica para qualquer tipo de investimento. É também urgente para reverter o ritmo de uso e abuso dos recursos naturais, se quisermos ter um planeta no futuro. 

É essencial quando se pensa em saúde mental, cada vez mais deteriorada no Brasil, e nos seus efeitos de curto e longo prazo sobre a vida profissional e pessoal. 

É prioritária ao se refletir sobre o aumento da expectativa de vida do ser humano, que envolve desde o equilíbrio da previdência social à prática da generosidade, tema da coluna de outubro, no que se refere a olhar, ver e cuidar dos que estão à nossa volta.

A literatura infantojuvenil traz uma série de abordagens para estimular a conversa sobre esse senhor de todos nós, o tempo.

Temporina

Júlia Medeiros e Natália Gregorini (Ozé Editora, 2022)

Com um texto primoroso, cheio de graça e acessando sem descanso a imaginação dos leitores, as autoras apresentam Temporina, uma senhora que perde a cor logo depois de suas lembranças escaparem pela janela. Com a ajuda de Vô Cambeva, das crianças e de personagens mágicos,  Temporina inicia uma jornada rumo à restauração de suas memórias. 

A empreitada só é bem sucedida depois de seu reencontro com o realejo, recuperado pelas hábeis mãos de Vô Cambeva. O encontro entre os dois reativa as lembranças que um tem do outro e as cores voltam a invadir a vida de Temporina. Um livro sobre recordações e sobre o amor, que reforça a importância da fantasia e da magia na infância.

Aqui estamos nós

Oliver Jeffers (Editora Moderna, 2019)

Inspirado pelo nascimento do filho, o escritor e ilustrador australiano Oliver Jeffers decide criar um livro no qual conta, para o bebê, onde estamos e como funciona a vida na Terra. As explicações giram em torno de elementos físicos e geográficos, que estão aqui há milhões de anos, e trazem lições de sobrevivência nesse lugar tão imenso e cheio de gente, para que a vida perdure. 

Sua maior lição é a de que não estamos sozinhos. Portanto, diversidade, tolerância, respeito e partilha são conceitos-chave para viver bem neste lugar. 

Sem ser citado, o fenômeno tempo permeia o livro de maneira direta e indireta, nos levando a refletir sobre sua passagem. Afinal, a Terra não para de girar nem durante essa leitura. Além disso, tem como interlocutor um bebê - quer símbolo maior de tempo? - com muita vida e aventuras pela frente, nesse planeta tão especial.

A obra recebeu o selo de Altamente Recomendável da FNLIJ, em 2019, na categoria Tradução, Adaptação, Informativo e foi um dos 30 melhores livros do ano, segundo a revista Crescer.

Tudo em inho

Ronaldo Simões Coelho e Santiago Régis (Mazza Edições, 2022)

Um livrinho bonitinho e engraçadinho. Falar no diminutivo, especialmente com crianças, é um clássico na língua portuguesa, especialmente entre brasileiros. Estrangeiros estranham. Acham engraçado. Para nós, culturalmente, é um carinho.

Um menininho inicia cedinho um longo caminho até chegar em casa para ouvir seu avô ler para ele um versinho. Esse livrinho fala sobre a passagem do tempo, o crescimento e o amadurecimento. 

O menininho que começou sua jornada com uma bicicleta de rodinhas, logo logo não precisará mais desse apoio. E tão logo deixará de ser criança. 

Publicado pela Mazza Edições, especializada em obras da cultura afro-brasileira, especialmente de autoria negra, ele foi ilustrado por Santiago Régis, do Maranhão. 

O pássaro encantado

Eliane Potiguara e Aline Abreu (Jujuba, 2014)

Pela perspectiva de uma criança pequena, os avós são, provavelmente, seu primeiro contato com um tempo mais longínquo. Na cultura indígena, esse vínculo com os idosos e com a sabedoria e a memória que carregam dentro de si é ainda mais marcado e valorizado.

 Os avós, para os povos indígenas, chegam a ser mágicos. Trazem aos mais novos costumes e ensinamentos que aprenderam também com seus avós e têm a missão de manter vivos ao longo de gerações. São os guardiões da oralidade e das histórias que se transmitem sem livros. 

Essa obra explora a figura poderosa e mágica de uma avó, com ilustrações cheias de movimento e de tirar o fôlego, de Aline Abreu.

As linhas no rosto de Nana

Simona Ciraolo (FTD, 2020)

A premiada autora e ilustradora italiana propõe uma história de vida contada por meio de cada uma das rugas no rosto de uma avó. Cheia de curiosidade, a neta quer entender o que são e por que tantas linhas estampam o rosto de Nana. 

