Democracia, eleição e justiça social em livros para crianças. Por que não?

Todos estes temas se baseiam em um único conceito: escolhas. E criança aprende a escolher muito cedo

Compartilhar
 

2022 é ano de eleição. Além do Brasil, França, Colômbia, Costa Rica, Austrália, Estados Unidos, Filipinas e Coréia do Sul escolhem presidentes e membros do parlamento neste ano. Portugueses fizeram sua escolha em janeiro.

Os resultados dos pleitos indicarão por onde caminhará o mundo nos próximos anos, influenciado principalmente por suas principais potências econômicas e políticas. Espera-se também delas iniciativas que olhem para o meio ambiente, para a governança e para a justiça social como partes indissociáveis de questões mercadológicas.

Mas isso não é assunto de criança...

Por que não?

A maneira como serão tratados cada um destes temas pela política, pelos negócios e pela sociedade civil baseia-se em um único conceito: escolhas. E criança aprende a escolher muito cedo.

Os pequenos em situação econômica confortável veem a injustiça social pela janela do carro, do ônibus escolar, na porta dos comércios, etc. Outros, em situações menos privilegiadas, se deparam com ela também dentro de casa, na casa dos vizinhos, na escola.

Quem nunca precisou responder perguntas como: o que é um mendigo? Cadê a mamãe e o papai dele? Por que a gente não dá dinheiro para essas pessoas que estão na rua? 

A Organização das Nações Unidas (ONU) proclamou em 2007 o dia 20 de fevereiro como Dia Mundial da Justiça Social. E definiu o princípio da Justiça Social como central na sua missão mundial de buscar o desenvolvimento e a dignidade humana.

Justiça Social é um conceito complexo e também polêmico. Tentando ser simples e correndo o risco de ser imprecisa, consiste em reconhecer as desigualdades econômicas e sociais e levá-las em consideração na hora de decidir o que é justo. Cabe ao Estado, às empresas e às organizações da sociedade civil o compromisso de criar políticas, iniciativas e projetos que busquem sempre a eliminação desse tipo de injustiça. Ou seja, cabe a todos nós fazer escolhas que nos levem à Justiça Social.

Justiça Social na literatura Infantil

“Juntos e Misturados, uma história de galinhas”, de Laurent Cardon, foi lançado na França em 2016 e no Brasil em 2020, pela WMF Martins Fontes. O livro trata do desaparecimento de um galo e de uma galinha e do alvoroço no galinheiro criado a partir de uma provável falha na segurança.

Galos e galinhas discutem como resolver o problema, mirando, tudo indica, um inimigo comum. O fim é surpreendente e as situações análogas às muitas vividas pelo brasileiro hoje. Cabe a cada criança, a partir de sua experiência como leitora e de sua maturidade, interpretar os acontecimentos e propor também sua solução. 

Laurent Cardon é francês e mora em São Paulo desde 1995. Escreve, ilustra e ganha prêmios com suas obras infantis. A história das galinhas ganhou os prêmios franceses Prix Cultura 2016 e Prix des Incorruptibles 2017 e já foi traduzido para nove idiomas. 

A obra oferece uma lista longa de temas a explorar: desigualdade de raça, de gênero, moral, ética, justiça, debate e participação, lutar ou se proteger, etc. Faça suas escolhas ou mergulhe em todos eles.

Eleições para crianças

Outro livro que trata da importância da participação popular nas escolhas que impactarão diretamente nossas vidas é “A Eleição dos Bichos”, da Companhia das Letrinhas, escrito por Pedro Markun e Paula Desgualdo e ilustrado por Larissa Ribeiro e André Rodrigues (a imagem acima foi retirada do livro).

Fartos dos abusos do leão, os animais da floresta organizam uma eleição para decidir quem será o próximo rei. O livro foi desenvolvido com crianças, em oficinas pelas  quais conheceram e participaram da criação de todas as etapas de um processo eleitoral.

Os artistas também se inspiraram em materiais de campanha reais da história da democracia no Brasil para desenhar “santinhos” e cartazes para os bichos candidatos. Um livro divertido e cheio de arte gráfica, que suscita debates sobre diversidade, democracia, justiça e moral. Foi lançado em 2018, na última eleição presidencial no Brasil.

Viva a democracia

Impossível não recomendar também a coleção Livros para o Amanhã, com quatro volumes, lançada entre 2015 e 2017 pelo Boitatá, selo infantil da editora Boitempo.

A Democracia pode ser assim, A Ditadura é assim, O que são classes sociais? e As Mulheres e os Homens (indisponível atualmente) são escritos de forma muito simples e direta. Associam os conceitos discutidos ao cotidiano da criança, por meio do texto e  das belas ilustrações, levando naturalmente à sua compreensão, sem ser maçante ou pedagógico demais. Propõe conversas e inspira reflexões interessantíssimas em casa ou na escola.

Os textos têm mais de 40 anos e continuam atuais, pertinentes e necessários. O projeto original foi desenvolvido pela editora catalã La Gaya Ciencia entre 1977 e 1978, três anos após a queda do ditador espanhol Francisco Franco. Depois de anos fora de catálogo, os livros, escritos por uma equipe multidisciplinar, foram relançados este ano na Espanha pela editora Media Vaca, de Valência, com novas ilustrações de artistas contemporâneos. A edição brasileira traz textos complementares: do filósofo Leandro Konder, sobre a democracia, e do sociólogo Ruy Braga, sobre a ditadura.

Os invisíveis

Para terminar, uma sugestão para leitores sem idade: Os invisíveis, de Tino Freitas e Odilon Moraes, lançado pela Companhia das Letrinhas no ano passado.

Em sua segunda edição, agora ilustrada por Moraes, o livro fala sobre o superpoder de um menino, o único na sua família que consegue ver seres invisíveis, especialmente para os adultos. Os desenhos são simples, feitos apenas com caneta Bic em papel Canson, mas têm também um superpoder: o de posicionar o leitor no lugar daqueles que não podem ver. 

Garis, idosos e moradores de rua fazem parte da invisibilidade social. O ritmo lento da leitura, marcado pelas imagens e pelas palavras estrategicamente posicionadas nas páginas, favorece o reconhecimento dessa fraqueza (a de não poder ver) pelo próprio leitor.

Mas o livro transcende essa ideia e propõe uma reflexão sobre a invisibilidade existencial. Afinal, podemos todos, em algum momento, nos tornar invisíveis. Seja pela pobreza, pelo envelhecimento, por uma doença ou por uma fragilidade emocional.

É uma obra de arte, cheia de poesia, que cutuca sem dó o automatismo e a “normalidade” da vida.

colunista-IMAGEM

Paula de Santis é Jornalista, escritora e mãe do Rodrigo e da Alice. Em 20 anos de carreira, escreveu sobre economia e finanças para Gazeta Mercantil, Estadão, Folha e Época. Hoje mora na França e cursa a pós-graduação O Livro para a Infância, n'A Casa Tombada.

A melhor cobertura de negócios e finanças sustentáveis

Contribua com o Reset e ajude a construir a mudança.