ESG vem de berço: Como falar de dinheiro com as crianças 

Planejamento, longo prazo, frustração, consumo consciente: Nove livros infantis para falar de dinheiro, além das cifras

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Falar sobre dinheiro é mais do que falar sobre cifras. Essa palavra e conceito tão presente no cotidiano das famílias precisa ganhar corpo, cara e coroa para as crianças. 

Elas precisam descobrir de onde ele vem, quanto vale, como se usa e como se guarda. É uma forma de falar de planejamento, de consumo consciente, de como lidar com a frustração – e, ainda, de como ser gratas pelo que têm. 

Nasce a educação financeira.

Outro dia presenciei uma discussão entre pai e filha de 11 anos sobre o melhor lugar para guardar os R$ 20 que ela havia juntado. Ele insistia que era no banco. Ela queria porque queria encher a carteira nova. 

Ao ouvir que perderia dinheiro deixando em casa, deu a resposta clássica: "Vinte reais no banco e vinte reais na carteira são sempre vinte reais. Não perco nada, ué!"

Pronto, eis uma oportunidade de falar sobre educação financeira em nível avançado: inflação, investimento, risco e retorno. 

Os três potinhos

O canal Educação Financeira na Infância (@educacaofinanceiranainfancia), no Instagram, foi criado por duas mães empreendedoras, profissionais que já passaram pelo mercado financeiro, Lu Santos e Lúcia Stradiotti, autoras do livro "Muito Além da Mesada" (para os adultos). 

Elas propõem a técnica de ter três potinhos ou envelopes, todos transparentes, para ajudar a criança a administrar o dinheiro, com reforço visual.

No primeiro pote, fica o dinheiro para gastar no dia-a-dia, em que a criança deve ter autonomia para tomar as decisões. No segundo, fica parte do dinheiro destinado a um objetivo de longo prazo. Exercício de paciência e compreensão de que as coisas têm seu tempo. 

O terceiro pote é uma oportunidade de desenvolver valores solidários.

A criança pode deixar nele a parte do dinheiro que pretende doar para alguém, para uma causa ou para uma instituição. É importante que ela aceite essa sugestão porque de fato concorda com ela. Se não aceitar, basta continuar incentivando e sendo exemplo.

Literatura infantil para educação financeira

Inspirado pela mãe, Caio Stradiotti Concetta, filho de 10 anos da Lúcia, escreveu e publicou seu primeiro livro: A Calculadora que fez História (Editora Matrioska, 2022).

Está aprendendo a administrar o dinheiro que recebe com a venda dos livros, além de ganhar noções de empreendedorismo, caixa, estoque, discussão de prioridades, conexão entre trabalho e tempo e realização de sonhos.

Os livros abaixo trazem outras histórias sensíveis, políticas e divertidas para que os pequenos entendam ideias às quais nos referimos quando falamos de finanças pessoais: fazer um pé-de-meia, estar com a corda no pescoço, dar um passo maior que a perna, ter as contas redondinhas, dinheiro suado e mão de vaca, entre outras. Bom divertimento!

A menina, o cofrinho e a vovó

Cora Coralina e Cláudia Scatamacchia (Global Editora, 2009)

Conta a história de uma avó que vive longe da família e começa a trabalhar para enfrentar dificuldades financeiras. Com determinação, dribla dificuldades, usa utensílios emprestados e vai progredindo. Até que um dia compra uma geladeira a prestação e recebe da neta o dinheiro de suas economias para pagar o eletrodoméstico.

Como se fosse dinheiro

Ruth Rocha e Mariana Massarini (Editora Salamandra/Moderna, 2010)

Por meio de uma história divertida e uma provocação inusitada, mostra que não é preciso ter vergonha de falar sobre dinheiro quando necessário. Aborda ainda temas como honestidade, esperteza e coragem.

Catapimba sempre recebia uma bala no lugar do troco quando comprava seu lanche na cantina da escola. A explicação do comerciante era “é como se fosse dinheiro…”. Um dia cansou-se e resolveu pagar seu lanche com algo “como se fosse dinheiro”. Houve praticamente uma revolução! 

Para que dinheiro

Ziraldo (Editora Globinho, 2017)

Por meio de sete histórias em quadrinhos, o almanaque traz a Turma do Menino Maluquinho envolvida em curiosidades e dificuldades financeiras para descobrir e resolver. Os temas vão desde o surgimento da moeda e o comércio de mercadorias antigamente até como fazer o orçamento doméstico. Passam pelo funcionamento dos bancos, o surgimento do salário e mecanismos de oferta e procura. Por meio deles, a turma da história vai aprendendo a usar e a poupar o dinheiro.