Uma história delicada, com ilustrações cheias de afeto, que fala sobre o envelhecimento sob uma perspectiva realista e sobre o quanto as marcas do tempo podem representar momentos alegres e divertidos, que vão compondo a trajetória de cada um. 

O livro recebeu o selo de Altamente Recomendável da FNLIJ, em 2020, e trata o tempo como um bom companheiro de aventuras! 

Só mais cinco minutos

Marta Altés (Brinque-Book, 2021)

A premiada autora espanhola mostra nesse livro como pais e filhos podem ter perspectivas completamente diferentes sobre o tempo. Um pai sempre atrasado e apressado e dois filhotes brincando com cada instante marcam situações da vida doméstica de formas variadas e divertidas. 

Fato é: crianças sempre têm tempo para uma travessura a mais, para uma observação inédita ou para uma diversão. Para os pais, os dias são longos, e os anos, curtos. O narrador é uma das crianças. Seu objetivo: explicar ao pai o significado do tempo e como tirar o melhor proveito dele.

O urso contra o relógio

Joelle Jolivet e Jean Luc Fromental (FTD, 2020)

Uma versão infantil das dificuldades pelas quais passam todos os adultos: não conseguir fazer tudo caber em um dia de “apenas” 24 horas, ser engolido pelo tempo, procrastinar, compromissos demais, problemas de organização. 

Um urso dorminhoco e sempre atrasado ganha um relógio para tentar melhorar sua relação com o tempo e, consequentemente, sua qualidade de vida. 

Ele também aprende a ler as horas (num relógio analógico) e a obra dedica um bom espaço, didático, a esse aprendizado. O objetivo é que ele se torne amigo do tempo. Algum adulto que você conhece já conseguiu? 

O pato, a morte e a tulipa

Wolf Erlbruch (Cosac & Naify, 2009)

Publicado no Brasil pela extinta Cosac & Naify, em 2009, este livro está esgotado. Porém, ainda é possível encontrá-lo no exterior, em livrarias físicas e na internet, a preços aceitáveis. Vale o investimento. Escolha o idioma mais fácil para a família.

A obra aborda a chegada da morte. Tema tabu e intimamente ligado à finitude do tempo, ele é apresentado ao leitor de maneira inusitada. Ao conhecer o pato a quem deveria levar, a morte se encanta com ele. Permite-se esquecer do tempo e desfrutar um pouco da vida. É gentil e dá a ele, o pato, mais tempo. Poético, profundo e com ilustrações que encaminham o leitor com delicadeza à reflexão. Rende conversas, perguntas, respostas, 'não seis' e profundos suspiros.  

Um vídeo animado resume a história

O autor, que recebeu em 2006 o prêmio Hans Christian Andersen pelo conjunto de sua obra (a maior distinção internacional dada a autores e ilustradores de livros infanto-juvenis), faleceu no começo de dezembro. 

Cantigas por um passarinho à toa

Manoel de Barros e Kammal João (Companhia das Letrinhas, 2018)

Não poderia faltar nesta seleção um livro para esquecer o tempo. O poeta modernista de Mato Grosso, falecido em 2014, é quem melhor representa essa ideia na literatura infantil brasileira. 

Escrevia sobre a existência de forma muito profunda, com a atenção voltada para o que encontrava no chão e para as miudezas da vida, fortemente influenciado pela natureza. Tinha tempo. 

Formado em direito e dedicado, a partir de determinada fase da vida, à fazenda de gado da família no Pantanal, recebeu o Prêmio Jabuti em 1989 e em 2002. Com linguagem simples e coloquial, encanta crianças de todas as idades, de 0 a 99 anos, e tem esse poder mágico, de fazer esquecer o tempo. 

Neste livro de poemas para crianças, ele cria um mundo de fantasia e sugere imagens non sense que divertem e levam longe qualquer leitor, fazendo-o esquecer de seus relógios, agendas e despertadores.

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PS: Especialmente por esta publicação estar numa plataforma sobre negócios de impacto, gostaria de convidá-los a refletir sobre o peso de uma livraria independente, especialmente de rua, na vida de um bairro. O que ela representa? Que papel exerce? Como se relaciona com seu entorno?

Sempre que possível, compre seus livros em uma livraria. Dê-se o tempo e o prazer de circular por uma e prestar atenção no seu catálogo, nos seus funcionários, na sua história. Feliz Ano Novo, cheio de boa literatura!

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Paula de Santis é Jornalista, escritora e mãe do Rodrigo e da Alice. Em 20 anos de carreira, escreveu sobre economia e finanças para Gazeta Mercantil, Estadão, Folha e Época. Pós-graduada em O Livro para a Infância, d'A Casa Tombada, publicou, de forma independente, sua primeira obra infantil “O brilho do escuro”, disponível em sete livrarias de rua em São Paulo. Hoje mora na França.

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