Bradesco é primeiro banco brasileiro a se comprometer com portfólio neutro em carbono

Banco adere ao Net-Zero Banking Alliance, iniciativa liderada pela ONU e lançada em abril para alinhar carteiras de crédito ao Acordo de Paris

 
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O Bradesco é o primeiro banco brasileiro a aderir à Net-Zero Banking Alliance (NZBA), comprometendo-se a ter um portfólio de crédito neutro em carbono até 2050. 

O compromisso é importante porque, quando se trata da atividade bancária, neutralizar as emissões diretas é pouco relevante (embora costume ser algo anunciado com alarde). O que importa mesmo é a pegada de carbono da carteira de crédito.

Lançada em abril, a iniciativa é encabeçada pela ONU e propõe que os bancos adotem uma postura mais robusta para alinhar seus portfólios a fim de atingir a neutralidade das emissões de gases de efeito estufa. 

O movimento já reúne mais de 40 instituições financeiras do mundo inteiro, incluindo Morgan Stanley, Santander, Deutsche Bank, BNP e HSBC. Outros bancos ainda podem aderir, desde que façam isso até novembro, quando terá início a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP 26.

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Entre os bancos em atuação no país, o Santander Brasil já fazia parte do compromisso, por causa da adesão global do grupo espanhol. O mesmo acontece com subsidiárias locais de outras instituições estrangeiras.

A partir da conferência, os bancos signatários terão 18 meses para definir as metas que deverão ser cumpridas pelas empresas que fazem parte de seus portfólios. O planejamento inclui a divulgação dos compromissos a longo prazo, até 2050, e também de médio prazo, até 2030.

Neste primeiro momento, o plano é estabelecer as metas propostas para os setores carbono intensivos. Para outros setores da economia, o prazo para estipular e divulgar os objetivos a serem cumpridos com base no Acordo de Paris é maior: 36 meses.

Em conversa com o Reset, Marcelo Pasquini, head de sustentabilidade corporativa do Bradesco, explica que o banco levou algum tempo para aderir à aliança porque aguardava a finalização de estudos para analisar as emissões de carbono das empresas que fazem parte do portfólio do banco.

“Havia o receio de fazer um anúncio prematuro e soar como greenwash. Quando começamos a desenvolver isso, estávamos no meio da formulação do estudo e não havia uma mensuração”, explica.

Pasquini diz que a intenção não é excluir empresas de seu portfólio, “mas fazer com que elas mudem a forma de trabalhar buscando o net zero de uma maneira estrutural”.

O plano traçado pelo Bradesco ainda não foi detalhado, mas vai seguir o cronograma proposto pela NZBA — e deverá contar com mais metas de curto prazo além das compromissos para 2030.

“Apesar do prazo final ser longo, há um trabalho enorme a ser feito nos próximos anos. A agenda de curto prazo pode até ser mais importante do que a de longo prazo”, diz Pasquini.

No processo de descarbonizar o portfólio de acordo com a cartilha da aliança, os bancos deverão ter uma postura mais rigorosa em relação às compensações e aos créditos de carbono, focando mais na redução real das emissões, para que os chamados offsets tenham um papel complementar.

“Queremos reduzir as emissões, não compensar. Mas dá para fazer net zero com isso hoje? Não. Será preciso desenvolver novas tecnologias para tornar isso realidade”, afirma Pasquini.

A ideia é atuar em conjunto com as empresas clientes para auxiliar nessa transição, trabalhando com o engajamento e linhas de financiamento. “A própria meta de R$ 250 bilhões  destinados para o financiamento sustentável que anunciamos recentemente vai nesse sentido”, diz o executivo.

Segundo ele, para a transição acontecer, é fundamental o comprometimento do governo, com políticas públicas que foquem na precificação do carbono ou em elementos de taxação. 

Mesmo assim, é de se esperar que algumas empresas não se adequem às novas políticas voltadas para a linha. Nesta seara, companhias que trabalham com carvão mineral, por exemplo, podem encontrar portas fechadas no Bradesco quando buscarem por crédito. 

“Estamos trabalhando com políticas de restrição mais duras de concessão de crédito. E também buscando empresas que estejam considerando realizar investimentos em indústrias mais sujas para aconselhar a não fazer isso e focar em setores mais limpos”, afirma.

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