Blue Like an Orange investe na Placi e aposta em lacuna do sistema de saúde

Gestora de impacto aporta R$ 30 milhões em rede que se dedica a cuidar de pacientes que saíram da fase aguda

 

Depois de captar um fundo de US$ 200 milhões para a América Latina, a gestora Blue Like an Orange acaba de fechar um investimento de R$ 30 milhões na Placi, empresa de saúde do segmento de ‘hospitais de transição’, uma novidade no Brasil que preenche uma lacuna no sistema de saúde e  tem alto potencial de crescimento.

A lógica dos hospitais de tratamento pós-agudo, como o segmento é conhecido no mercado americano, é ser uma alternativa entre os hospitais de alta complexidade, que atendem casos agudos, e o home care, que dificilmente atende todas as necessidades do paciente.

O foco são pacientes que precisam de internação prolongada para terapias de reabilitação ou cuidados paliativos, num conceito de ‘low tech’ e ‘high touch’.

Além de possibilitar a liberação de leitos ocupados por pacientes que saíram da fase aguda nos hospitais de alta complexidade, os hospitais de transição têm diárias que chegam a custar de um terço a um quarto da praticada pelos bons hospitais tradicionais, o que os torna mais acessíveis.

“Adicionar essa e outras verticais no sistema de saúde o torna mais inclusivo. É uma forma de racionalizar o uso dos recursos caríssimos de um hospital tradicional, ajudando a baixar o custo do sistema para todo mundo”, comenta um investidor do segmento.

Fundada em 2013, a Placi tem 200 funcionários e duas unidades no Rio de Janeiro – em Botafogo e Niterói – que no ano passado atenderam 300 pacientes. Os recursos do Blue Like an Orange vão financiar o plano de crescimento da empresa, com a expansão das unidades existentes, a abertura de um nova unidade no Rio e duas em Brasília, para chegar a 360 leitos e capacidade de atender 1200 pacientes por ano.

“O modelo de saúde no Brasil tem lacunas de renda e abordagem. O que nos atraiu na Placi foi ver como um tratamento mais humano, em ambiente acolhedor, com socialização e terapias, pode ser transformacional”, diz Cristina Penteado, que lidera as operações do fundo no Brasil.

O investimento foi feito na forma de um financiamento estruturado.

Fundada em 2017 por ex-diretores do Banco Mundial, a Blue Like an Orange opera com uma estrutura financeira conhecida como ‘mezanino’, que mistura características de dívida e ações — como uma concessão de crédito que pode ser convertida em participação acionária. Os detalhes do financiamento à Placi não são públicos.

O modelo de negócios se assemelha muito mais ao das redes laboratoriais do que ao de hospitais propriamente. A chave não é ter unidades grandes com centenas de leitos e equipamentos complexos, mas ter unidades menores com 50 a no máximo 100 leitos e oferecer conveniência, ou seja, estar próximo das famílias. A capilaridade da rede é fundamental.

Há outras empresas regionais que seguem o modelo da Placi. Em São Paulo, o destaque é a Humana Magna, com duas unidades na capital. No futuro, o segmento deve tender à consolidação. “Mas ainda tem muito espaço para crescer organicamente, porque as empresas de ponta têm duas a três unidades”, diz Penteado.

Um dos desafios no Brasil é quebrar a resistência dos familiares e pacientes, que muitas vezes ainda enxergam a estrutura de um grande hospital como mais segura. Outro é o processo de educação dos planos de saúde, que num primeiro momento percebem os hospitais de transição como mais um reembolso a ser feito. “Aos poucos os planos entendem que não é um custo a mais, ao contrário”, diz Penteado.

Nos Estados Unidos, uma das líderes do segmento é a Select Medical, com mais de 1800 unidades espalhadas pelo país, em formatos distintos, como clínicas de reabilitação e espaços para tratamento de doenças críticas. A empresa vale quase US$ 3 bilhões na bolsa de Nova York.

A Placi é controlada por um fundo da gestora de private equity e venture capital da área de saúde FinHealth. O investimento é o quinto realizado pela Blue Like an Orange e o segundo no Brasil.

LEIA MAIS

Blue Like an Orange levanta fundo de US$ 200 milhões para impacto na América Latina