"O Capital" para crianças

John R. Riera e Liliana Fortuny (Editora Boitatá, 2018)

Inspirado na obra O Capital, de Karl Marx, o livro conta a história de um garotinho que vai para a cidade de Liverpool, na Inglaterra, e começa a trabalhar numa confecção de meias. Certo dia, vê a mesma meia que havia produzido por alguns centavos à venda numa feira, por um preço muito mais alto. Começa a investigar por conta própria as razões por trás dessa diferença.

O livro apresenta para os pequenos as ideias do filósofo alemão por meio de sua obra mais importante, assim como seu impacto para a história, a política e a sociedade. Fala sobre o capitalismo, a luta de classes e o trabalho. No final, traz uma lista de perguntas para dar um empurrãozinho nas reflexões.

Por que os gatos não usam chapéu

Victoria Pérez Escrivá e Ester García (Editora Livros da Matriz, 2015)

Essa dupla de espanholas criou um livro ilustrado para provocar adultos e crianças. Gatos não usam chapéu porque uma vontade ou uma “necessidade” puxa a outra. E assim, o consumo não tem fim. As armadilhas do mercado e do marketing às vezes bloqueiam nossa capacidade de reflexão e deixam as decisões impulsivas predominarem. 

Cofrinho da Carlota

David McKee (Editora WMF Martins Fontes, 1996)

Do premiado autor David McKee (já citado nesta coluna em maio), o livro infelizmente está esgotado na editora. Optei por mantê-lo na lista porque os interessados podem pedir para ser avisados sobre uma reedição no site, além de poder encontrá-lo em sebos e bibliotecas.

Carlota ganha um cofrinho da tia e não fica muito satisfeita com o presente até descobrir que pode realizar desejos com as economias que faz. Mas quando o cofre fica bem cheio, o porquinho cria asas e sai voando pela janela…

O Capital

Afonso Cruz (Sesi-SP Editora, 2014)

Vencedor do Prêmio Nacional de Ilustração de Portugal, a obra, publicada originalmente pela editora portuguesa Pato Lógico, não tem texto. A narrativa do célebre autor português se dá unicamente por ilustrações que mostram a evolução da vida de um menino que ganhou um cofrinho do avô. Sem jamais deixar de alimentá-lo, o porquinho vai crescendo, sem limites. O final vale muitas moedinhas!

Caio achou uma moedinha

Gabriela Pelli Ribeiro dos Santos e Natália Mastrela (Instituto Sicoob, 2020)

A obra mostra as reflexões do menino Caio sobre o que gostaria de comprar enquanto economiza suas moedas. Aborda especialmente um objetivo de longo prazo muito especial para ele. No final do livro, são propostas algumas atividades para tornar ainda mais familiar a relação da criança com dinheiro, valores e compras.

Este livro faz parte da Coleção Financinhas, composta por três histórias, todas disponíveis em pdf no link. Elas foram publicadas pelo Instituto Sicoob, criado em 2004 no Paraná, com o objetivo de difundir a cultura cooperativista e contribuir para o desenvolvimento sustentável de comunidades. A organização é mantida pelo banco Bancoob e pelo Sicoob, instituição financeira cooperativa.

O capitalismo explicado às crianças

Jean Ziegler (Editora Cortez, 2021)

Aos 88 anos, o autor desse livro se considera revolucionário. Professor de sociologia aposentado pela Universidade de Genebra, conhecido intelectual suíço, foi deputado federal e relator-especial da ONU sobre Direitos à Alimentação. Hoje é membro do Conselho de Direitos Humanos da organização. 

A obra trata do predomínio do capitalismo sobre qualquer outro sistema econômico no planeta e do quanto empresas privadas vêm tornando-se maiores que os Estados e exercendo poderes ilimitados em nome do lucro. As consequências sociais, ambientais e econômicas são desastrosas.

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Paula de Santis é Jornalista, escritora e mãe do Rodrigo e da Alice. Em 20 anos de carreira, escreveu sobre economia e finanças para Gazeta Mercantil, Estadão, Folha e Época. Hoje mora na França e cursa a pós-graduação O Livro para a Infância, n'A Casa Tombada.

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