Bradesco Asset quer colocar peso de R$ 520 bi a favor do engajamento com empresas

 

Com R$ 520 bilhões em ativos sob gestão, a Bradesco Asset Management (Bram) se prepara para iniciar uma fase de engajamento sistemático com as mais de 260 empresas nas quais seus fundos investem para discutir avanços na pauta ambiental, social e de governança (ESG).

A segunda maior gestora de fundos de capital privado do país desenvolveu um score ESG para 100% da sua carteira, o que inclui as empresas emissoras de ações e de renda fixa — e até o governo federal. Agora, quer passar a dividir essa informação com as investidas.

“Vamos começar a abrir nossos ratings ESG e chamar as empresas para que elas possam entender por que as avaliamos dessa ou daquela forma, dentro dos três pilares”, diz Renato Ejnisman, diretor executivo do Bradesco responsável pela asset, pelo private, pelo middle market e área internacional. “A ideia é que a empresa possa entender, melhorar e, com isso, a gente possa fazer uma alocação maior no portfólio.”

Ejnisman diz que esse passo faz parte de um entendimento da gestora de que o diálogo com as empresas é mais produtivo do que aplicar o chamado filtro negativo, em que determinado setor ou empresa é colocado numa lista proibida. “Achamos que o filtro negativo é um desfavor para nossos clientes e até para a empresa.”

Hoje a gestora já promove engajamentos pontuais para discutir aspectos socioambientais e de governança com empresas das quais é acionista. Neste ano, já foram 70 interações e em 2019 haviam sido 137.

A diferença é que a partir de agora isso será feito com mais ciência e de forma sistemática.

“As informações já existem e vamos produzir relatórios a partir delas, que serão enviados a todas as empresas do portfólio”, diz Marcelo Nantes, co-CIO da Bram, responsável pela gestão de renda variável e pela análise de ações e renda fixa.

Os envios devem começar a acontecer neste segundo semestre e, a partir dos disparos, a equipe da Bram fará um corpo-a-corpo — por ora virtual — com parte das empresas.

“Agora estamos avaliando qual a melhor estratégia, se é engajar com as empresas pior ranqueadas ou com aquelas que perderam muitas posições no ranking”, diz Nantes. “Não será possível fazer o mesmo trabalho com mais de 200 empresas que estão na carteira. Temos que montar a estratégia que gera maior impacto de melhoria no longo prazo.”

Diante da onda ESG que ganha corpo no país neste ano, Ejnisman diz que a Bram precisa comunicar melhor as práticas que já adota. “Não somos percebidos pelo mercado e clientes como tendo relevância nesse tema. O cliente precisa saber o valor que estamos agregando e queremos ajudar a disseminar essa cultura no mercado.”

Novos produtos ESG também estão em formatação.

A Bram é signatária do Principles for Responsible Investment (PRI) desde 2010 e o score começou a ser criado em 2007. Mas naquela época mal se falava em ESG e o termo em voga era o do investimento responsável.

Um ex-executivo da Bram diz que, na última década, tentativas anteriores de aprofundar as práticas ESG da casa tiveram dificuldade em prosperar. Ele relata resistência de gestores, que se incomodavam por ter que incorporar um novo parâmetro a suas planilhas, desinteresse de outras instâncias do banco e também dos clientes.

ESG sem fórmula

Enquanto a Itaú Asset criou um modelo para atribuir um preço a cada um dos fatores ESG mapeados e incluir as oportunidades e riscos no valuation da empresa, Nantes diz não acreditar nesse caminho.

“A discussão da probabilidade de ter um evento ambiental e o tamanho do impacto no preço são aspectos subjetivos. Não existe resposta certa para isso. É uma falsa sensação de precisão”, diz.

No lugar de uma fórmula, a Bram adota um ranking, de acordo com a nota ESG. O ponto de partida da análise são informações públicas das companhias, mas a casa adiciona uma camada de avaliação própria.

“A gente visita a empresa, o fornecedor da empresa, como parte do nosso processo de investimento. Colocamos a visão da Bram e vamos ajustando os peers em função dessa visão.”

Em cada um dos três pilares ESG, a equipe avalia cinco quesitos, num total de quinze.

A gestora tem um analista responsável por coordenar a análise ESG, mas cada um dos oito analistas de renda variável e quatro de renda fixa são responsáveis por avaliar as companhias dos seus setores sob a ótica dos filtros. “É importante ter essa participação de todos os analistas, porque são eles que conversam com as empresas o ano todo”, diz Nantes.

Ao final do processo, cada empresa recebe sua nota, numa escala de zero a 100. Essa nota é uma informação a mais que os gestores têm em mãos para montar seus portfólios e têm total autonomia para isso. Como resultado da somatória de ratings ponderados, cada fundo tem a sua nota ESG.

Tem início, então, um processo de ‘benchmarking ESG’.

As carteiras são monitoradas e comparadas ao score ESG do benchmark que segue. Exemplo: se o parâmetro de rentabilidade de um fundo é o Ibovespa e a carteira começa a descolar do índice para baixo, ocorre um debate com o gestor para entender quais papéis estão causando a distorção e tentar melhorar a performance socioambiental. Por exemplo, substituindo a ação por outra melhor ranqueada.

Mas seria o Ibovespa — ou qualquer outro índice de ações ou renda fixa do mercado local — um bom termômetro de qualidade de políticas ESG? “Não estou falando que a nota do Ibovespa é boa ou ruim. Ela é o que é, uma consequência do universo de investimento que temos. Nossa premissa é investir em empresas que tenham desempenho ESG melhor do que o universo de investimentos da bolsa”, diz Nantes.

Pelos critérios da Bram, o Ibovespa tem um score 60. Já o índice de sustentabilidade da B3, o ISE, tem score 67.

Com cerca de R$ 400 bilhões dos ativos sob gestão alocados em títulos públicos, a Bram avalia também o governo federal.

Mas essa nota Nantes e Ejnisman não abrem.

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