Cinco conselhos da gestora de Al Gore para investir de forma sustentável

"O melhor jeito de investir é achar as empresas que estão do lado certo da história", afirma Colin Le Duc, da Generation, pioneira do ESG que gere US$ 30 bi

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Um dos ativistas climáticos mais célebres do mundo, o ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, é conhecido por ter levado o prêmio Nobel da Paz, em 2007, pela sua contribuição em informar o mundo sobre os perigos da mudança climática, em conjunto com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU.

Ou pelo documentário “Uma Verdade Inconveniente”, que ganhou dois Oscars e um Grammy. 

Mas o que pouca gente conhece é seu papel como pioneiro nos investimentos responsáveis.  

Em 2004, Al Gore co-fundou a Generation Impact Management, uma firma de gestão de recursos pioneira em sustentabilidade, ao lado de David Blood, ex-CEO da asset do Goldman Sachs, e mais cinco executivos do mercado financeiro. 

A ideia era provar que sustentabilidade e investimento de longo prazo eram praticamente sinônimos e que não era necessário sacrificar meio-ambiente por retornos — muito pelo contrário.

Dezesseis anos depois, os resultados falam por si só. O flagship da casa, um fundo de ações globais, rendeu 14,31% nos últimos dez anos, contra 8,83% do índice MSCI ACWI, benchmark para a categoria.  Hoje, a Generation gere US$ 31 bilhões em duas estratégias principais: ações globais e private equity.

No painel de encerramento da Expert ESG, da XP, Colin Le Duc, um dos sócios fundadores da Generation, falou sobre a experiência da gestora, a evolução do ESG, o risco de greenwashing e o falso dilema entre retornos e resultados.  

A seguir, resumimos cinco conselhos do executivo: 

1. Sustentabilidade é sinônimo de longo prazo 

“O melhor jeito de investir é achar um conjunto de companhias que estão do lado certo da história para o longo prazo”, diz Le Duc, sobre a estratégia de investimento da Generation. 

Segundo ele, a ideia de ter uma asset focada em integrar ESG ao processo de investimento há 16 anos veio da visão de que a sustentabilidade estava se tornando cada vez mais uma força organizadora da economia global. 

Esse seria um diferencial relevante num momento em que os hedge funds se proliferavam nos Estados Unidos e na Europa com uma visão cada vez mais curto-prazista. 

“Se você está focado no longo prazo, questões de sustentabilidade se tornam cruciais para o valor das companhias e toda a economia”, diz Le Duc. 

A estratégia é ainda mais relevante para a Generation, que tem um portfólio altamente concentrado, que não chega a 50 empresas. “Nesse contexto, o ESG ajuda com o alto nível de convicção que temos no investimento.” 

2. ‘Integridade é o que você faz quando ninguém está olhando’

Com a sustentabilidade cada vez mais se tornando um tema do mainstream, como identificar o marketing e o que é efetivamente prática? 

Primeiro, responde Le Duc, é preciso ver onde as companhias estão investindo seu dinheiro. 

“Nós não investimos em empresas de petróleo. Mas apenas a título de exemplo, se uma empresa de petróleo diz que preza por um futuro livre de carbono e que está disposta a fazer a transição, mas continua investindo 95% de seu capex em exploração e produção de petróleo e talvez apenas 5% em renováveis, eu não acredito no que ela está dizendo”, resume. 

Segundo, diz ele, é necessário olhar para como a empresa faz seu lobby. 

“Na indústria automotiva teve uma grande controvérsia alguns anos atrás, com várias empresas falando sobre reduzir emissões, enquanto estavam fazendo lobby para atrasar a mudança de regulação”, aponta. “Para mim, integridade e ética é sobre o que se faz quando ninguém está olhando”. 

Por fim, os analistas da Generation passam boa parte de seu tempo falando com ex-executivos das potenciais investidas. “É quase como falar com a ex-mulher de alguém: você descobre a verdade.” 

3. ESG não é mágica, é bom senso

Mesmo com um track record positivo em mãos e diversas pesquisas acadêmicas mostrando o contrário, a Generation ainda ouve a mesma pergunta: é preciso abrir mão de performance financeira para ter um investimento sustentável? 

“Normalmente gosto de virar essa pergunta para quem a fez: me diga você porque investir em indústrias do passado é uma boa ideia. Por que você acha que o valor de suas ações de petróleo e de motores a combustão não vai cair com o rumo que a sociedade está tomando”, aponta o gestor. 

Ele cita como exemplo a petroleira Exxon Mobil, que passou de uma das empresas mais valiosas dos Estados Unidos para a exclusão do índice Dow Jones em menos de uma década. Ao mesmo tempo, a Tesla, de veículos elétricos, se tornou mais valiosa que uma série de grandes montadoras de carros a motor a combustão somadas. 

“ESG não é mágica, é apenas bom senso”, aponta. “Há muito mais valor em risco vindo da transição sustentável do que as pessoas percebem.” 

4. Como lidar com as zonas cinzentas

Apesar de os benefícios da integração ESG serem uma questão de bom senso, colocar os princípios em operação é uma tarefa bem mais complexa e que exige um alto nível de especialização e experiência. 

“Não é uma abordagem de ticar caixinhas. Você não pode dizer: essa companhia tem uma política social, essa companhia tem cinco mulheres no board de um total de 20 pessoas e por isso é ESG. Não é como funciona. Essas coisas são importantes, mas são básicas.” 

Na maioria das situações, diz, o ESG não é preto e nem branco, mas está numa zona cinzenta, como nos casos em que a companhia ainda está fazendo a transição de modelo de negócio ou tem um negócio legado que não está alinhado com a sustentabilidade.

“O que é mais difícil é fazer esses ‘calls’ onde tem um nível de ambiguidade. Gestores que não são experientes com frequência compram uma história de greenwashing e se decepcionam. Ou tem outras companhias por aí que têm histórias de sustentabilidade muito positivas, mas nunca falam sobre elas.”

5. Como medir impacto? ‘Perfeito não pode ser inimigo do bom’

De uma gestora focada em mensurar o risco da mudança climática e outros riscos relacionados a ela, a Generation vem cada vez mais caminhando no sentido de se tornar uma gestora ‘impact-first’, isto é, cuja intencionalidade dos investimentos é voltada para contribuir para a mitigação da questão climática, diz Colin. 

Nesse sentido, diz, a falta de padrões consolidados para medir o impacto dos investimentos não é desculpa para os investidores se manterem numa abordagem focada apenas no tradicional risco/retorno. 

“A mensuração de impacto precisa ser correta direcionalmente. Não precisa necessariamente ser uma ciência exata, porque você não quer que o perfeito seja inimigo do bom”, aponta. 

Para o impacto em relação às mudanças climáticas, o trabalho é relativamente mais fácil, já que há uma unidade de medida convencionada: toneladas de CO2. E frameworks como o Task Force on Climate Related Disclosure  (TCFD) vêm evoluindo para dar uma ponto de partida comum para empresas, governos e investidores. 

“É muito difícil de fazer em outras áreas de ODS. Como você mede alívio de pobreza? Aumento de educação? Melhores resultados de saúde? Governança melhor num país? São medidas muito subjetivas, não há acordo sobre um conjunto comum de padrões, mas acho que também tem muito trabalho acontecendo em volta de métricas e verificação.”

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