BV vai neutralizar emissão de CO2 dos veículos financiados

Banco controlado por Votorantim e BB dá passo além ao compensar automaticamente as emissões de sua principal linha de negócios

 

Um dos líderes em financiamento de veículos no país, o Banco BV vai passar a compensar as emissões de CO2 dos automóveis de sua carteira de crédito a partir de 2021.

A compensação será automática em todos os novos contratos de carros, motos, ônibus e caminhões e, para o estoque financiado, será dada a opção para os clientes aderirem ao programa. Tudo pago pelo BV.

Como o prazo médio dos contratos de financiamento é de 48 meses, a estimativa é que, com o giro natural da carteira, 100% dos veículos financiados pelo banco terão suas emissões compensadas a partir de 2024, atingindo um volume de 4 milhões de toneladas de CO2 por ano.

No primeiro ano, o volume deve ser bem menor. Hoje o banco — controlado pelo Grupo Votorantim e pelo Banco Brasil — tem 2,2 milhões de veículos financiados.

O BV não revela quanto espera gastar com o programa, mas diz que o custo não será repassado ao cliente e que os recursos sairão de uma verba de sustentabilidade. A compensação só será feita pelo banco durante o prazo em que o veículo estiver financiado.

Segundo estimativas feitas por especialistas do mercado de carbono, quando o programa chegar nos 100%, o investimento anual do BV deve bater em R$ 30 milhões.

Inicialmente o banco fará a compensação por meio de compra de créditos de carbono de um mix de projetos de energia renovável (que são mais baratos), aterros sanitários e também algo de florestal (que são mais caros).

Não se tem notícia de outros bancos no Brasil que tenham iniciativas para compensar compulsoriamente as emissões de linhas de financiamento inteiras. E, certamente, nada nesse volume.

Bancos e outras instituições do setor financeiro brasileiro têm se comprometido a fazer a compensação de suas emissões diretas, que não costumam ser muito relevantes dada a natureza de baixa intensidade de carbono da atividade financeira. O relevante no sistema financeiro são as emissões indiretas, ou seja, aquelas atreladas aos financiamentos concedidos e outras atividades, como investimentos.

Alguns bancos têm procurado descarbonizar suas carteiras de crédito, cortando o financiamento para projetos de energia a carvão, por exemplo, e apostando mais em projetos limpos.

O BV faz a compensação de suas emissões diretas desde 2019 e agora dá um passo além ao contemplar a sua maior área de negócios e justamente num segmento carbono intensivo.

Com R$ 39,7 bilhões financiados ao fim do primeiro semestre, a carteira de veículos respondia por 58% de todo o portfólio de financiamentos do banco. E quase 90% dela é de automóveis usados.

Calcular e compensar

O cálculo das emissões não é simples, porque envolve estimativas de média de uso dos veículos e também de consumo de combustíveis.

E uma das grandes dificuldades no mercado brasileiro em particular vem da sua própria vantagem em termos ambientais: boa parte da frota de veículos leves é flex, ou seja, roda com etanol ou gasolina.

Ainda que o etanol seja menos poluente, o que alivia a conta, não há como assegurar qual será o combustível escolhido pelos donos dos carros — e as emissões mudam radicalmente entre um combustível e outro.

No caso do BV, as contas foram feitas por uma consultoria externa, a Sitawi, utilizando dados públicos que demonstram a média de utilização de cada tipo de veículo.

Quem está assessorando o BV para a compensação é a consultoria Way Carbon, que tem o programa Amigo do Clima.

A compensação acontecerá por um mix de projetos.

Enquanto o crédito de carbono de um projeto florestal custa em torno de US$ 4 a US$ 5 a tonelada equivalente, o de energia renovável pode custar US$ 1,50. Esses são preços para consumidor final, que podem ser reduzidos numa compra em larga escala.

Para manter o custo da iniciativa sob controle e evitar que seja interrompida mais adiante, a ideia é que o banco desenvolva seus próprios projetos de compensação.

Na fila para fazer IPO, o BV já vinha indicando a intenção de aprofundar suas práticas ESG (ambientais, sociais e de governança).

No segundo trimestre, emitiu um green bond de US$ 50 milhões no mercado externo, na primeira operação do tipo de um banco privado nacional. Os recursos serão destinados ao financiamento de projetos relacionados a geração de energia renovável, como painéis solares e parques eólicos. A ideia é fazer novas emissões do gênero adiante.