BlackWin: a plataforma de investimento-anjo das mulheres negras

Iniciativa de Jéssica Silva Rios e Luana Ozemela (foto), BlackWin quer conectar investidoras com negócios fundados por negros e negras

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De 8 mil investidores-anjo mapeados no Brasil, apenas 16% se autodeclaram mulheres e 3%, negros, segundo um levantamento feito pela organização Anjos do Brasil no mês passado. 

Cruzando os números, a representação estatística de investidoras-anjo mulheres que também são negras se aproxima do zero.

É exatamente nesse fosso que a Black Women Investment Network (BlackWin), que será lançada oficialmente hoje em evento online, quer atuar. 

A BlackWin é uma iniciativa de Jéssica Silva Rios, ex-sócia da Vox Capital e consultora no programa Black Founders Fund do Google, e de Luana Ozemela, economista e CEO da DIMA Consult (foto).

 

O objetivo é conectar mulheres negras, que desejam diversificar seus investimentos, com fundadores e fundadoras negros de startups em estágio de captação inicial.

“O capital semente vindo de mulheres negras as tira da posição de observadoras e as coloca como protagonistas das decisões que redefinem o futuro, afinal, investir é alimentar o mundo que queremos”, diz Ozemela. 

A executiva já percebia a atuação independente de algumas mulheres como investidoras-anjo fora das redes tradicionais — das quais elas ficavam apartadas, muitas vezes, por não terem ocupado um cargo de ‘C-level’, por exemplo.

Rios afirma que a BlackWin se inspira num movimento do século 18 chamado Irmandade da Boa Morte, confraria de negras alforriadas de Cachoeira (BA) que, entre outras atividades, usavam sua renda para libertar outras pessoas negras.

A ideia é que a ascensão econômica de uma parte da população negra deve ser usada como ferramenta de propulsão do poderio econômico e político do restante da população negra.

Fechando o gap

Segundo um estudo de 2021 feito pelo Movimento Black Money, empreendedores negros relatam que sua maior dificuldade é conseguir empréstimos e investimentos, mesmo que seus negócios demonstrem bom potencial de rentabilidade.

Neste sentido, o foco no capital semente é estratégico para impulsionar os negócios de pessoas não-brancas, porque elas, em geral, não podem contar com recursos de familiares ou de amigos, diz Rios.

“Esta é uma diferença fundamental de capital relacional entre empreendedores brancos e negros. Com um orçamento apertado, os negros apostam com recursos do acúmulo de jornadas de trabalho. Mas não estar integralmente dedicado ao negócio é um critério que derruba suas propostas nos fundos de investimento”, afirma a investidora.

Como a BlackWin funciona

De um lado, as atuais membros estão divulgando a plataforma para outras mulheres negras. As fundadoras encontraram 40 mulheres neste perfil em sua rede de contatos, das quais 20 já formalizaram a entrada na plataforma.

Ozemela e Rios esperam que o evento de lançamento amplie a base do clube de investidoras-anjo, que não tem limite de participantes.

Na outra ponta, a BlackWin vai apresentar uma curadoria de startups. Além de mulheres ou homens não-brancos controlarem mais de 50% do capital social da empresa, as empresas recomendadas pela BlackWin deverão cumprir outros requisitos.

As startups deverão ter sede e operação no Brasil; incorporar inovação social e tecnologia ao cerne do negócio; estar num estágio de maturidade com um Mínimo Produto Viável (MVP); e ter um modelo de negócio conectado aos objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS).

A intenção da BlackWin é que as investidoras-anjo juntas somem aportes ao redor dos R$ 100 mil em cada empresa. Co-investidores poderão alavancar as rodadas, tornando a plataforma uma referência de investimento em negócios liderados por pessoas não-brancas.

Com algumas startups já no radar, a BlackWin diz que sua análise de diligência será rigorosa. Em um cenário otimista para os negócios, a plataforma estima que uma boa meta de início de operação é apresentar, ainda em 2022, quatro recomendações de investimento para a conclusão de ao menos uma rodada.

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