Dia de combate à homofobia: livros para falar de diversidade e inclusão com as crianças

Os livros deste mês não trazem respostas. Trazem histórias. De encantamento, de descobertas, de famílias com desafios como todas as outras, de identidade, de segredos, de autoestima, de dúvidas e também de crianças sem preconceitos

Compartilhar
 

Há 32 anos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) corrigia um erro histórico, retirando a homossexualidade da lista internacional de doenças. Foi assim que 17 de maio se transformou numa data simbólica: o Dia Internacional contra a Homofobia, a Transfobia e a Bifobia. Um dia que representa a luta por direitos humanos e pela diversidade sexual, contra a violência e o preconceito. 

Ainda que essa decisão tenha trazido alívio para muitos, ela foi insuficiente. O Brasil ainda é o país que mais assassina pessoas trans no mundo, seguido pelo México e pelos Estados Unidos, segundo o relatório Trans Murder Monitoring, atualizado em janeiro deste ano. 

Para muitos, o assunto pode ser áspero ou constrangedor, mas permanece extremamente necessário e urgente para a pauta de conversas familiares – quaisquer que sejam suas composições. 

Ele está presente hoje, agora, nas casas, nas empresas, nas escolas e nas ruas. Faz parte da sociedade e da vida.

E nenhuma palavra combina mais com vida do que criança. E o que acontece na e com a vida – dela, de seus pais, de seus colegas de escola, de familiares ou mesmo de personagens de histórias e filmes – diz respeito à criança. 

O que muda, sempre, é a abordagem: como dizer e o que dizer, conforme a maturidade e a experiência de cada um.

Os livros deste mês não trazem respostas. Trazem histórias. De encantamento, de descobertas, de famílias com desafios como todas as outras, de identidade, de segredos, de autoestima, de dúvidas e também de crianças sem preconceitos. Enfim, histórias da vida. O objetivo de todos eles é provocar reações, perguntas e conversas.

Servem também para ajudar adultos (caso prefiram lê-los antes de apresentá-los às crianças) a definir seu posicionamento no mundo. Para mostrar, dentro e fora de casa, qual é a sua visão. Sem medo, sem vergonha, sem violência, sem desrespeito, mas sobretudo com orgulho.

Inspiram a reflexão sobre o que nós, adultos, vamos oferecer às crianças que nos rodeiam. Afinal, nem sempre tudo acontece naturalmente. E, muitas vezes, um empurrãozinho é o suficiente para abrir uma grande porta. Ao ousar entrar, com respeito, cuidado e coração aberto, descobrimos coisas que nem imaginávamos passar pela cabeça dos pequenos.

Uma boa dose de literatura

Para começar, sugiro Olívia Tem Dois Papais, de Márcia Leite e Taline Schubach, pela Companhia das Letras. É no dia-a-dia comum dessa família que vamos conhecer a esperteza de Olívia para conseguir a atenção de seus dois pais, um deles especialista na cozinha e o outro, muito bom em brincar de boneca. 

Ela também tem muitas dúvidas. Entre elas, como será transformar-se numa mulher numa casa em que não há mulheres? O livro propõe de maneira muito delicada discussões sobre gênero, estereótipos, os papéis do homem e da mulher na sociedade e questões profundas de identidade. 

O que nos define? O que faz de você, você? Calma, não precisa de roteiro nem de ppt pronto antes de ler com a criança. Pergunte, imaginem juntos, devolva perguntas, fale sobre você ou sobre a história de alguém próximo. Será revelador.

Em seguida, o imperdível Pode Pegar, da escritora e ilustradora Janaína Tokitaka, pela Boitatá, selo infantil da editora Boitempo. Nessa obra, a autora brinca com os estereótipos, praticamente ignorando a “tradição” e os preconceitos dos adultos. 

Um coelho e uma coelha, irmãos, começam a compartilhar suas roupas conforme sua função prática para a brincadeira e para a fantasia. Mostra que as crianças aprendem o que são ensinadas. Quem foi mesmo que começou com essa conversa de que existe roupa de menino e roupa de menina? Aproveite essa história para uma brincadeira bem divertida pensando em que outras utilidades as roupas e acessórios podem ter!

