A faísca que falta para o ecossistema de startups amazônicas

Para garantir equilíbrio e prosperidade em um ecossistema natural, é fundamental que existam relações de cooperação entre os diversos elos da cadeia – e isso também vale para o mundo dos negócios

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O ecossistema de negócios de impacto no Brasil, embora jovem e ainda pequeno, tende a crescer e muito. A crise humanitária que enfrentamos nos últimos anos gerou uma pressão enorme por maior responsabilidade e desempenho social e ambiental em nossas empresas.

O tamanho do “mercado” pode ser medido pela longa lista de problemas sociais e ambientais que enfrentamos em nosso país. Aos olhos de empreendedores sagazes e com propósito, cada um deles representa uma grande oportunidade de negócio.

No entanto, quando ouvimos as histórias e percebemos os resultados da atuação dessas empresas – muitos deles noticiados aqui no Reset –, fica clara a quantidade de barreiras e desafios adicionais que eles enfrentam para prosperar como negócios e ainda gerar os impactos sociais e ambientais positivos que são parte de sua missão.

Muitas dessas histórias nos revelam a fascinante jornada de empreendedores e empreendedoras que decidiram abandonar carreiras tradicionais e dedicar sua vida e força de trabalho a criar uma empresa de impacto para ajudar a construir um mundo melhor.

A relação com investidores, que na maioria das vezes se inicia dentro da própria família ou no círculo de amigos. A falta de capital, que geralmente é superada com jornadas de trabalho dobrado, virando noites para colocar o negócio de pé. A recompensa geralmente vem com a missão cumprida, nos sorrisos de uma comunidade impactada ou à sombra de uma agrofloresta plantada para produzir alimentos.

Mas uma parte dessa equação costuma ser deixada de lado nas narrativas de muitos negócios de impacto: o fundamental papel do ecossistema de apoio a essas empresas.

Ele é composto por fundações e institutos filantrópicos, governos e organizações do terceiro setor, universidades e incubadoras tecnológicas, aceleradoras e investidores, veículos de comunicação e diversas empresas especializadas, como escritórios de advocacia, agências de comunicação e marketing, consultorias em contabilidade, empresas de logística e transporte, entre outras, que se dedicam a semear e sustentar o ecossistema.    

Um grupo em especial se dedica a planejar e apoiar a jornada inicial de crescimento dos negócios, ajudando os empreendedores a compreender e priorizar suas necessidades, incubar ideias e projetos iniciais, acelerar o desenvolvimento de produtos, desenvolver matrizes de impacto e se preparar para abordar investidores e fazer pontes com o mercado.

São os chamados dinamizadores, geralmente incubadoras e aceleradoras, que proliferam cada vez mais nas regiões mais estratégicas do país. Eles ajudam os empreendedores a pensar seus negócios e, muitas vezes, a enxergar novas possibilidades para aumentar o impacto socioambiental de seu produto e o valor de sua empresa para a sociedade.

Múltiplos dinamizadores

Na Amazônia, minha área de atuação há quase 20 anos, os dinamizadores já existem há bastante tempo, mas atendiam por outros nomes. Antigamente se limitavam a algumas poucas organizações não-governamentais, universidades, associações e cooperativas dedicadas principalmente à conservação das florestas e a apoiar o trabalho de povos indígenas e comunidades tradicionais.

Hoje em dia, vejo com esperança a proliferação de um número crescente de organizações que cumprem esse papel. As oportunidades para apoiar negócios de impacto na Amazônia têm se multiplicado e se diversificado nos últimos anos, na forma de editais, chamadas e aportes de capital público, privado e filantrópico, muitas vezes misturados para compor arranjos de financiamento mais eficientes (o chamado blended finance), o que é muito bom para os negócios que atuam com foco na conservação e restauração da floresta.

A Amazônia é grande e megadiversa em aspectos naturais, sociais, políticos, culturais e econômicos. Costumo dizer que não existe bala de prata. É preciso somar e coordenar recursos e conhecimento de todos os lados, sempre com ambição e visão de longo prazo. Não podemos nos contentar com projetos de curto prazo e “programas de prateleira”, feitos para gerar números e relatórios.  

O trabalho dos dinamizadores precisa compreender profundamente as necessidades de cada negócio e apoiá-lo “com a mão na massa”, durante toda sua jornada de desenvolvimento. Estar presente quando ele mais precisa. Ajudá-lo a tomar as decisões mais difíceis no momento certo, para seguir crescendo na busca por aportes de grandes (e bons) investidores, aumentando assim sua escala de impacto positivo.

Os perfis dos empreendedores da Amazônia são muito variados. Muitos são nativos da própria região, outros são importados de outras partes do Brasil e do mundo. Alguns trazem ideias disruptivas e tecnologias ainda não testadas no mercado, outros sequer são formalizados, e há também aqueles que já estão em estágios um pouco mais avançados.

Competição sim, canibalismo não

É aí que entra o conceito do “ecossistema” em sua origem mais literal e ecológica. Para garantir equilíbrio e prosperidade em um ecossistema natural, é fundamental que existam relações de cooperação entre os diversos elos da cadeia alimentar. Claro, existirá competição – e em alguns níveis isso é desejável – mas não canibalismo.

Da mesma forma, em um ecossistema de negócios, os dinamizadores devem se articular e trabalhar de modo integrado para o apoio e fomento a esses negócios em diferentes estágios, contribuindo para que o pipeline se multiplique e esteja pronto para escalar e receber mais investimentos. 

Já sabemos que não faltam investidores interessados em negócios de impacto, em especial nesse momento em que o ESG fala alto às empresas. No entanto, existe ainda descompasso entre as expectativas dos investidores e as necessidades dos empreendedores, O desafio é construir uma ponte entre os dois grupos e preparar o ecossistema para crescer como um time. Esse é o meio de campo que precisa ser jogado pelos dinamizadores.

Um dos caminhos é a criação de mais espaços de troca e diálogo sobre a construção do ecossistema de impacto na Amazônia. As soluções surgem a partir de uma inteligência coletiva e dessas pontes entre negócios e investidores. Essa é a aposta para fomentar o desenvolvimento contínuo desse ecossistema, que um dia vai ser o grande diferencial e motivo de orgulho para o Brasil.

colunista-IMAGEM

Mariano Cenamo é Diretor de novos negócios do Idesam e CEO da AMAZ aceleradora de impacto

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