Elmer – O Elefante Xadrez, do ícone David Mckee (falecido em abril deste ano), vendido no Brasil pela editora Martins Fontes, é um clássico da literatura infantil. Foi lançado pela primeira vez em 1968, na Inglaterra. Virou uma das séries mais marcantes e lidas dos últimos tempos, com mais de 10 milhões de exemplares comercializados no mundo. No total foram 29 histórias originais, traduzidas em mais de 60 idiomas. 

Nessa obra, um elefante bem-humorado não conseguia se sentir parte do grupo porque não tinha cor de elefante. Tentou mudar para ser aceito, mas só conseguiu ficar bem quando assumiu seu estilo xadrez colorido e irregular, uma analogia às imperfeições e à pluralidade da vida. Um fenômeno infantil da diversidade e inclusão!

Premiadíssimo, Julián É Uma Sereia, da escritora e ilustradora norte-americana Jessica Love, também da Boitatá, é mais uma obra indispensável nessa lista. Para começar, as ilustrações são de tirar o fôlego. Dá para ficar muito tempo em cada página apenas por elas. 

O livro conta a história de um garoto que se sente inspirado a se vestir como uma sereia, ainda que tenha alguma apreensão em relação à opinião da avó. Trata de individualidade, diversidade e levanta a bola essencial do apoio familiar. 

Ganhou o prêmio da Feira Internacional do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha em 2019, na categoria Obra Prima, recebeu no mesmo ano o Stonewall Book Award, que premia livros com a temática LGBTQI+ e o Waterstone Children’s Book Prize, que condecora revelações na literatura, entre muitos outros.

Maremoto, de Flavia Reis e Elisa Carareto, pela Ozé Editora, mostra um mundo mágico, por meio de ilustrações delicadas e leves, habitado por tritões e sereias. Um desses tritões, porém, além de ser metade peixe, metade humano, vive um conflito de sentimentos e emoções e busca descobrir quem é. 

O livro tem formato horizontal e o virar de páginas acontece na vertical, levando o leitor da superfície ao fundo e vice-versa, a cada movimento. O fundo é mais escuro, mais misterioso. A superfície, mais iluminada. Não à toa. Num mundo tão dividido, encontrar sua identidade não é tarefa banal. Talvez seja preciso viver um verdadeiro maremoto para poder voltar a respirar na superfície, de forma leve e com orgulho de si mesmo.

Para concluir, Menino Perfeito, de Bernat Cormand, espanhol de Barcelona, ilustrador e autor, pela Livros da Matriz. Texto e imagens competem em delicadeza e disputam o espaço da página com o vazio e o silêncio, propositais. Servem para dar tempo à reflexão e ao sentimento do leitor ao ser apresentado a um menino impecável, que atende às expectativas de todos, em todos os aspectos. À noite, porém, algo acontece. Esse segredo será compartilhado apenas com o leitor. Por enquanto.

“Os livros para crianças podem contribuir a mudar as atitudes e a ajudar os mais jovens a definir sua visão de mundo. Os livros de imagens são a porta de entrada de uma criança no mundo da arte e, de certa maneira, especialmente nos meus livros, as ilustrações são mais importantes que a história”, David Mckee (autor de Elmer, O Elefante Xadrez, 1935-2022).

Créditos da foto: Ilustrações de Jessica Love em 'Julián É Uma Sereia' (Divulgação)

colunista-IMAGEM

Paula de Santis é Jornalista, escritora e mãe do Rodrigo e da Alice. Em 20 anos de carreira, escreveu sobre economia e finanças para Gazeta Mercantil, Estadão, Folha e Época. Hoje mora na França e cursa a pós-graduação O Livro para a Infância, n'A Casa Tombada.

A melhor cobertura de negócios e finanças sustentáveis

Contribua com o Reset e ajude a construir a mudança.